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Suzy Menkes: “As modelos demasiado magras não são um bom exemplo”

A jornalista de moda mais respeitada do mundo esteve em Lisboa para encerrar o palco Modum na Web Summit. Suzy Menkes, hoje com 73 anos, é editora internacional da Vogue desde 2014, publicando em 21 edições internacionais da revista. Em 1976 tornou-se a primeira mulher a trabalhar para a revista Varsity e títulos como o The Times, The Independent, International Herald Tribute, também fazem parte do seu curriculum.

O Delas.pt encontrou Suzy Menkes no Altice Arena, já a Web Summit tinha sido dada por terminada. A conversa foi, como não poderia deixar de ser, sobre moda, o passado, o presente e, sobretudo, o futuro desta indústria que move milhões.

Suzy Menkes recebeu um Prémio Especial nos British Fashion Awards em 2013. REUTERS/Neil Hall

Como é que a tecnologia pode melhorar a moda?

A tecnologia já está a melhorar a moda. Houve tanta coisa que mudou com tecnologia. O mais óbvio é o e-commerce, que já mudou a vida de muitas pessoas e continua numa evolução constante. Uma coisa que acho extremamente positiva é que quem vive em partes longínquas do mundo, ou até em sítios menos desenvolvidos nos Estados Unidos ou até em Portugal e que seja interessada em moda, através do digital consegue estar informada sobre a moda.

Qual é o maior desafio para a moda hoje em dia?

O que se passa com a moda hoje é que já não há apenas um estilo que toda a gente usa, hoje os estilos são muito variados e vão em diferentes direções. Isto tem um lado positivo e um negativo. Devo dizer que apesar de ser uma pessoa positiva, o problema da tecnologia ter tornado possível toda a gente ver tudo é que hoje os designer começam a carreira a fazer coisas muito criativas mas que são copiadas de forma tão rápida que se torna frustrante. Eu, quando saio de um desfile, tenho no meu telefone todos os looks e detalhes da roupa, por um lado isso é fantástico por outro é muito aborrecido. Mas devemos sempre olhar para a mudança de uma forma positiva.

O Instagram e as redes sociais em geral tornaram tudo mais rápido e muito mais visto. Como é que isso mudou as marcas e o processo criativo? Como é que os designers conseguem fazer constantemente coisas novas numa altura em que a noção de novidade dura apenas alguns segundos?

As grandes marcas beneficiaram com as redes sociais e estão cada vez maiores e mais fortes. Parece que ninguém se interessa tanto pelas marcas mais pequenas ou locais. Tomando Portugal como exemplo, há muitos designers com ideias criativas mas que, apesar de não venderem em todo o mundo como a Dior, continuam a produzir coisas que as mulheres gostam de vestir, têm pontos de venda porque as pessoas compram. Eu fico um pouco preocupada com designers que ficam presos em marcas gigantescas, eles dão tanto… Estamos a falar de dez desfiles por ano, é muito duro.

Penso que se tem de olhar para o jornalismo de moda da mesma forma como se olha para o jornalismo de política. A velocidade em que vivemos hoje afeta todos, não afeta só a moda. Quando se é inteligente e realmente interessado por moda podem escrever-se coisas mais interessantes agora do que quando havia apenas dois desfiles por ano

Como é que o aumento do número de desfiles e dos eventos que as marcas fazem, que exigem cobertura jornalística, mudou a forma como se faz jornalismo de moda?

Penso que se tem de olhar para o jornalismo de moda da mesma forma como se olha para o jornalismo de política. A velocidade em que vivemos hoje afeta todos, não afeta só a moda. Quando se é inteligente e realmente interessado por moda podem escrever-se coisas mais interessantes agora do que quando havia apenas dois desfiles por ano, sempre com as mesmas pessoas, as mesmas modelos, a mesma primeira fila, de alguma forma temos de transformar as mudanças em algo positivo.

Nos seus artigos nunca fala só de moda, fala de cultura, política, arte. Porque é que a moda é um dos melhores retratos da sociedade?

Eu entrei na Universidade para estudar Língua e História Inglesa, depois fiz um curso de design em Paris e, rapidamente, percebi que era muito mais fácil escrever sobre a roupa do que fazê-la. Mas hoje é também muito interessante escrever sobre a roupa. A moda sempre refletiu o que se passa no mundo, isto não é nada novo. Basta pensarmos na Revolução Francesa, por exemplo. Antes desta Revolução as pessoas abastadas usavam todas roupas muito ricas e depois começaram a usar coisas muito mais simples e modestas. Não é nada que tenha acontecido hoje. A moda segue o que se passa no mundo e isso é muito interessante porque às vezes há mudanças que se notam primeiro na moda.

Algumas pessoas veem a moda como uma coisa fútil. Como é que ter um palco dedicado a este tema, numa conferência internacional como a Web Summit em que são debatidos os mais variados temas, pode mudar esta imagem?

A moda não é fútil, mas é politicamente correto pensar que a moda é fútil. Infelizmente muito do que aparece online é realmente muito fútil. É normal que se fique feliz por uma celebridade usar a nossa roupa mas eu sou um pouco cética em relação à razão por que é que alguém põe uma pessoa à nossa frente e nos diz o que ela está a usar. No fundo acaba por ser publicidade. Eu não sou contra isso, só acho que acontece demasiadas vezes, quando há tantas outras coisas realmente interessantes na moda.

É importante contar as histórias por de trás de cada coleção e da moda, para acabar com essa imagem fútil da moda?

Eu não sei se é necessário mudar essa imagem mas é preciso adicionar a essa imagem uma outra mais séria. Da mesma forma que se pode mostrar o que a Catelyn Jenner está a vestir, também se deve mostrar a forma como tantas pessoas estão a trabalhar a tecnologia para produzir tecidos que não fazem mal aos animais, porque não os usam. Há muita gente muito importante, como a Stella McCartney que sempre teve esta preocupação, e cada vez mais a seguem. Isto também acontece em Portugal, um país onde a pele é um material tão importante. Esta mudança é algo realmente muito importante. Na área da beleza também se têm feito importantes avanços nesta área.

Porque é que a sustentabilidade é tão importante hoje?

Acho que é uma excelente ideia não deixar o mundo desfazer-se aos bocados. Há uma nova geração com cada vez mais pessoas que acreditam que os animais e a natureza não devem sofrer para que as pessoas possam andar vestidas.

Outro tema que está na ordem do dia na moda é a diversidade. Esta é uma preocupação real ou é uma preocupação económica?

Devo dizer que me senti arrebatada quando vi a nova capa da Vogue Britânica. É uma capa que revela diversidade com uma modelo mulata, muito bem-sucedida. É ótimo vê-la na capa porque mostra o mundo como ele é. É algo completamente normal nos dias de hoje, em que as pessoas andam sempre por países diferentes. Já não faz sentido fingir que somos todos iguais. E isto não tem só a ver com os brancos e negros, também tem a ver com os japoneses, chineses, indianos. Acho que a diversidade é uma coisa ótima e que devia ser algo natural para as novas gerações.

Acho que o tamanho das modelos é uma coisa bastante mais complexa. Eu não acho que as modelos demasiado magras e demasiado jovens sejam um bom exemplo para alguém. Estamos a falar de modelos com catorze anos que só são tão magras porque ainda não têm formas. Penso que isso é errado.

Gostaria de ver um desfile de uma grande casa de moda com modelos de vários tamanhos a desfilar ao mesmo tempo?

Acho que o tamanho das modelos é uma coisa bastante mais complexa. Eu não acho que as modelos demasiado magras e demasiado jovens sejam um bom exemplo para alguém. Estamos a falar de modelos com catorze anos que só são tão magras porque ainda não têm formas. Penso que isso é errado. Mas há sempre o argumento de que a roupa é mostrada em mulheres altas e magras porque fica melhor nelas. Eu não sou uma das pessoas que pensa assim, mas é complicado.

Acha que isso é algo que tem de mudar?

Não penso que se possa mudar essa parte da moda, talvez se consiga, talvez possa ser feito. Eu não faço parte desse lado da moda, eu não escolho modelos para fotografar ou desfilar por isso não sou a melhor pessoa para dizer se essa mudança é possível.

Suzy Menkes na Web Summit. David Fitzgerald/Web Summit

O que pensa das marcas de grande retalho que, muitas vezes, vendem peças muito idênticas às de design de autor. Isto é um problema ou é algo que ajuda a democratizar a moda?

Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Como falámos há pouco, a velocidade da moda, significa que se torna mais fácil fazer cópias muito rapidamente. Eu estou preocupada com os jovens designers, é com eles que me preocupo. Acho que as grandes marcas como a Dior e a Louis Vuitton não vão sofrer danos porque alguém decide fazer uma cópia barata das suas peças. Em muitos casos é mesmo impossível fazê-lo, porque há muitos detalhes, as versões baratas nunca são exatamente iguais. Mas quem tem de responder a estas questões são as pessoas que compram, têm de responder se se sentem bem a comprar uma coisa que é uma cópia. É uma escolha que está do lado consumidor.

Eu acho que as coisas estão no rumo certo com o Edward Enninful, o primeiro homem na direção da Vogue Britânica. Mas há muitas mulheres na direção da Vogue noutros países. Acho que não deve haver cargos mais indicados para um género do que para outro. Não vejo nenhum problema numa mulher Presidente, como não vejo nenhum mal num homem na direção de uma revista de moda.

Mas é importante democratizar a moda? A moda deve ser para apenas uma elite ou para todos?

A moda é para toda a gente, porque hoje há tanta oferta com tantos tipos de preço. Eu estou mais preocupada com esta noção da mudança e novidade começar tão cedo, vemos miúdos a vestir coisas novas e com essa noção, em cinco minutos sabemos o que há de novo. Mas é assim que as coisas são agora, as pessoas adoram comprar roupa.

Em 1967 foi a primeira editora feminina na revista Varsity. Acredita que a mulheres olham para a moda de maneira diferente? É importante ter mulheres na direção das revistas de moda?

Eu acho que as coisas estão no rumo certo com o Edward Enninful, o primeiro homem na direção da Vogue Britânica. Mas há muitas mulheres na direção da Vogue noutros países. Acho que não deve haver cargos mais indicados para um género do que para outro. Não vejo nenhum problema numa mulher Presidente, como não vejo nenhum mal num homem na direção de uma revista de moda.

O que é preciso para se estar na direção de uma revista?

Eu não faço parte da direção de nenhuma revista. Sou alguém que escreve para 21 revistas Vogue em todo mundo, escolhi ser jornalista e não diretora porque acho que não tenho as ferramentas para isso. Eu gosto de trabalhar e contar histórias à minha maneira. Não só porque gosto de o fazer mas porque sou melhor a fazer isso. Um bom editor é como um bom designer: são pessoas que refletem sobre o mundo em que vivem, se as revistas não fizerem isso não vendem.

A Teen Vogue anunciou recentemente que iria passar a ser apenas digital. Faz sentido esta vaga de títulos a fechar para terem apenas versões digitais?

Quem toma essas decisões normalmente fá-lo por razões financeiras. A questão que se têm de fazer é: “Se as pessoas gostam de revistas, porque é que não estão dispostas a pagar por elas?”. Uma revista não sobrevive sem dinheiro, no online é mais fácil. Eu adoro ter uma revista nas mãos, mas se calhar outras pessoas preferem ver a informação no telefone a caminho do trabalho.

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