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Susan Messing: “Às vezes as mulheres pensam que a comédia é um desporto de homens e não é”

A norte-americana Susan Messing, veterana da arte do improviso, apresenta-se, esta sexta-feira, 20 de abril, às 22h30, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. “Messing with a friend” é o espetáculo que traz à sexta edição do “Espontâneo – Festival Internacional do Teatro do Improviso” e um dos vários formatos que leva aos palcos enquanto performer. Como o nome em inglês indica, “Messing with a Friend” é Susan com mais um amigo. No palco do Olga Cadaval vai estar com Maria Peters, que “adora” como pessoa mas cujo trabalho não faz questão de seguir. “O meu pressuposto, quando vou para o palco, é que quem está comigo é uma ótima pessoa e que nos vamos divertir imenso juntas”, diz em entrevista ao Delas.pt. A imprevisibilidade é uma das liberdades de que não abdica, o que não significa que a coisa descambe. Processo em construção em cima do palco, o improviso é feito com o que cada um dá e faz no momento. Apesar de ter evoluído para forma de arte, ele serve outros propósitos. Juntar pessoas é um deles, mas também ajuda a ultrapassar ansiedades. Em tempos politicamente conturbados, com a América liderada por Donald Trump, pode funcionar como uma espécie de catarse. Nos dias que correm, Susan Messing diz mesmo estar “grata à comédia”. Por causa da imagem que o governante tem dado do país, este ano vai viajar menos para fora dos Estados Unidos. Portugal é uma das exceções e a oportunidade não pode ser desperdiçada. Às mulheres portuguesas que querem abraçar a arte do improviso deixa a mensagem: “Tirem esse rabo da cadeira e venham para o palco!”

Vem apresentar o espetáculo ‘Messing with a Friend’. Em que consiste?
O ‘Messing with a Friend’ é descrito como uma alegre, sem censura e improvisada descida aos infernos. Basicamente, só protejo o conteúdo do que vai lá dentro, certificando-me de que toda a gente sabe que poderá ficar ofendido com alguma coisa.

E traz um amigo para essa “descida”.
Sim, trago um amigo [ou amiga]. Faço-o todas as semanas, em Chicago. Eu atuo num teatro que é o Annoyance Theatre e cada semana tenho um amigo novo. Isso ajuda-me a manter -me concentrada, porque todas as pessoas atuam de maneira diferente e não faço ideia do que é que elas me fazer ou eu a elas.

Costuma fazer algum tipo de ensaio ou preparação com o outro performer antes de cada espetáculo?
Não. Não ensaiamos, não fazemos exercícios de aquecimento, nada. Arranjamos um ângulo, as luzes apagam-se, voltam a acender-se e nós aparecemos, simplesmente, e vemos o que acontece.

É a Susan que costuma dar a primeira deixa?
Não. Algumas pessoas podem pensar que sou a líder mas não sou. Eu adapto-me à forma de atuar do outro. E é isso que me entusiasma, que mantém a novidade e me impede de acabar a fazer coisas que eu sei que seriam engraçadas mas que não são orgânicas no improviso. Aquilo a que as pessoas acham graça no improviso é uma especificidade real, por oposição às piadas. A única forma de superar as coisas com piada é ser-se ainda mais engraçado e isso é difícil. Mas as pessoas ficarão muito satisfeitas por saberem que há dois estádios. Como aqui em Lisboa. Lisboa tem dois estádios, não tem?

Sim [risos]
Está a ver, você riu-se porque sabe que Lisboa tem dois estádios.

O quão confusa pode ficar uma performance de improviso?
Oh, pode tornar-se odiosa, numa bomba nuclear, pode ser a pior coisa de sempre. Depende se se decide ou não fazer uma confusão dele. O que quer que seja que ponha na performance, no fim vai acabar por fazer sentido, por se parecer com uma peça de comédia no final. Mas não se sabe isso no início. É como um pintor que vai pintando um quadro, por oposição a um pintor que quando vai pintar já sabe que vai desenhar uma árvore. Eu pinto e depois é que vejo que aquilo se parece com uma árvore, e vou adicionando coisas.

Mesmo assim, sente a necessidade de controlar alguma parte do processo para que no fim faça o tal sentido?
Não posso controlar as pessoas, não posso controlar quem está comigo. Posso controlar-me a mim, posso controlar-me a mim no meu mundo, mas não posso controlar o meu amigo, nem quero. Há muitas pessoas que começaram a fazer improviso, que querem dizer coisas e depois provar uma teoria, mas não funciona assim. Porque se eu tiver uma ideia para uma cena e tu também tiveres uma ideia para uma cena e falares primeiro que eu, a mim não me resta mais nada que não a ideia e aí começamos a discutir sobre a ideia que alguém teve, quando na realidade o público está mais interessado em saber, por exemplo, porque é que eu estou sentada de um determinada maneira do que em inventar qualquer coisa melhor para dizer. As pessoas ficam mais interessadas em saber porque é que eu me sento na sanita de determinada maneira ou na forma como eu espero pelo resultado do meu teste de gravidez, se estou a rezar. No fundo, sobre o que é que se passa agora. Por isso se eu simplesmente fizer alguma coisa eu consigo fazer algum tipo de descoberta, se só estiver ali vou começar a inventar coisas e vou ficar terrivelmente desapontada que o meu parceiro não me consiga ler a mente. Ou seja, se eu quiser controlar a performance mais vale escrever sketches. E isso é ótimo, eu adoro comédia de sketch. Mas o improviso é o gozo de não saber o que se vai passar.

A lendária improvisadora norte-americana é cabeça de cartaz do Espontâneo – Festival Internacional do Teatro do Improviso, que decorre até domingo, em Sintra ( Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens)

O que é sabe dos parceiros, dos amigos, traduzindo o nome da performance à letra, que vão estar em palco consigo?
Bom, por exemplo, a Maria Peters, com quem vou atuar este fim de semana e que é uma pessoa que eu adoro, conheço de Londres, já fiquei em casa dela, mas nunca atuei com ela.

Mas conhece os trabalhos dela.
Nem por isso, simplesmente gosto dela como pessoa. O meu pressuposto, quando vou para o palco, é que quem está comigo é uma ótima pessoa e que nos vamos divertir imenso juntas. É tudo o que sei. E é isso que tenho feito nestes 30 anos de carreira: “Acredito que és espetacular e se estás no palco é porque lhe pertences. Vamos a isso!” Sei que isso é muito assustador para muita gente, mas eu mal posso esperar para ver o que acontece.

Além de atuar também ensina teatro de improviso. Como é que se ensina algo que é espontâneo?
Bom, eu costumo dizer que se eu consigo fazer teatro de improviso, qualquer pessoa pode fazer [risos]. Eu era uma atriz horrível.

Mas como é que se aprende a fazer teatro de improviso?
Bom, há algumas guidelines, mas é muito com base naquilo que se traz para jogo, sendo cada pessoa parte fundamental de um todo. Portanto se estiveres a atuar com muita gente vais tornar-te importante para aquilo que se vai passar e se estiveres a atuar com outra pessoa passas a ser responsável por metade do que vai acontecer. Podemos ensinar muitas maneiras de chegar aí. Enquanto professora de teatro de improviso, parto do princípio que o meu aluno está bem e que o meu trabalho é torná-lo melhor. Outras pessoas poderão ter como trabalho ensinar a improvisar corretamente. Se alguma vez tiveram sexo corretamente [risos]… Quer dizer, é ridículo. Ou seja, não sou grande fã de regras. Há sugestões que podem ajudar. Portanto, eu ajudo as pessoas a divertirem-se, a combater medos, a porem novos ingredientes a cozinhar, mas não estou interessada em ser didática e ensinar uma data de regras. Acredito, que no fim das contas o que todos queremos é comunicar uns com os outros, e por mais que tenhamos aparelhos tecnológicos, como o iPhone, os computadores, para nos ligar tão rapidamente, o que isso acaba por fazer é isolar as pessoas, porque estão a interagir sozinhas, em casa ou no carro. E uma coisa que o teatro de improviso faz é juntar as pessoas e forçá-las a comunicar. É por isso que as empresas de topo vão buscar os improvisadores para ensinar os funcionários a voltar a relacionarem-se uns com uns outros. No teatro de improviso usa-se muito a frase “sim e…”, que significa concordar com o que está a acontecer e depois acrescentar. Portanto, é muito importante que cada um ponha as suas ideias em cima da mesa.

E como é que se vai do improviso à comédia?
Quando eu escrevo humor, acredite, eu escrevo mesmo humor! Quando faço stand-up, eu escrevo humor, quando é uma TED Talk, um espetáculo de spoken word, quando atuo sozinha ou quando escrevo sketches o que escrevo tem graça, numa sitcom o mesmo. No teatro de improviso temos de descobrir o que é engraçado. Se eu disser coisas engraçadas a única maneira de ter piada é ser ainda mais engraçado e isso é difícil. Mas como, disse antes, a especificidade mata essa ambiguidade. Imagine, eu digo: ‘Fátima’. Já alguma vez lá esteve?

Estive uma vez.
E agora está a pensar nisso, não está a pensar: “que porcaria de improvisadora”. Mas agora está a rir-se, porque está a pensar na sua experiência. Na realidade, a comédia é muito pessoal para quem está no público. Por isso, a comédia vem do compromisso e recompromisso com escolhas, não necessariamente escolhas engraçadas. Para mim a comédia não é o objetivo, é a consequência. Isso significa que a pessoa menos engraçada pode ser um improvisador incrível.

Há diferença na maneira de improvisar, entre mulheres e homens?
Eu diria que algumas pessoas pensam que sim. Eu simplesmente represento, portanto não diferencio entre uns e outros.

Não estamos habituados a ver muitas mulheres em palco a fazer performances deste tipo.
Sim. Quando eu comecei, a maioria das mulheres também não o fazia. Por isso, mesmo sabendo que Portugal está, nesse aspeto, numa fase diferente, não significa que as coisas não vão mudar. Estou muito entusiasmada pelas mulheres portuguesas. Ouviram mulheres de Portugal? Tirem esse rabo da cadeira e venham para o palco. Podem facilmente fazer isto. Se eu posso fazer, vocês também podem. Acho que às vezes as mulheres pensam que a comédia é um desporto de homens e não é. Quando comecei era a única mulher no meu grupo e fui-o durante muito tempo. Eu era tratada como uma uma jóia rara, eram maravilhosos comigo. Mas sempre que via uma mulher nestas andanças ficava muito empolgada com isso. E neste momento, em Chicago, diria que [a representação de género] é 50-50. Agora é. Nem sempre é fácil…

Porque é que nem sempre é fácil?
Nunca me senti pessoalmente afetada, mas penso que muitas mulheres se terão sentido intimidadas por não verem muitas mulheres no circuito. Em Chicago, há tantos grupos masculinos como femininos, mas eu também gosto das diferenças que há entre homens e mulheres e de ver como podemos atuar juntos. Se isto for um estudo sociológico da condição humana – o bom, o mau e o feio – vamos pegar numa data de sexos e ver o que acontece.

Com uma carreira de mais de 30 anos, Susan Messing estudou e fez parte do elenco na mítica Escola/teatro de Improvisação de Chicago, do iO Theatre e do Second City’s Mainstage.
(Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens)

O que a fez querer seguir a arte do improviso?
Eu era atriz e era horrível. Estudei numa das melhores escolas de teatro do país e não puderam correr comigo, porque eles não podem expulsar ninguém por falta de talento. Quando me formei, comecei a frequentar umas aulas no ‘ImprovOlympic’ [The iO Theater]. E fiquei: “Oh Meu Deus. Não preciso de massacrar Shakespeare, Ibsen, Tchekov. Posso dizer qualquer coisa e sair. Isto é espetacular! Não tenho de memorizar nada.” É muito entusiasmante. Eu adoro fazer porcaria, depois ir embora e nunca mais ver o que fiz, a não ser que alguém filme e aí estou lixada.

Costuma voltar às personagens que faz?
Não. Sinto que estaria a fazer batota. Todas as semanas reinvento-me, o que nem sempre é fácil. Por exemplo, em dezembro parti o tornozelo e tive de fazer o espetáculo em cadeira de rodas, durante algumas semanas. Foi desgastante e todas as minhas personagens passaram a estar numa cadeira de rodas, depois passei para muletas e todas soavam a piratas perna de pau, e, finalmente, passei a usar uma bota e sentia-me uma espécie de congressista americano, com um chapéu de cowboy a dizer: “God Bless America!”. Agora já me sinto mais eu outra vez. Ou seja quando estou fisicamente mais em baixo sinto que sou sempre igual, mas se me sinto mais maleável, sinto que posso experimentar tudo. O meu corpo também me vai dizendo o que sou. E quando sinto que estou a voltar ao mesmo sítio, sinto que estou a fazer batota.

Não repete papéis.
Tento não repetir. Pode ter havido algum tipo de repetição, mas não de forma consciente ou premeditada.

Tem mais de 30 anos de carreira. Mudou muito esta área do teatro do improviso?
Sim. Mudou tremendamente. Quando o Second City apareceu o improviso servia para ajudar a criar os sketches de comédia. E o tipo de improviso de longo formato que fazíamos no Improvolympic estava na sua infância. Por isso, a maneira como evolui e se expandiu para esta arte extraordinária é excecional. De repente vejo um país atrás do outro a pegar nisso, com um entusiasmo e usando, não como uma ferramenta, mas uma forma de arte autónoma e é incrível.

E como é atuar para públicos tão distintos?
É diferente, é diferente. Penso que há algo de universal na condição humana. As pessoas certamente percebem a linguagem corporal. Isso é universal. Ver alguém que comeu demasiada comida asiática sentado na sanita é universal: nu e prostrado num chão de azulejos. Acho que todos passámos por isso. Puberdade: também todos passámos por isso. O que nos torna semelhantes e diferentes é o que nos faz pessoas únicas e excecionais. Por isso, enquanto o meu público não ri é como se estivesse a assistir a um acidente de carro ou à tv cristã – mesmo assim fascinante. Quando se riem é como se se libertassem de toda a tensão. Mas até lá… [risos] Mas tudo bem, eu sou paciente. E eles também.

Depois de Portugal, vai apresentar o seu espetáculo onde?
Volto para Chicago, porque este ano não deverei viajar tanto. Mas devo ir à Polónia, em novembro, com a Rachel [Mason]. De qualquer forma há tanta coisa para fazer em Chicago, que é como que o epicentro do teatro do improviso. Pessoas de todo o lado vão para lá para estudar esta arte. E é isso que é tão excitante em Portugal. Ainda podem decidir que tipo de comunidade querem ser, porque o teatro do improviso ainda é tão novo aqui. Isso é ótimo, porque em Chicago é como Meca. Portanto, acabo por passar muito tempo lá a ensinar, a atuar em mais do que um teatro. É muito, tenho de ter cuidado para não ter um esgotamento. Também acho que é má altura para fazer viagens internacionais este ano.

Porquê?
Porque Trump é o nosso presidente e ele fez o mundo odiar a América, e com razão. E acho que isso vai afetar muito as viagens.

Acha que a comédia é mais necessária neste tipo de períodos políticos?
Sim, sim. As pessoas veem o Seth Meyers, Stephen Coldbert, o John Oliver ou a Samantha Bee para obterem informação. As pessoas estão a procurar a informação nos comediantes, porque estes precisam dos factos para fazerem as piadas. Quando se tem um presidente que fala de fake news – que é um insulto para os jornalistas, para as pessoas que trabalham na segurança interna do país e no Departamento de Estado [equivalente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros] – e acho que a maioria as pessoas nos Estados Unidos acordam todos os dias deprimidas por ele ser nosso presidente. Por isso, se não for por mais nenhuma razão, as pessoas precisam de se abstrair disto. E juntarem-se numa sala e se divertirem explorando nada, bate o estar sentado numa sala com o peso do mundo nos ombros. Eu estou grata à comédia e acho que as pessoas que veem comédia também estão. Dito isto, acho que toda a gente devia ter aulas de improviso. É bem provável que precisem mais do que pensavam. Há pessoas que têm aulas de improviso simplesmente para ficarem menos ansiosas, ou para explicarem melhores os seus projetos, no caso dos arquitetos. No [teatro] Second City há inclusivamente aulas para pessoas com autismo, o improviso também é usado para ajudar pessoas com Alzheimer. Há muitas aplicações para lá da comédia.

 

Ana Tomás