Tarana Burke: fundadora do #MeToo quer mais ação

Tarana Burke, a mulher que fundou o movimento #MeToo em 2006 – há 12 anos – está farta que lhe perguntem se é apenas um momento. E diz que esta é a altura de ação concertada.

Um dos momentos de maior consternação no evento United Sate of Women, que decorreu em Los Angeles, foi quando a ginasta Tiffany Lopez lembrou que reportou o médico Larry Nassar por abusos sexuais em 1998. Ninguém a levou a sério e o médico passou as duas décadas seguintes a abusar centenas de outras ginastas, até ser preso e condenado em 2017.

Histórias semelhantes são comuns nos escândalos de assédio e abuso que têm vindo a lume no último ano: denúncias que ficaram metidas na gaveta, líderes que ajudaram a esconder os casos, uma descrença normalizada das vítimas em favor dos acusados. O que mudou agora é que a comporta rebentou e as histórias de milhões de vítimas vieram ao de cima, mas o trabalho no terreno é muito anterior às hashtags (#) nas redes sociais.

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Eu sei que isto não é um momento, é um movimento, porque começámos o movimento há 12 anos”, declarou Tarana Burke, fundadora do #MeToo, numa sessão íntima durante o United State of Women.

Fora do palco principal, Burke não escondeu a sua impaciência com a discussão sobre se isto é apenas um momento que pode perder gás. “Os movimentos são criados a partir de momentos e este é o maior”, resumiu.

“Eu sei que isto não é um momento, é um movimento, porque começámos o movimento há 12 anos”, diz Tarana Burke

Para a ativista, que fundou o #MeToo em 2006, o que há, neste momento, é uma oportunidade única: “Agora, o nosso trabalho é criar algo que não existiu antes, um movimento liderado por sobreviventes com aliados a nível nacional.” Até aqui, era feito a nível local. As organizações estão agora a ligar os pontos da teia e a criarem uma rede não apenas nacional, mas internacional – como se vê pelos efeitos sucessivos de denúncias e condenações que se seguiram ao rebentar do escândalo Harvey Weinstein.

Aquilo que Tarana quer é que a substância desta mudança cultural não se perca na discussão em torno das hashtags e dos nomes sonantes. Os detratores dizem que existe uma histeria e muita gente a saltar para este comboio em andamento, questionando porque é que as vítimas só se lembraram dos seus abusos agora. O que a fundadora e outros ativistas querem que eles percebam é que, em muitos casos, essas vítimas falaram e denunciaram na altura, mas ninguém as ouviu. O mediatismo do #MeToo permitiu mudar isso.

“A diferença que vejo é que as pessoas estão a prestar maior atenção. Isto chamou a atenção para um movimento que existe há décadas.” Esta é a altura de conceber estratégias e trabalhar em conjunto, não de continuar a falar, afirmou. “As pessoas estão hiper-focadas na parte mediática disto. Houve milhões que disseram ‘eu também’ (me too) e levantaram as suas vozes e agora estão à procura de formas de fazer algo mais”, referiu Tarana Burke. “Já dissemos eu também, já percebemos, escrevemo-lo, temos as provas e os dados que precisamos para entender que a violência sexual toca todas as partes do mundo. O trabalho que tem de ser feito acontece depois de dizermos ‘eu também’.

“Milhões de pessoas disseram ‘eu também’ (me too), levantaram as suas vozes e agora estão à procura de formas de fazer algo mais”, afirma a fundadora do movimento

Em ano de eleições que podem mudar a estrutura de poder no congresso americano, os ativistas estão a trabalhar no sentido de levar mais gente a votar. “Me Too são duas palavras. A diferença é que não trabalhávamos juntos. Mas, desde a Marcha das Mulheres ao #MeToo, descobrimos o poder das nossas vozes coletivas.”

Tal não significa que o poder de Hollywood não tenha mudado o curso deste ativismo. Foi o que referiu June Barrett, que trabalha em prol das empregadas domésticas. “Depois de termos estado nos Globos de Ouro, muitas mulheres começaram a falar. Mulheres que nunca o teriam feito por causa do estigma deram um passo em frente e disseram ‘eu também’.” Charlotte Burrows, do Comissariado para a Igualdade de Oportunidades de Emprego, anuiu. “As pessoas agora percebem temos a sua atenção. Estão a abordar-no e a vir ter connosco de uma forma que não faziam antes.”

“O que quer que seja que a CNN vos esteja a dizer, isso não é o movimento’”

Tarana Burke sublinha que o importante é o que se faz para tornar as comunidades realmente mais seguras, algo que acontece depois dos gestos simbólicos como os vestidos pretos e os pins na passadeira vermelha. “O que quer que seja que a CNN vos esteja a dizer, isso não é o movimento”, disse Tarana. “Essa é a resposta corporativa.”

Ana Rita Guerra

Imagem de destaque: Carlo Allegri/Reuters

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