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Quer ser mais feliz? Faça yoga!

Estava eu a ruminar numa frase que a minha irmã Teresa tinha dito sobre mim – “O Yoga é a vida dela” – e meia a pensar que não era nada assim, que sim faço yoga, que sim faço-o todos os dias, que sim já lá vão uns 8 anos de dedicação, mas daí a ser a minha vida…

Estava a pensar nisto tudo, e liga-me a editora do Delas.pt a pedir um testemunho pessoal sobre o yoga para o Dia Internacional do Yoga que se celebra a 21 de junho. Parece que mais do que uma pessoa me identifica como praticante de yoga, por isso vamos abraçar a definição.

Escrever é, no entanto, bem mais difícil do que falar no café sobre o tema com os amigos que nada percebem de yoga, ou até mesmo com aqueles que são praticantes muito avançados num qualquer workshop. Andei dias e dias a perspetivar como é que ia pôr no papel aquilo que para mim é tão intuitivo e, sim, parece que é verdade, tão intrinsecamente parte de mim, da minha rotina, da minha vida.

Não tenho dúvida de que praticar yoga me tornou uma pessoa muito, mas muito mais, feliz. Comecei aos 28 anos e durante um ano e tal pratiquei assiduamente, umas cinco vezes por semana. Mas os meus professores de então foram viajar, fiquei ‘órfã’ por assim dizer, e fui deixando de praticar, menos e menos cada semana, até que deixei por completo. Durante uns 8 anos nunca mais voltei ao Ashtanga, aquele em que comecei, e o meu contacto com outros tipo de yoga aconteceu ocasionalmente, no ginásio ou num trabalho que fosse fazer como jornalista.

Na verdade, sempre senti falta do dinamismo desta prática – é assim que dizemos: ‘vou praticar’, ‘a prática do yoga’, ‘já fizeste a tua prática de hoje?’. No meio de todo o exercício que sempre adorei fazer – e fiz! – senti sempre que me faltava algo. Algo, não! O Ashtanga Yoga mesmo. E, coincidiu com a altura em que acabei a minha psicanálise de 10 anos, recomecei devagar a praticar – não que na altura me tivesse apercebido, mas passado um ano liguei os dois acontecimentos, quase como se já tivesse feito a limpeza da mente, agora tratava-se de limpar o corpo (e um outro nível da mente). Um workshop aqui, uma aula ali, um fim de semana a ir ter com aquele professor, etc., e o Ashtanga voltou lentamente a entrar na minha vida. Até que se tornou diário, todas as manhãs, a caminho do trabalho, parava na escola a meio do caminho, e dedicava uma hora e pouco do meu dia a fazer yoga. Tornou-se um ritual, que me ajudava a acordar, a enfrentar o dia, a sentir-me melhor.

Após um par de anos a praticar diariamente com os meus atuais professores, Lea Perfetti e Tarik Van Prehn, eles saíram de Lisboa e levaram a sua escola Love Ashtanga Yoga para a Costa Alentejana. Mais uma vez órfã, foi altura de experimentar começar a praticar sozinha, na evolução ancestral da prática deste tipo de yoga: a tradição diz que devemos aprender com um professor, que nos vai dando mais e mais posturas à medida que estamos preparados para as receber, até que um dia devemos começar a praticar por nós próprias. Achei que não ia conseguir, e estava mesmo convencida que iria ter de procurar novo professor, porque desta vez não ia deixar de praticar. Decidi: vou tentar um mês, se conseguir, ótimo, senão procuro novo professor, sem stress. E não é que consegui?

Estilo no tapete

A prática em casa é diferente da que se faz numa escola, onde há horários, alunos ao lado a respirar, professores a ajustar nas posturas e a ajudar quando nos esquecemos de algo. É mais solitária, sim, mas muito boa, por outro lado, se calhar até melhor, porque a fazemos ao nosso ritmo e há uma conexão maior connosco mesmas. Há também uma grande necessidade de força de vontade, porque se há filhos e marido, é preciso encaixar a prática nos horários da casa, se vivemos sozinhas é preciso motivação a dobrar para estender o tapete e dedicar uma hora de manhã, em jejum, a esta sequência de movimentos e posturas sempre acompanhados de uma respiração especial – que se chama Ujjayi, é feita pelo nariz, com um som especial.

Desde então, já lá vão uns 4 anos, pratico todos os dias em casa, e respeitando a tradição indiana de descansar um dia por semana (normalmente ao sábado, no qual aproveito para ir ao Cross Fit testar os meus limites), e não praticar de todo nos dias de Lua Cheia e Lua Nova, mais propensos as lesões segundo a crença ancestral – não custa nada respeitar, certo? Por si acasoAs mulheres também não devem praticar nos primeiros três dias do ciclo menstrual (ladies hollydays, como nos dizem lá na Índia) e se no início não ligava a isto, tomando-a como uma tradição misógina, hoje em dia sabe-me bem descansar. Com o passar do tempo, entendo que a crença de que a prática do yoga que tem por objetivo reter e aumentar a energia vital, é um pouco contrária ao processo natural do corpo feminino de expelir o óvulo não fecundado, ou seja, o corpo está a tentar, através da menstruação, expelir algo, e nós a fazer exercícios e respiração que têm uma ação oposta. Apesar de pela minha personalidade odiar estar parada, nestes três dias não pratico Ashtanga e muitas vezes exercício nenhum.

Voltando ao início, à frase fraternal de que o yoga é a minha vida, a verdade é que muito na minha vida mudou desde que o Ashtanga Yoga se tornou uma companhia diária. Desde a alimentação, mais saudável e com menos produtos animais (sou Flexitariana, normalmente opto pelo vegetariano, mas se me apetecer um bife ou um bom peixe, ou sobretudo se estiver num menu degustação, como de tudo), passando por beber álcool menos vezes, e terminando em que de facto muitas das minhas férias são aliadas a workshops de yoga com os meus professores ou organizados por eles com outros professores, sejam em Portugal ou no estrangeiro: só este ano já estive na Tailândia e em Macau, e quero ainda ir a Itália, tudo para praticar yoga e continuar a evoluir.

Viajei ao sul da Índia para estudar Ashtanga na fonte, onde ele nasceu, em Mysore, e sempre que posso vou ter com Sharath Jois, o neto e herdeiro da escola de Ashtanga Yoga, num dos workshops que ele faz pelo mundo – a última vez foi em Londres e adorei! Todos os verões, alugo uma casa perto da escola dos meus professores e passo a maior parte dos meus fins-de-semana a ‘descer’ (de Lisboa para o Alentejo) para praticar com eles, que é quando aproveito para corrigir tiques que entretanto vou ganhando na prática e para receber novas posturas, de forma a continuar a minha aprendizagem. Os ajustes (quando estamos a praticar o professor vem e corrige determinada asana/postura ou intensifica-a fazendo com que o nosso corpo se alongue nela) que recebo são também importantes para permitir que o meu corpo se prepare para continuar a praticar. Isto porque sendo uma prática contínua precisa de ser bem cuidada – regada todos os dias como uma planta, mas às vezes levar aquele adubo especial para ficar mais forte.

Uma coisa é certa. Quando me perguntam como consigo praticar todos os dias e me dizem que é preciso ter uma força de vontade de ferro, eu encolho os ombros e acho um pouco exagerado. Para mim é como tomar banho, não nos passa pela cabeça sair de casa sem o fazer – e quando tal acontece nem nos sentimos bem na nossa pele. O mesmo com o yoga para mim, quando não pratico nem me sinto eu. E lembro-me da frase de Sri K Pattabhi Jois, mais conhecido como Guruji, o homem que desenvolveu o Ashtanga Yoga:

“Anyone can practice. Young man can practice. Old man can practice. Very old man can practice. Man who is sick, he can practice. Man who doesn’t have strength can practice. Except lazy people; lazy people can’t practice Ashtanga yoga.”

“Toda a gente pode praticar. Homens jovens. Homens velhos. Homens muito velhos. Homens doentes podem praticar. Homens sem força podem praticar. Só os preguiçosos não podem praticar Ashtanga yoga”

Sou intrinsecamente uma pessoa feliz, com dias mais cinzentos como todos, e o yoga tem um grande contributo nesta felicidade. Não tenho dúvida de que praticar yoga nos faz mais felizes, mesmo que seja um processo e nele passemos várias fases, umas até em que nem queremos praticar de todo, e outras que nos deixam muito humildes. Mas basta perseverar na prática, estender o tapete todos os dias e dedicar o tempo que conseguirmos. De retorno, recebemos paz e bem-estar, e sentimo-nos bem no nosso corpo e com a nossa mente. Inspira, expira. Tudo de bom vem e continuará a vir.

5 coisas que aprendi com o yoga e que me tornam (mais) feliz*

1/ Aprendi a relativizar

Um dia a prática corre super bem, no dia a seguir não conseguimos fazer a postura mais básica. Emoções, alimentação, medos, cansaço, stress, estão todos connosco e quando fazemos a mesma sequência de posturas dia após dia é fácil notar que algo está menos bem – como na corrida, a constância de movimentos dá uma certa perceção do estado do corpo, da mente e da ‘alma’. Com o tempo começamos a identificar o que é. Com a prática começamos a perceber o que é e o que não é importante. O que realmente interessa é que tirármos este tempo para nós, seja para fazer todas as posturas mais acrobáticas, seja para apenas respirar profundamente e de forma consciente. Esse é ensinamento: estarmos presentes, de forma consciente, connosco próprios todos os dias, no tapete. Independentemente de como estamos, sabemos que estamos conectadas com as nossas emoções e com o que nos rodeia. Conhecendo-nos melhor, é mais fácil aceitarmo-nos e estarmos em paz connosco próprias. “Yoga is your mind control capacity”, no sentido de controlar os pensamentos e as emoções, dizia Sri K. Pattabhi Jois, o responsável pelo desenvolvimento do Ashtanga Yoga.

2/ Respirar ajuda em quase tudo

Experimente. A próxima vez que estiver chateada ou triste, sente-se no chão, de pernas cruzadas, numa posição bem confortável, com as costas direitas e consciência da parede abdominal. Sempre pelo nariz, inale contando até 5 e exale contando até 7-8. Faça-o 10 vezes. Durante estas respirações ouça bem o som do ar a entrar e a sair do nariz e conte o mais pausadamente que lhe for possível… Inale. Um, dois, três, quatro, cinco… Exale. Um, dois, três… até Oito. No final garanto que vai sentir os efeitos desta mini terapia. Tive um namorado que gozava comigo, já sabia que quando eu começava a fazer a ‘respiração do yoga’ é porque estava a gerir qualquer coisa, dizia-me: “Lá está ela a processar”. Mas fora de brincadeiras, a respiração que aprendi no Ashtanga Yoga, que se chama Ujjayi, ajudou-me a gerir muita coisa na vida, pessoal e profissional. Respirar antes de responder ou tomar uma decisão tem efeitos benéficos no imediato e a longo prazo. Muitos deles contribuíram para ter dias com menos atrito, logo mais felizes.

3/ Exercícios mais suaves trazem alimentação mais saudável

Sempre fiz muito exercício, mas se após uma corrida ou uma aula de Cross Fit só me apetece ir a correr comer um hambúrguer ou pizza (afinal tanto esforço, posso!), quando faço a minha prática de yoga há um certo bem-estar que se prolonga para o que opto por comer a seguir. Porque praticamos em jejum, apenas com um café para os que têm mais dificuldade em acordar, acabamos por estar várias horas sem comer, e algumas prolongo para fazer o conceito de Intermitente Fasting, que nos sugere ficar 14-16 horas em jejum duas vezes por semana para manter o peso. Sinto que com uma vida tão ocupada e com tantas ocasiões sociais, nas quais como e bebo, é uma boa forma de me manter na linha. E se me sinto bem fisicamente, sinto-me bem psiquicamente.

4/ A postura melhora

A consciência corporal é uma das consequências da prática regular do yoga. Há toda uma consciencialização dos bandhas (zonas abdominais que devemos ativar durante a prática) e pontos de focagem durante os asanas (posturas), que nos fazem começar a olhar para o nosso corpo de maneira diferente. Vemos pequenas imperfeições e gostamos delas, passam a ser só nossas. Observamo-nos dia a dia a evoluir e queremos continuar. Aprendemos que ao ativar determinados músculos, há efeitos noutras partes do corpo. E isto ajuda depois fora do tapete, a contrariar posturas menos boas a trabalhar ou a conduzir, só para dar dois exemplos. Andamos mais direitas e até parecemos mais altas – que nada tem a ver com altivez. O efeito é que temos menos propensão a usar o nosso corpo sem saber como, ficamos mais conscientes do que fazer com ele, o que me tem evitado problemas seguramente. Mesmo na interação com os outros, porque o yoga nos torna mais confiantes, temos uma abordagem mais segura e empática.

5/ Tudo tem o seu tempo

Nunca conheci o guru do Ashtanga Yoga, Shri K Pattabhi Jois [http://kpjayi.org], mas quem o conheceu e teve oportunidade de praticar com ele, repete com frequência a frase que lhe é atribuída: “One year? Begginer. Ten year? Begginer / Um ano? Iniciado. 10 anos? Iniciado.” Não vale a pena querer ultrapassar etapas no yoga, a evolução tem um processo, que para mim pode ser rápido, e para outro lento. O meu corpo pode ter facilidade em realizar uma postura, o de outra pessoa nem por isso. Eu ando a lutar com algumas posturas há uns 4 anos, talvez um dia as consiga fazer, talvez não, mas isso também não interessa, porque o que interessa é o processo e o benefício que obtenho dele. O yoga não é algo que se faz para ficar super magra, tonificada, com elasticidade e gira! O yoga faz-se porque é um sistema de posturas, respiração e ensinamentos para a vida, ao qual nos dedicamos, no qual nos queremos conhecer, no qual queremos lidar com as nossas emoções (mesmo as difíceis), no qual estamos presentes. O processo pode até ser moroso ou difícil numas fases, mas noutras é puro fluir de boa energia. Não há sensação comparável àquela quando acaba uma aula e nos deitamos no chão a respirar e a absorver todos os benefícios do tempo passado no tapete. Nunca acabei a minha prática de yoga menos feliz do que comecei. E isto repete-se todos os dias, todos os anos, em cumulativo. Quanto mais pratico, mais contente fico por o fazer. Espero ter a energia para não voltar a deixar!

No need to travel during summer, the best views are right here! #portugal #alentejo #cabosardao #sunset #cliff #ocean #atlantic

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Rita Machado