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Anja Lóven: “Quando salvamos as crianças e perguntamos se são bruxas, elas respondem que sim”

No dia em que todas as atenções estão viradas para os mais pequenos lembramos as crianças que não têm acesso aos direitos mais básicos e são alvo de extrema violência, como são os casos das meninas e meninos acusados de bruxaria na Nigéria e que são frequentemente torturados e violentados até à morte. Foi para salvar essas crianças que a dinamarquesa Anja Ringgren Lóven criou, em 2012, a ONG African Children´s Aid Education and Development Foundation. Uma decisão que tomou quando teve conhecimento dessa realidade, pela primeira vez, em 2008, através de um documentário transmitido pela BBC. Desde então, além da ONG, gere na Nigéria um centro que acolhe dezenas de crianças vítimas dessas superstições.

Anja Ringgren Lóven, que é também mãe de um menino, acredita que pela educação se poderá mudar esta realidade, mas para já é preciso agir par proteger essas crianças. Foi isso que veio dizer às Conferências do Estoril, onde o Delas.pt a entrevistou.

Antes desta entrevista comentava que tinha de pôr uma máscara para não deixar que as emoções afetassem o seu trabalho com estas crianças, da Nigéria. Como é lidar com o sofrimento de crianças tão pequenas como estas? Como é que se consegue trabalhar com isso?
É como ter uma ferida na nossa alma, porque o que eu vejo é tão horrível. Mesmo quando falo sobre isso ninguém consegue imaginar o que acontece àquelas crianças. Nós, seres humanos, temos esta espécie de sistema de proteção, em relação às coisas que não conseguimos absorver, que é melhor para nós deixar que essas coisas saiam depressa. É demasiado para nós, não conseguimos lidar com isso. E é o que também se passa comigo. Para sobreviver ao trabalho que faço, aprendi a representar um papel e a não mostrar as emoções. É o que acontece nas missões de salvamento, por exemplo, não se revelam as emoções porque isso pode por em perigo toda a missão. Se se começar a sentir raiva ou tristeza tem se pôr uma cara feliz, ou seja, não deixar os pastores que acusam essas crianças de serem bruxas entenderem porque é que estamos ali.

O que é que acontece se perceberem?
Em princípio, eles não nos deixam levar as crianças, porque não querem que pessoas estranhas interfiram nos seus problemas, querem ser eles próprios a tratar do assunto. Por isso, é preciso aprender a ter esse tal controlo sobre as emoções. Para o meu marido que é o nosso diretor, que é a minha inspiração e o meu mentor, é mais fácil por ser homem. Nós, as mulheres, choramos, choramos e choramos. Então ele ensinou-me: se eu queria fazer isto teria de esconder o que sentia. Ele dizia-me muitas vezes: ‘Podes fazê-lo à noite, quando estiveres sozinha. Mas não metas para dentro, ou então não podes fazer este trabalho”.

Falando em homens e mulheres, o facto de ser mulher trouxe-lhe entraves acrescidos na abordagem destas comunidades?
O que é difícil é a cultura, porque no nosso mundo ocidental lutamos por direitos iguais, direitos das mulheres, e em África o lugar da mulher é abaixo do do homem. Simplesmente, é assim que as coisas são.

Independentemente da religião de que estejamos a falar…
Independentemente da religião, o homem é mais forte que a mulher. Por isso, não estão habituados a ver uma mulher que seja autónoma. E sendo não só uma mulher mas uma mulher branca, o respeito que têm por ela parece inferior ao que teriam se fosse um homem. No meu trabalho, isso não tem sido uma questão relevante porque eu estou a fazer algo que é tão importante para as suas comunidades que eles até me veem como alguém que é muito corajoso. Sou mulher e vim sozinha para a Nigéria, sem conhecer ninguém. Há cinco anos [quando começou] ficaram totalmente impressionados com o facto de eu poder fazer isso, porque normalmente não veem uma mulher a fazer este tipo de coisas. Como disse, não sinto que tenha sido uma questão relevante para mim, mas também sinto que a cultura africana às vezes é muito forte na crença do lugar que as mulheres ocupam na sociedade. As mulheres são muito respeitadas, mas é suposto tomarem conta das crianças e fazerem a comida. Enquanto para nós, no mundo ocidental, isso é uma coisa do século passado.

É difícil comparar.
Exatamente. E eu nem penso nisso. Há tantas coisas que eles não tiveram a possibilidade de desenvolver e, por isso, mantêm as suas superstições e sistemas de crenças.

Como é que foi o seu primeiro contacto com essas comunidades e com os pastores que mantêm vivas essa crenças.
Quando fui para a Nigéria, pela primeira vez, não ia sozinha às aldeias, ia com uma equipa que já fazia este tipo de trabalho há vários anos. Mas, de facto, eles podem ser muito hostis e perguntam-nos o que é que estamos ali a fazer. Não estão habituados a pessoas de fora, e as regiões [em que trabalhamos] são das mais pobres do mundo. O governo nigeriano não lhes dá a ajuda básica, eles não têm acesso a água potável, ninguém confirma se as crianças vão à escola. Não sei se está familiarizada com a expressão “lei da selva”, mas é realmente o que se passa nestas áreas. Não interessa o que é que o presidente e o governo dizem, porque eles estão ausentes destas zonas, não ajudam as suas populações. Quando aparecemos como organização sentimos, de facto, essa hostilidade, mas aprendemos algumas técnicas. Se formos com a mente aberta, sem apontar dedos e culpá-los eles relaxam, são mais abertos e ficam mais dispostos ao diálogo. Por outro lado, alguns aldeões podem ser muito amistosos, hospitaleiros e até curiosos num primeiro contacto. Na parte cristã do país [onde a sua organização está] eles são muito hospitaleiro, mas quando começamos a explicar por que razão estamos ali, quando os questionamos porque é que eles acreditam que as crianças são bruxas, eles erguem uma barreira defensiva.

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E o que é que os leva a acreditar que estas crianças são bruxas?
Não é que as crianças tenham um aspeto diferente do das outras. O que acontece é, por exemplo, existir uma família, com muita pobreza, o tio que a sustenta perdeu o trabalho, ao mesmo tempo morre a avó, os animais ficam doentes e há uma criança que passa o tempo a chorar. Tudo isso é associado a superstições, a algo de sobrenatural. Então, essa pessoa que sustenta à família acaba por culpar um dos filhos da irmã de todo o mal que está a acontecer à família. Aponta-o como sempre tendo sido um rapaz preguiçoso, aponta os problemas da família e conclui: “Ele é um bruxo”. Isso é um dos lados. Depois passam a ir, todos os domingos, aos terreiros, onde pastores fazem rituais e confirmam que as crianças estão possuídas e que são bruxas, oferecendo-se a seguir para ajudar os pais e tirar os demónios das crianças. Os pais amam os seus filhos, mas na ignorância, acreditam realmente que os seus filhos estão possuídos por espíritos malvados e farão qualquer coisa para ajudar os filhos. Mas sendo estas famílias tão pobres, como é que elas podem pagar? Às vezes pagam com os animais que têm.

Pagam ao pastor.
Sim, ao pastor, dão-lhe tudo o que têm. Mas 90% das famílias não pode fazer isso. Então não permitem que a criança continue em casa a viver com eles – porque dessa forma os familiares também se arriscam a ser acusados de bruxaria, pela comunidade. Como têm medo, acabam por expulsar a criança da aldeia. E se os habitantes da aldeia virem essa criança, vão bater-lhe e torturá-la. Essas crianças fogem e escondem-se no mato e acabam por deambular pelas ruas [noutras áreas mais urbanas], durante o dia, pelos mercados para roubar comida, tentando sobreviver. As crianças têm consciência do que as espera. Essa é a pior parte. Elas viram os seus amigos ou colegas da escola serem queimados vivos e crescem a acreditar nisso. Aliás, muitas das que foram torturadas acham mesmo que são bruxas. Quando salvamos as crianças e perguntamos se são bruxas, elas respondem que sim. Se eu pergunto se elas têm poderes mágicos, elas dizem: “sim”. Leva tempo, mesmo depois de as salvarmos, a mudar-lhes essa mentalidade.

Estas crianças são, sobretudo, raparigas ou rapazes?
Temos 48 crianças a cargo, e 34 delas são rapazes. Mas não há realmente uma razão. Muita gente pergunta-me porque são eles a maioria. Eu e o meu marido acreditamos que pode ser porque as raparigas começam muito cedo a tratar das tarefas domésticas: a lavar, a limpar e a cozinhar. Os rapazes não. Eles brincam e como são mais imaturos que as raparigas durante mais tempo – talvez porque elas também são forçadas a casar cedo –pensamos que provavelmente é mais fácil rotular os rapazes de bruxaria. Mas também pode não haver nenhuma razão e daqui a alguns anos serem mais raparigas.

Pode mudar?
Sim, pode mudar. E em relação às raparigas que estão connosco são igualmente vulneráveis, porque uma rapariga que ande na rua, seja em que parte do mundo for, tendem em bandos com outras crianças, a dormir nos matagais ou em casas abandonadas onde convivem com pessoas mais velhas e algumas das mais perigosas que existem. E por vezes, pessoas de famílias ricas também se aproveitam dessa situação e abusam sexualmente delas. Quando salvamos as crianças sabemos logo quais as que foram violadas pelos comportamentos delas. Algumas tocam-me no peito porque acham que é normal e que é assim que ganham o meu afeto. E além da maneira como agem, todas elas são testadas ao HIV, são observadas pelos médicos. Uma das meninas que salvámos tinha sífilis, coisas que nunca imaginaríamos porque só tem sete anos e foi abusada tantas vezes… Portanto, esse é o tipo de abuso a que aquelas crianças que são expulsas das suas aldeias estão sujeitas. Em 2010, a UNICEF fez um relatório que estimava que esta superstição afeta 10 mil crianças todos os anos. E não é que estejam todas a morrer em consequência disso, mas estão a ser afetadas, porque podem ser expulsas, torturadas e, efetivamente, mortas. Estamos a falar de um grande número de crianças nesta situação.

Disse na palestra que deu nas Conferências do Estoril que mesmo com as leis que foram criadas na Nigéria para impedir estas práticas, estas crianças continuam a ser perseguidas. Mas desde que está no país, conseguiu perceber alguma evolução positiva, alguns progressos nesse sentido?
Vemos progressos nas áreas de onde as crianças são originárias, porque regressamos a essas aldeias com o nosso programa de aconselhamento jurídico. E vimos uma mudança, porque as crianças que vimos quase a morrer e que retiramos dos matagais onde estavam escondidas, estão, ao fim de cinco anos, a voltar a casa, durante duas a três semanas, no período de férias escolares. Se me perguntassem há um ano se essa criança podia voltar a viver na sua aldeia, eu dizia que não, iam matá-la. Mas porque vamos sempre falar com os aldeões, tornamo-nos próximos deles. É essa a maneira como nós também trabalhamos, porque eles não são nossos inimigos, mas o que estão a fazer magoa as crianças. Se os ajudarmos, se os entendermos, vamos gradualmente mudando a sua mentalidade. Os nossos programas de aconselhamento jurídico implicam que passemos um dia inteiro nas aldeias. Eu explico-lhes que na Dinamarca e na Europa, também fizemos, em tempos, o que eles estão a fazer. E falamos das minhas tatuagens porque eles relacionam-nas com superstições.

Com o quê concretamente?
Eles chamam-me sereia e a sereia rege o submundo, é perigosa, o que faz com que muitas vezes não me olhem nos olhos, porque têm medo de mim. Mas na Nigéria o futebol é muito popular e seguem muito a Liga Inglesa, e muitos jogadores têm tatuagens. Então eu perguntei aos líderes mais jovens se eles também achavam que eles eram sereias. E eles pararam para pensar. Isso é apenas uma pequena ação que os faz pensar que talvez eu não seja uma sereia, talvez não seja uma bruxa. Temos de ter em mente que estas pessoas não foram à escola, não tiveram acesso à educação. Eu própria tenho de ter isso em mente quando falo com eles.

Pode dizer-se que essas pessoas são também elas vítimas?
Eles também são vítimas. Se falasse comigo, antes de eu ir para a Nigéria, eu estava pronta para lhes gritar, mas eles são vítimas. Aliás, alguns dos pastores são vítimas, é a forma que encontraram de sobreviver. No ano passado, a UNICEF referia num relatório que o povo nigeriano era o terceiro mais pobre do mundo. Os nigerianos sofrem muito e, nestes casos, se eles percebem que os aldeões acreditam que as crianças são bruxas e lhes pagam para eles as “curarem” eles acabam por viver disso. Há muitos lados nesta superstição e pode-se analisá-la de muitos ângulos, mas nós não temos os recursos, nem o tempo para combater a superstição, a corrupção. Precisamos de agir já. Temos de nos focar no aconselhamento e em pôr as crianças na escola. Educá-las. Porque no futuro são elas que vão mudar a história.

 

Imagem do destaque: Jorge Amaral/Global Imagens

Ana Tomás