“Temos de reavaliar o que andamos a ensinar aos médicos sobre pós-menopausa”

pexels-karolina-grabowska-4239009
[Fotografia: Pexels/Karolina Gabrowska]

Mais do que serem ou não matérias sexies para os médicos ginecologistas, a menopausa e a pós-menopausa devem mesmo ganhar espaço na medicina da especialidade uma vez que grande parte das mulheres vive com ela, hoje em dia e em média, cerca de 30 anos.

Por isso, o médico ginecologista e obstetra Joaquim Neves considera que é imperativo “reavaliar o que é que andamos a ensinar os médicos sobre pós-menopausa”. Um processo que tem de começar “nas faculdades”, mas deve ser alargado aos “conselhos científicos”.

“Não é questão de ser ou não sexy. As sociedades científicas, muitas vezes, não dão uma amplitude à sua atividade e acabam por valorizar outras áreas como a oncologia ou a laparoscopia. Isto acontece em todas as especialidades. Há sempre um parente pobre. O planeamento familiar, por exemplo, também é um parente pobre”, avisa, considerando que tanto este como as questões da menopausa estão ao mesmo nível para ginecologistas.

“Os médicos mais novos, que estão nas especialidades de ginecologia, não estão muito motivados a fazerem consultas de planeamento familiar. Eles dizem-me: ‘isto é para os médicos de família’. Infelizmente, é um pouco assim, mas no colégio da ordem estão lá todas essas matérias que devem ser de conhecimento detalhado: Planeamento familiar, métodos contracetivos, menopausa”, revela Joaquim Neves, também autor do estudo que analisou a menopausa em Portugal e que concluiu, entre outros aspetos, que as mulheres nem sempre são devidamente acompanhadas, informadas e tratadas pelos seus médicos.

A investigação apresentada conta com uma amostra de “mil mulheres entre os 45 e os 60 anos e procura compreender como as portuguesas vivem a menopausa, abordando questões como desinformação e impreparação, principais efeitos, cuidados adotados e o acompanhamento clínico desta fase da vida. Sendo uma experiência única para cada pessoa, o estudo revela que mais de metade (56%) das mulheres sentem os primeiros sinais antes dos 50 anos, com uma em cada quatro a começar a ter sintomas antes dos 46 anos. Para a maioria, os sintomas duram até dois anos e 34% das mulheres em plena menopausa consideram-nos intensos ou muito intensos”, refere o comunicado referente ao estudo Menopausa: Como é vivida pelas mulheres em Portugal com coordenação científica do médico ginecologista e obstetra Joaquim Neves.

Cerca de 2/3 das portuguesas falam em “fase má ou muito má” quando atravessam a perimenopausa e menopausa. E a maioria chega a sentir seis sintomas diferentes, entre eles destaque para “gordura abdominal (57%), as ondas de calor (55%), as insónias/perturbações de sono (54%) e a fraqueza/cansaço (47%)”.