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Tudo o que tem de saber sobre a luz-azul

Coralie Barrau tem apenas 27 anos mas domina como ninguém os segredos da luz e o seu impacto ocular. A engenheira de física-ótica, especialista em fotónica na Essilor International e investigadora no Paris Vision Institute, esteve recentemente em Portugal para participar no Congresso Português de Oftalmologia e dar um curso sobre “A prevenção do Risco da Luz nas Patologias Oculares”.

O tema centrou-se na área em que tem desenvolvido trabalho e investigação: a luz azul, os benefícios e os efeitos nocivos. Como é que a luz, que é emitida pelo sol mas também por LED, ecrãs de smartphones, computadores, televisões, os riscos e como preveni-los, e todos os desafios que traz à indústria oftálmica foram as questões apresentadas, em Coimbra, pela engenheira francesa e o mote para uma conversa, posterior, com o Delas.pt

Segundo nos explicou Coralie Barrau, a luz azul tem diferentes variações que podem afetar os olhos e causar danos na visão e perturbações no relógio biológico.

Conforme o espetro e visibilidade, assim se pode falar em luz azul, luz azul-turquesa ou luz azul-violeta. “A luz azul é a parte mais energética da luz visível [para o ser humano], e à mais energética dentro da luz azul chamamos de luz azul-violeta”, define a engenheira.

A luz azul visível tem comprimentos de onda de cerca de 380 nanómetros a 780 nanómetros (nm). Entre estes, refere a literatura da especialidade, os comprimentos de onda de 380 a 400 nm são considerados particularmente críticos e apontados como causadores de lesões à retina, devido à incidência de luz de alta energia.

É aqui que se inclui a luz-azul violeta, visível para o olho humano e especialmente nociva, quando se comparam os seus efeitos negativos com os da luz azul normal.

“A luz azul pode levar a danos na parte exterior da retina, pode provocar a morte de células, lesões no ADN e stress oxidativo na retina. E isto é um processo prolongado no tempo. No nosso trabalho no Paris Vision Institute, identificámos que a luz azul-violeta, além de provocar esse stress oxidativo, pode também inibir a defesa das células na retina e dessa forma acelerar o seu envelhecimento, causando danos. A luz azul violeta provoca danos acumulados na retina, levando a um risco maior de maculopatia [patologias da mácula que podem afetar as funções visuais]”, refere a especialista.

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No trabalho desenvolvido no laboratório de fotobiologia daquele instituto, a equipa de Coralie Barrau mostrou que “a luz azul-violeta entre 415 e 455 nm é a mais tóxica para a retina”. A pesquisa que fizeram – que incluiu experiências para determinar a toxicidade da luz e ensaios clínicos com pessoas para medir, por exemplo, o efeito da luz emitida pelos ecrãs no ser humano –, permitiu também concluir que “a luz azul-violeta é um inibidor das defesas das células e um indutor desse stress”.

Luz boa e luz má
Há várias formas e fontes para absorver a luz. A luz do dia é a principal, mas contém elevada radiação, como lembra a engenheira de física ótica. Também por essa razão, há muitos tipos de luz-azul que se captam no exterior. Por outro lado, nos espaços interiores, recebemos a luz através de fontes artificiais, como os telemóveis, smartphones, ecrãs, tablets, computadores ou lâmpadas que temos em casa.

Mesmo que em maior proporção no exterior, o que é certo é que a luz azul está em todo o lado. E ainda que, por comparação com a luz de outras cores, a luz azul-violeta seja sempre nociva, os cuidados para evitar lesões devem ser abrangentes.

Em relação à luz azul-violeta, a especialista defende que devemos sempre proteger-nos dela e ter esse cuidado ao longo de todo o dia: “Podemos ficar às escuras”, brinca, ou “podemos pôr filtros nos olhos”, ou seja usar lentes com efeito de filtro para as diferentes camadas de luz azul-violeta.

Há ainda a possibilidade de filtrar as fontes de energia, como os ecrãs, mas, segundo Coralie Barrau, estas são menos fáceis de filtrar do que as lentes.

A essas recomendações podem juntar-se os óculos de sol, que servem igualmente para a luz azul normal, e que são um boa proteção para o exterior, sobretudo em dias com muita luz solar ou claridade. Mas para espaços interiores ou para o inverno, lentes claras, normais, com filtro de luz azul são eficazes para todas as situações em que não se use óculos escuros.

“As lentes devem ter, pelo menos, 20% de filtro de luz azul-violeta e deixar passar toda a luz azul-turquesa e o resto da luz visível porque precisamos delas para ver as cores, para a sincronização biológica ou para o sono”, recomenda.

A luz-turquesa permite o controlo da sensibilidade à luz, estimulando o reflexo da pupila e é fundamental para sincronizar o relógio biológico. Sendo essencial durante o dia, não é recomendável que os olhos a absorvam à noite. Coralie Barrau explica porquê:

“A privação do sono é um dos sintomas que está ligado não à luz azul-violeta, mas a uma parte da luz azul com menos energia, a que chamamos de luz azul-turquesa. Esta luz azul-turquesa está associada à regulação de níveis biológicos como o ciclo do sono. Por isso, não é bom quando não obtemos a luz-turquesa durante o dia, porque ficamos dessincronizados, com sintomas de fadiga, problemas de sono e de memória ou alterações de humor. Precisamos desta luz azul-turquesa durante o dia, mas não precisamos dela à noite.”

Segundo a especialista, a luz-turquesa emitida pelos ecrãs dos dispositivos é suficiente para provocar um decréscimo significativo na produção da melatonina, que é a hormona do sono. Já durante o dia, podemos obtê-la sobretudo no exterior, ainda que atualmente a maioria dos espaços interiores permitam a sua obtenção em níveis aceitáveis para as necessidades humanas.

“É bom conseguir estar alguns momentos no exterior durante o dia, mas mesmo assim creio que conseguimos receber a quantidade suficiente da luz azul-turquesa, porque não é preciso uma grande sensibilidade para a receber. Percebemos isso pela luz azul-turquesa que recebemos à noite pelos ecrãs de aparelhos tecnológicos como os telemóveis. É bastante baixa e, no entanto, é suficiente para provocar alterações no sono. Portanto, essa regulação que acaba por ter durante o dia é aceitável.”

Impactos diferenciados
O impacto dos danos causados pela luz azul e sobretudo pela luz azul-violeta varia consoante os grupos populacionais. No caso da idade, explica Coralie, há populações específicas que têm de ter mais cuidado porque são mais sensíveis a essa luz.

“Em primeiro lugar, as crianças, porque os olhos são muito transparentes, isto é a córnea e o cristalino, que estão antes da retina, deixam passar a luz azul-violeta. Além disso, até aos dez anos de idade os seus mecanismos de defesa ainda não estão totalmente desenvolvidos. Portanto, são mais sensíveis aos danos causados por essa luz. Depois, há a população mais velha, acima dos 60 anos, devido ao facto de a defesa das células diminuir e de a acumulação de pigmentos resultantes da idade aumentar. Há um duplo efeito”, exemplifica.

Já nas faixas dos jovens adultos e adultos, as defesas celulares são suficientemente fortes para compensar o stress oxidativo e a regulação da luz acaba por ser feita pelas defesas naturais do corpo.

Mesmo assim, dentro destas populações, há grupos específicos, como os técnicos de luz e de projeção, que estão muito expostos a muita luz azul, a níveis altos de radiação. A profissão, o ambiente envolvente e a genética são também fatores que influenciam a captação e consequente capacidade de filtrar a luz.

“Se houver antecedentes familiares de baixa defesa à luz, a pessoa tem de ter cuidados redobrados. A dieta alimentar também é muito importante, porque se for pobre em anti-oxidantes pode ser prejudicial. O envelhecimento da retina, a luz azul-violeta estão relacionadas com o stress oxidativo e para combatê-lo precisamos desses anti-oxidantes”, acrescenta.

Cuidar dos olhos desde pequenos
A proteção ocular em relação à luz deve começar desde tenra idade. “Devem proteger-se mais as crianças que os jovens adultos, porque, como disse, os olhos são mais transparentes, muito sensíveis e as defesas ainda não estão desenvolvidas”, refere.

Ainda que seja difícil desenvolverem uma degeneração macular até aos 10 anos, a pigmentação que se acumula na retina nesse período é irreversível. Ou seja, diz a especialista, “a partir daí só pode aumentar, nunca diminuir. Por isso é importante garantir a proteção das crianças”.

Aqui, mais uma vez os óculos de sol são uma boa opção para o exterior e quando está muita claridade, mas para outras situações são recomendáveis as “lentes claras que filtrem tanto os raios UV como a luz azul-violeta e que, além disso, contraem a pupila, que quanto maior for mais quantidade de luz absorve para retina”.

Nos espaços interiores, a maneira mais simples de proteção é usar lentes que filtrem a luz azul-violeta e cujo uso deve permanente. “Em relação à luz-turquesa, seria bom pôr de parte os tablets e os ecrãs duas horas antes de se ir deitar. Essas duas horas são muito importantes para a melatonina. A opção também pode ser usar lentes com filtro para a luz azul-turquesa, mas só para essas horas”, salienta.

E num país como Portugal, cheio de luz e de sol, devemos ser extra-cuidadosos? A resposta de Coralie Barrau não se faz esperar: “Sim, porque a radiação que se recebe é maior e por isso é preciso estar mais protegido.”

Para um país com as características do nosso, deixa como conselho usar mais os óculos escuros, mesmo no inverno, e alerta para os perigos dos raios ultra-violeta (UV), que não sendo a mesma coisa que luz azul-violeta têm os seus riscos.

“A maioria das pessoas pensa que os raios UV são mais emitidos no verão e ao meio-dia, mas não é o caso. Ao meio dia o sol está a pino, ao passo que quando está mais baixo incide diretamente nos olhos. Por outro lado, no inverno recebe-se maior radiação UV e também de luz azul-violeta porque está-se menos protegido, precisamente por não se estar consciente de que a luz passa mesmo com um tempo menos luminoso. Não pensamos porque não vemos, mas temos de estar protegidos o ano todo.”

Ana Tomás