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Raquel Tavares: “A mulher é um produto muito bonito no seu todo”

Entrevista

‘Raquel’ marca o regresso musical da fadista de 31 anos. Após uma pausa de oito anos, que serviu para se redescobrir como pessoa e como artista, Raquel Tavares traz, em 11 músicas, as influências que foi bebendo ao longo do caminho. Do Brasil, para onde quase se quis mudar, trouxe samba, alegria na voz, uma outra forma de estar na vida.

Porquê um hiato de sete anos?
Foi uma coisa que se deu de forma muito espontânea. Gravei o ‘Bairro’ em 2008 e, em 2010, quando a minha editora na altura me fala sobre a hipótese de fazer um novo álbum, tive imensas reticências. Sentia que me faltava conhecimento e maturidade artística. Precisei de tempo, precisei de partilhar palcos, de viajar. Fomos adiando e eu pensei assim ‘bom, vou deixar passar o meu tempo’. E foi aí que comecei a desbravar caminho e a largar algumas amarras, tanto pessoais como profissionais. Pessoais, porque eu era muito ligada a Lisboa e era impensável ser feliz noutro universo que não este. E foi fundamental descobrir isso dentro de mim. Afinal, eu consigo ser feliz noutro lugar. Esse lugar é o Brasil, o Rio de Janeiro, onde passei três anos.

Como criou essa ligação?
Foi pessoal e musical. Criei muitas amizades, uma família que me adotou e eu a eles. Apaixonei-me pelo samba de raiz, que era uma música que eu achava que conhecia. Mas não. É quase como o fado. Estas músicas urbanas vivem muito dos lugares e das pessoas que os criam. Apaixonei-me por outra música de forma a querer conhecê-la, cantá-la, vesti-la. Foi o único lugar do mundo onde não senti muito a falta de Lisboa.

Como foi essa mudança?

Foi muito drástica, também do ponto de vista pessoal. Os cariocas têm uma forma muito diferente de estar na vida. É a teoria do copo meio cheio ou meio vazio. Para eles, está sempre meio cheio, o que é uma forma ótima de ver as coisas. Aprendi também que, afinal, o samba não é uma música só feliz, como o fado não é uma música só triste. Vim do Rio outra pessoa e, quando voltei, estava já a começar a pensar em ir mesmo embora, ir viver uns tempos para lá.

Porquê?
Não era emigrar… era viver! Não por estar insatisfeita. Eu tinha imenso trabalho cá, sempre tive. Sempre cantei porque sempre me mantive presente nos meios de comunicação social, essencialmente na televisão, o que é fundamental. Só que eu queria viver!

Era inimaginável dizer na escola que cantava fado. Sofri um bocado com isso, fui posta de parte porque era a fadista.

O que a fez ficar?
Um convite do meu manager, o João Pedro Ruela, que me disse ‘miúda, e que tal gravares um disco, agora que trazes toda essa bagagem, essas experiências?’. Fiquei bastante aliciada e decidi que não queria um disco de fado. Isso eu sabia que não queria. Eu cantava fado há 26 anos. Chega. Foi difícil aceitar que eu estava a mudar.

Teve de fazer um luto, quase?
Sim, tive mesmo! Fui criada num meio tradicional, cheio de raízes, de regras. E ainda bem que fui! Eu, como fadista, não mudei. Percebi é que também era uma cantora. Queria sair da minha zona de conforto e não tinha tido coragem, até então. E, aos 30 anos, senti alguma coragem.

O que é o Brasil mudou em si?
Muita coisa! Tornou-me uma pessoa mais otimista, a celebrar muito mais as coisas pequeninas da vida. Lá, cada pequena conquista é uma festa. Estou a falar do povo. Eu conheci o povo carioca, não foi o habituée da zona sul, do Leblon. Subi o morro, andei nas várias comunidades, nas escolas de samba. O povo, que é de onde eu venho. Eu sou de Alfama, o meu coração bate aqui. Isso é o que me faz gostar mais ou menos de um país. A música e as pessoas. Vim de lá uma pessoa muito melhor e trouxe isso tudo para mim, pessoa e artista. Estes oito anos foram ótimos, fizeram-me aprender uma coisa que acho que é fundamental em qualquer carreira: saber esperar.

O panorama da world music, no qual se insere, mudou drasticamente nos últimos oito anos. Há muito mais concorrência.
Não vejo a coisa como concorrência, vejo como abertura do mercado. Para mim, quanto mais – com qualidade – melhor. Acho que nem tudo é fado. World music é uma coisa. O fado faz parte porque é uma musica do mundo. O disco que eu gravei não é um disco de fado mas eu não deixei de ser fadista. Cheguei a uma altura em que – desculpem-me a presunção – não tenho de provar a ninguém que sou fadista. Mas foi realmente uma mudança muito radical, não só no fado mas em todo panorama da música portuguesa.

Porque é que acha que existem tantas novas fadistas mulheres e tão poucos homens?
Isto soa pessimamente mas é assim que é: a mulher é um produto muito bonito no seu todo. A imagem, o misticismo em torno da mulher, o palco da mulher… é muito mais aliciante. Mas não é só aqui. No mundo, ou bem que é um cantor playboy, giraço, o que no fado não se adequa, ou então é um Tony Bennett, um Frank Sinatra, de uma geração que já não existe. Hoje em dia, a parte visual é muito importante. Claro que há homens charmosíssimos a cantar fado, como o Camané, o António Zambujo, o Ricardo Ribeiro, o Marco Rodrigues…

Mas nunca com a mesma popularidade.
Não há tantos. Depois de a Amália morrer parece que se deu um boom qualquer e as mulheres ficaram mais despertas para esta música. O fado deixou de ser uma coisa old, bas fond, como o povo achava quando eu comecei a cantar. Era inimaginável dizer na escola que cantava fado. Sofri um bocado com isso, fui posta de parte porque era a fadista. Era coisa de velhotes, como se dizia. Ridículo, porque o fado nunca deixou de acontecer. Sempre se cantou, as mulheres sempre foram lindas no fado. Todas elas, majestosas, com figuras imponentes. Depois do 25 de abril, houve ali uma altura em que se abafou completamente o fado e isso foi triste, porque foi a geração de ouro do fado, os anos 60 e 70. É muito bonito ver uma mulher em palco a cantar, seja lá que música for.

Ao longo da sua carreira, mudou também aquilo que é aceitável para uma fadista, em termos de imagem. Hoje em dia, a Gisela João canta de ténis, por exemplo. Como vê essa mudança?
Venho de um meio muito tradicional, em que o xaile era fundamental… tive mesmo muitas regras. Quando comecei a ver esta nova forma visual para mim foi difícil, embora eu gostasse. O Brasil trouxe-me isso, despreconceito. Acho que é a palavra de ordem na minha vida, neste momento. Despreconceito. Comigo mesma! Porque, na realidade, eu nunca condenei. Eu gostava muito daquilo… mas em segredo. Eu fazia parte da nova geração – na altura tinha 20 anos – mas sentia-me a mais velha das mais novas! Eu era muito antiga! Vinha dos botecos, dos tascos, onde o fado acontecia. Era muito difícil desprender-me disso. Foi o Rio que me fez mudar. É um desafio, mas já cantei no Festival Caixa Alfama de ténis, com os quais me sinto muito mais confortável. No dia-a-dia sou uma pessoa bastante cool. Tive de aprender a enquadrar-me nesta nova forma de estar, tanto em palco como no discurso. Eu amadureci muito depressa, não tive tempo para ser uma adolescente, uma “borrecente”, como se diz no Rio de Janeiro. Não tive muito tempo para isso, foi tudo muito a correr. Hoje sinto-me muito mais jovem do que em qualquer altura da vida vida! E acho que isso se nota neste disco. Assumo-me alegre, feliz neste trabalho.

Nestes anos em que viveu no Brasil sentiu-se quase a correr contra o prejuízo, a viver o que não teve oportunidade quando cantava nas casas de fado?

Sim. Despi uma série de roupas. Quem não viaja, quem não larga as roupas velhas, não evolui. E eu tive mesmo de me deixar ir. Foi o despir de muitos vícios, de muitas coisas que estavam cá dentro, enraizadas, muitas cicatrizes que tive de sarar. Algumas mágoas porque o meio artístico, como qualquer profissão, tem o seu lado menos feliz.

Eu fazia parte da nova geração – na altura tinha 20 anos – mas sentia-me a mais velha das mais novas!

Como faz essa gestão da desilusão?
Sorrir e acenar (risos)! Antes, zangava-me imenso, revoltava-me! Sempre fui muito de pelo na venta. Mas aprendi a relaxar, a deixar passar. Aprendi a não comprar guerras que não são minhas, nomeadamente a defesa do fado tradicional. Quando começou a surgir a expressão “novo fado”, eu insurgi-me francamente porque não acredito no novo fado. Acredito em novas músicas com influências fadistas. O fado é o mesmo, é bonito por si só. Há 10 anos, guerreava, levava aquela bandeira às costas. Hoje em dia já não o faço. Chamem-lhe o que quiserem, não vou guerrear mais.

Sente, como artista, que é importante cultivar um lado misterioso ou isso não lhe diz nada?
Eu devia dizer que sim, porque é politicamente correto, mas não. De todo! Vou dar-lhe um exemplo: eu fui cantar à Câmara de Paris, nas comemorações do Dia de Portugal e, no dia seguinte, quando voltei, estava em Alfama a ajudar a minha gente com as sardinhas e as saladas.

Raquel Costa // Fotos: Palavras Ditas