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‘Sexo e a Cidade’: um fenómeno com versão africana

Segunda temporada foi lançada em janeiro de 2016

Um grupo de amigas. Uma cidade. Sexo, promiscuidade, festas, loucura, amizade, amor. Agora em vez de Nova Iorque… imagine Acra, a capital do Gana. Esta é a resposta de África ao sucesso de ‘O Sexo e a Cidade’: um webshow, ‘An African City’, que em vez de Carrie Bradshaw, Samantha, Charlotte e Miranda, tem como estrelas a jornalista Nana Yaa e as suas quatro BFF’s (sigla para best friends forever, em português, melhores amigas para sempre). Todas elas deixaram as suas vidas no estrangeiro para regressar ao continente onde nasceram, onde têm de reaprender a lidar com surtos de malária, escassez de recursos e familiares metediços. Mas claro que também há vantagens: clima, praias, comida e homens… tropicais.

O sexo, tal como na série que serve de inspiração, é um elemento central. Mas ‘An African City’, que se estreou no Youtube em março de 2014, dá também especial destaque à cultura e às tradições do Gana. Esse mix revelou-se tão certeiro que, poucas semanas após o lançamento do primeiro episódio, a trama escrita e realizada por Nicole Amarteifio já ultrapassava um milhão de visualizações.

“Temos recebido emails de mulheres da Coreia do Sul, Porto Rico, Itália… Isso mostra que as mulheres têm várias semelhanças entre si, apesar da etnicidade e da raça”, explica Amarteifio.

Esta produtora de 34 anos, antiga responsável pelas redes sociais do departamento africano do Banco Mundial, nasceu no Gana e mudou-se pouco depois com os seus pais para Londres. Mais tarde, para Nova Iorque, onde viveu até aos 15 anos. Desde então, tem-se desdobrado entre os Estados Unidos e o seu país de origem. “Tenho uma dupla consciência”, reconhece, em entrevista ao blogue feminista lennyletter.com (da autoria da atriz Lena Dunham).

Saturada da típica história da mulher africana pobre, diminuída e doente, Nicole teve a ideia para este webshow enquanto assistia a um episódio de ‘O Sexo e a Cidade’. “Tenho a certeza que a Samantha estava a fazer algo totalmente louco quando eu pensei ‘Tenho amigas tal como estas em Acra. Como seria fazer isto em televisão, com personagens ganesas e nigerianas?”.

Mas a série, que já tem planos para uma terceira temporada, não se limita a retratar a vida boémia das cinco protagonistas. Assuntos como a violência e a violação de mulheres indefesas (parte de qualquer sociedade, mas muito presentes no Gana) são também abordados. “Há alguns anos, houve um caso de violação em Acra e muitas pessoas culparam a mulher: ela estava no quarto dele, tinha uma saia curta e todas essas coisas. Estou cansada de ver a responsabilidade depositada nas mulheres”, explica a realizadora, que usou esse episódio como fonte de inspiração para uma cena específica da série.

Acima de tudo, ‘An African City’ é uma “carta de amor” de Amarteifeio ao seu país. “No Gana, sempre me disseram que eu era bonita, e nos Estados Unidos não. Houve demasiadas ocasiões em que a minha cor, ou o meu tipo de cabelo, não eram aceites. É lamentável. Não sei como é que os afro-americanos lidam com isso todos os dias, porque eu sempre tive o Gana para onde voltar”.

Apesar de várias críticas serem feitas à vida demasiado glamorosa de Nana Yaa e das suas quatro amigas – apartamentos generosos, roupas elegantes, experiências em bons restaurantes – há também quem admire o inovador retrato desta sociedade na ficção. “A maior parte das minhas amigas ganesas que vivem em Atlanta [EUA] adoram a série porque é diferente daquilo a que estamos habituados a ver nos media sobre o Gana ou até África”, garante Malaka Grant, uma escritora de 38 anos que cresceu em Acra e atualmente vive em Atlanta, no estado norte-americano da Geórgia.

E para Nicole Amarteifio, naturalmente, fez todo o sentido dar vida às personagens dessa forma. “Foi muito importante para mim criar estas mulheres, que são bem-sucedidas, independentes e estão no extremo oposto da ‘história única’ de África, que tende a ser sobre guerra, pobreza e fome. Estas mulheres existem. Deixemos que sejam o rosto da beleza”, termina.

Carolina Morais