Ruanda manda contingente de mulheres-polícias para o Sudão do Sul

O contingente conta com 160 elementos e a maioria são mulheres. O Ruanda está a mandar 85 oficiais femininas para o Sudão do Sul, ao abrigo de missões de paz das Nações Unidas, e onde vão estar cerca de um ano.

Estas mulheres-polícias, que partiram na quarta-feira, 27 de junho, são especializadas em, entre outras funções, manutenção da ordem pública, na garantia de que a assistência humanitária chega ao destino, na proteção das estruturas das Nações Unidas instaladas no território.

Mulheres-polícias do Ruanda [Fotografia: DR/Ruanda]
“Estão bem equipadas, bem treinadas e disciplinadas. O Ruanda espera que cumpram os mais altos níveis de comportamento e que operem de maneira profissional e disciplinada e sempre no propósito de proteger e promover a imagem do Ruanda fora de fronteiras”, exortou o inspetor-geral da Polícia, Dan Munyuza, à força feminina de “capacetes azuis”, no dia da partida para o Sudão do Sul.

O mesmo responsável pediu ainda: “Estejam onde é suposto estarem à hora certa e assegurem a eficaz execução de ordens. A população do Sudão do Sul espera ser protegida por vós. Queremos que regressem de boa saúde e com honra.”

Equipas preparadas para lidar com violência sobre as mulheres

O envio desta unidade maioritariamente feminina pretende chegar mais facilmente à população – que terá mais facilidade em falar abertamente com mulheres – e, mais importante ainda, tentar por termo a escândalos de agressão sexual perpetrados pelas equipas de missão das Nações Unidas sobre as mulheres em territórios de conflito e pós conflito, e que, por isso, vivem em situações de extrema volatilidade.

As forças de paz femininas que foram destacadas são bem treinadas para lidar com as vítimas de violência de género e oferecer serviços de aconselhamento, bem como lidar com suas funções diárias de manutenção da paz e policiamento”, explicou Emmanuel Kabanda, diretor de relações públicas.

E o número de denúncias em matéria de agressões sexuais por parte de equipas que deveriam trazer a paz e a segurança a quem vive no limite em territórios de pós-conflito tem sido preocupante. Segundo dados da Associated Press, citados pelo jornal ruandês Daily Nation, foram registadas cerca de duas mil queixas de exploração sexual e abuso perpetradas por quem tinha por missão – e estava legitimado para tal – assegurar a paz. Casos revelados e que tiveram lugar entre 2004 e 2016.

Teddy Ruyenzi, a líder deste contingente especial

Oficial de polícia e comissária assistente desta força, Teddy Ruyenzi é a mulher que vai estar à frente destes “capacetes azuis” femininos. Em declarações citadas pelo periódico ruandês The New Times, Ruyenzi revelou que a preparação e treino deste contingente levaram “mais de um ano” e que agora “está preparado para assumir as tarefas”.

Sendo uma força composta por mulheres, houve espaço para formação de género mais específica. “Fomos também treinadas para saber como apoiar grupos de população vulneráveis como as mulheres, as raparigas e as crianças, que, em conflitos desta natureza, são os elementos mais afetados. Expectavelmente, as mulheres e as raparigas estarão também mais predispostas a falar connosco”.

Teddy Ruyenzi [Fotografia: Twitter/Rwanda National Police]
Para a oficial, trata-se de um marco para o país porque demonstra a “aposta pela paridade que está a ser feita”, evidenciando também: “o governo acredita em nós e que podemos ser melhores em matéria de igualdade. Não nos devemos sentir inferiores por sermos mulheres”.

Já no Sudão do Sul, e citando a mesma responsável, “para lá do uso do policiamento físico”, Teddy Ruyenzi fala em “ir mais além” no sentido de “dar voz ao combate contra a violência sexual e de género que é muito comum em zonas de conflito”.

ONU quer mais mulheres em missões de paz e Ruanda alinha

Esta força feminina configura, também, uma resposta ruandesa a uma resolução de 2000, adotada pelas Nações Unidas, no sentido de pedir aos governos que integram missões desta natureza a incluir cada vez mais mulheres em missões de construção de paz e em trabalhos de resposta humanitária.

Recorde-se que, em 2009, o antigo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon tinha lançado uma campanha na qual pretendia, precisamente, incrementar em 10% o número de mulheres nas forças militares e 20% nas policiais, até 2014. Contudo, estes propósitos não terão sido alcançados.

No entanto, tal não quer dizer que as metas sejam hoje menos ambiciosas. Para este ano, a ONU queria aumentar em 5% a presença feminina nas estruturas militares (para 15%), mantendo os 20% nas policiais. Uma vez cumpridas as metas, estar-se-ia mais próximo da igualdade de género.

Ruanda: um país entre os dez mais igualitários do mundo

Tem sido uma das surpresas do Global Gender Gap Report. O Ruanda tem surgido, naquele relatório anual do Fórum Económico Mundial, como um dos países mais igualitários para as mulheres, a par da Islândia, Finlândia, Noruega e Suécia. Em 2016, este país africano ocupava o quinto lugar da tabela geral, que contempla áreas de análise como saúde, educação, economia e política.

O território – que foi palco de um genocídio em 1994, no qual foram mortos cerca de 800 mil ruandeses em cerca de três meses e do qual 60 a 70% da população sobrevivente era mulher– tem hoje uma das mais altas taxas de participação feminina no mundo laboral e político. Também a igualdade salarial tem sido encurtada, com elas a auferirem 88% por cada dólar ganho pelos homens.

Imagem de destaque: Twiiter/Rwanda National Police

Igualdade salarial só chega em 2234