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“Tinha 35 anos acabados de fazer, um bebé com 11 meses… e tinha cancro da mama!”

“Tinha 35 anos acabados de fazer, um bebé com 11 meses… e tinha cancro da mama!”

Senti o que seria o primeiro nódulo na mama em agosto. Estava a amamentar. Achei que resolveria a questão como sempre: calor na mama, massagens vigorosos, bebé a mamar, gelo…

Não se resolvia, não doía (ao contrário da maior parte dos problemas que surgem durante a amamentação) e, por isso, decidi procurar ajuda. Falei com uma CAM (Conselheira de Amamentação), que achou melhor eu ser vista por um médico. A primeira dúvida foi quem seria o médico mais adequado, que percebesse de mamas que estão a produzir leite e fosse a favor da amamentação prolongada (nada fácil de encontrar!). Consegui um nome num dos grupos de apoio à amamentação no Facebook e marquei consulta.

Lembro-me de pensar: “Filho, aproveita a maminha! Grava cada momento de maminha dentro de ti.” Eu olhava para ele e passava-lhe todo o meu amor.

A Dra. Mónica (que foi fantástica) achou melhor mandar fazer uma ecografia mamária e mamografia, se necessário. Assim que fiz a eco percebi que a médica responsável estava muito preocupada. Disse-me logo para parar de amamentar, dando justificações evasivas – que não me convenceram –, e eu respondi-lhe que isso não estava nos meus planos. E não estava! Fiz a mamografia… e mandou-me fazer uma biopsia no dia seguinte, o dia do meu aniversário (arrepiei-me toda). E a médica continuava a insistir para eu não amamentar.

3 semanas

Amamentar o meu filho foi um sonho de toda a vida. Li tudo o que podia sobre amamentação. Participei em grupos, pedi ajuda. Foi das coisas mais difíceis e maravilhosas que fiz até hoje. E não ia abdicar disso assim tão facilmente. Era um ponto central da minha maternidade. Falei com Dra. Mónica, a amiga da amamentação, que me tranquilizou e me disse que podia amamentar mesmo depois da biopsia e que o mais sensato era esperar pelo diagnóstico para tomar decisões a partir daí.

Mais confortável com esta opinião (e aliviada), continuei a amamentar, mas com uma angústia que crescia dentro de mim, pois não podia fingir que não tinha visto a preocupação nos olhos da médica da biopsia. Tinha esperança que as suspeitas dela não tivessem fundamento, porque afinal ela era humana. Mas não podia negar toda a urgência com que o meu caso era tratado. Lembro-me de pensar: “Filho, aproveita a maminha! Grava cada momento de maminha dentro de ti.” Eu olhava para ele e passava-lhe todo o meu amor. Fechava os olhos e sentia… Olhava-o nos olhos e gravava, com todos os meus sentidos, TUDO dentro de mim! E pedia ao papá para participar e para tirar fotos, muitas fotos.

a mamar

Seis dias depois, chegou o relatório da biopsia: Carcinoma invasivo da mama, com metástases axilares… Ai! Tinha 35 anos acabados de fazer, um bebé com 11 meses… e tinha cancro da mama!

Iria ter de parar de amamentar. Cada vez que pensava nisso sentia o meu mundo ruir. Num conflito profundo entre a mãe que eu desejava ser e a mãe que eu podia ser. Queria fazê-lo da melhor maneira possível. Ele mamava em livre demanda, inclusive várias vezes durante a noite, por isso parecia-me uma tarefa difícil uma paragem tão brusca e tinha receio das consequências para ele. Voltei a falar com a Dra. Mónica, que me disse para começar a espaçar as mamadas.

Falámos com o nosso bebé. Numa linguagem adequada à idade dele, dissemos-lhe várias vezes durante esses dias que a mamã tinha um dói-dói nas maminhas e que já não ia ter mais leitinho para ele.

Ninguém parece, nem de perto, compreender a dor que provoca a uma mãe que quer dar de mamar, ter que cortar a mama contra a sua vontade. De um momento para o outro, choviam frases que desvalorizavam o assunto. Até hoje! O que me continua a entristecer e zangar.

Quando fazer o desmame? Marcaram o primeiro exame com contraste para dois dias depois de saber o diagnóstico… que coincidiu com o dia do 1º aniversário do meu filho. Iria ter que suspender a amamentação por esse dia, por causa do contraste (tóxico para ele). A amamentação seria suspensa definitivamente quando começasse a quimioterapia. Por isso decidi que não valia a pena adiar mais esta decisão: faria pior ao meu bebé ter que parar a mama por um dia e, depois, voltar a mamar, para parar novamente. E foi assim que, na manhã em que ele fez um ano, mamou pela última vez. Decidi pensar que esta era como se fosse uma prenda de aniversário para ele. O melhor que a mamã lhe podia dar, exatamente um ano depois de termos iniciado o nosso percurso de amamentação.

mi a pedir maminha

Agradeço que este diagnóstico tenha sido em mim, agradeço a oportunidade de ter criado laços afetivos fortes e estáveis com o meu filho antes de todo este tumulto. Agradeço que as minhas maminhas tenham ajudado a criar uma ligação ainda mais especial entre nós, criando momentos de cumplicidade inesquecíveis e provando a mim mesma que, às vezes, os grandes desafios só precisam de força de vontade e persistência.

Esta aprendizagem tinha servido para a amamentação e iria servir agora para o derrotar o cancro que entrou nas nossas vidas.

Contra a previsão de dois médicos (e a valiosa ajuda da minha médico “pró mama”), consegui parar a amamentação naturalmente, sem recorrer a nenhum tipo de medicamento e, o mais importante de tudo, de forma pacífica e tranquila para o meu bebé.

De ali em diante, achei, iria ser uma mãe diferente daquilo que tinha imaginado e lutado. Agora com a amamentação e, a seguir, com todos os desafios e limitações desta doença … e da vida.

Mas, o melhor, era e é que ele continua a ter uma família e a ter uma mãe! Que todos os dias, criativamente, procura encontrar mil e uma formas de lhe dar amor!

Testemunho de Eugénia Amaro, psicóloga clínica

Depoimento recolhido por Carla Bernardino / Editado por Bruno Contreiras Mateus