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“Uma vida sem stress é uma vida sem motivação”

O ano está a terminar e à medida que o seu fim se vai aproximando vão-se fazendo os balanços e avançando promessas e resoluções que se esperam cumprir nos próximos 12 meses. São hábitos que, tal como os rituais, as datas festivas e as celebrações, representam um papel importante para o equilíbrio psicológico do ser humano e que têm a função de abrir e fechar os ciclos. Igualmente importante é o stress, tantas vezes mal compreendido, mas que bem gerido pode ser um fator de motivação essencial na vida das pessoas. É o que a psicóloga Isa Silvestre chama de “stress bom” e é o que explica em mais de 200 páginas, no livro “Gerir 1 Ano de Stress”, editado em outubro, pela Saída de Emergência. A obra começa, precisamente, com um capítulo dedicado às resoluções para o novo ano e termina com as épocas festivas, onde o Natal é uma das celebrações em destaque. Bons motivos para uma entrevista com a autora, que deixa alguns conselhos para contornar a ansiedade e evitar que o stress se torne num inimigo, nesta quadra e não só.

Como surgiu a ideia de fazer este livro?
O primeiro momento surgiu quando a editora (Saída de Emergência) me lançou o desafio de escrever um livro no âmbito da minha área profissional. A minha experiência profissional levou-me a analisar que o stress e a ansiedade são temas frequentes nas consultas de psicoterapia, quer seja no contexto clínico ou escolar, e independentemente da idade, género, profissão e situação socioeconómica.

Por que quis incluir casos clínicos no livro?
O livro está ilustrado com casos clínicos com o objetivo de procurar motivar o leitor a uma introspeção pessoal, ajudando-o a identificar-se ou a associar as histórias de vida apresentadas no livro a pessoas que lhe são próximas. E, dessa forma, facilitar a identificação, a compreensão e a interiorização das mudanças pessoais mais desejadas.

Fala de vários tipos e situações de stress, alguns inevitáveis, como situações de morte ou doença, mas outros mais contornáveis. Pode dizer-se que, de certa forma, também somos viciados no stress?
Uma vida sem stress, além de não ser possível, é uma vida sem motivação, sem qualquer prazer. Existem dois tipos de stress: o stress bom, que nos leva à criatividade, à procura de uma forma melhor de resolver as questões práticas da vida; e o stress mau, que nos leva a uma postura mais pessimista e derrotista, quando estamos perante problemas e desafios. Sendo quase impossível evitar esse mal-estar causado pelo stress, procurei descrever os sintomas de alerta para um “estado de stress” e as técnicas fundamentais para lidar e gerir com este distúrbio, o que permitirá, ao leitor, uma aprendizagem eficaz sobre a regulação das emoções e, assim, resgatar a qualidade de vida perante situações que são quase impossíveis de evitar.

Partindo dos casos com os quais lida enquanto psicóloga, quais são os principais picos de stress ao longo do ano, para as pessoas em geral, e para as mulheres, em particular ?Os picos de stress são diretamente influenciados pelas nossas expectativas e objetivos pessoais, bem como pelo ambiente social, familiar e profissional onde estamos inseridos. Mesmo sem termos vivenciado uma situação de ameaça ou de desemprego, conseguimos afirmar que este seria uma situação de enorme stress (negativo), por exemplo. Mas também existem muitas pessoas que sentem stress patológicos, evoluindo para situações de ansiedade generalizada durante o período de férias. Nas mulheres, existe uma tendência para apresentarem stress excessivo devido ao facto de executarem várias tarefas ao mesmo tempo, como o trabalho, a gestão familiar, os relacionamentos, as finanças, etc.
Porém, o que pode ser causador de maior vulnerabilidade ao stress, são situações como problemas relacionados com o trabalho, de relacionamento, financeiros e de saúde, a solidão, a morte de alguém querido, a gravidez ou as alterações corporais. Importa salientar que, como tem sido referenciado, a identificação das causas e sintomas de stress é fundamental para encontrarmos as soluções.

Muitas vezes temos desejos de mudança, mas não os conseguimos transformar em verdadeiras realizações, como explica logo no primeiro capítulo dedicado às resoluções de Ano Novo. Por que é que é tão difícil?
As resoluções ajudam a definir prioridades na nossa vida e numa determinada fase, desde que flexíveis e bem definidas, podem ser úteis na nossa tomada de decisões e organização do estilo de vida. Posto isto, fazer o balanço do ano é sem dúvida aconselhável, mas era importante que não fosse apenas no fim do ano.

E como podemos combater o stress da frustração, quando fazemos o balanço e vemos que não cumprimos os nossos objetivos?
Sem desejo não há objetivo, sem meta não existe um plano e sem um plano só se chega ao objetivo por acaso. A força de vontade é a chave e é possível adquiri-la. É realmente importante sabermos o que desejamos, pois, muitas vezes, não conseguimos realizar um plano ou uma promessa de Ano Novo porque ainda não reconhecemos que, na verdade, não queremos aquilo. Uma pessoa que tem um bom autoconhecimento apresenta maior facilidade em planear as suas próprias atividades. Reconhece os hábitos que são mais difíceis de mudar e consegue pensar em estratégias eficazes para fazer alterações na sua rotina, pois tem consciência dos prejuízos de não cumprir com o que combinou consigo mesmo. É muito importante acreditarmos que vamos conseguir cumprir os objetivos, mas não significa que se deva considerar metas fáceis de alcançar, mas que os objetivos para o novo ano devem ser realistas. Devemos procurar identificar e antecipar de que formas concretas se poderá falhar na realização do objetivo.

Numa sociedade tão exigente, como aquela em que vivemos, ainda sabemos valorizar as pequenas conquistas?
É importante valorizarmos todas as nossas conquistas e esta questão remete para uma análise muito individual e muito específica a cada um nós, porque depende das características de personalidade de cada pessoa. Mas, sem dúvida, que é muito importante aprendermos a valorizar pequenas mudanças no nosso dia-a-dia. Ou seja, devemos dar a nós próprios os parabéns. Finalmente começa a fazer o que tem andado a evitar? Então dê a si próprio os parabéns por estar a esforçar-se, ofereça a si próprio uma recompensa por ter feito alguma coisa em vez de insistir em que nada do que fez é suficientemente bom.

Gerir o stress passa também por aprender a saber perder? Como é que sabemos se devemos continuar ou desistir?
Aprender a gerir o nosso próprio stress passa pela capacidade de adaptação que temos à imprevisibilidade dos acontecimentos externos. Existem acontecimentos exteriores a nós próprios – como por exemplo, receber a notícia do falecimento de alguém que nos é querido – que não podemos controlar, evitar ou prever antecipadamente. Assim, a gestão do stress é específica à situação que nos é imposta. Um exemplo prático: duas pessoas ficam desempregadas no mesmo dia, e, é claro, ficam muito tristes com o acontecido, porque o desemprego coloca qualquer indivíduo numa situação bastante difícil. A primeira pessoa começa uma procura ativa de emprego, enviando currículos, visitando empresas, contacta pessoas; já a segunda pessoa, desenvolve uma ansiedade excessiva, ideias pessimistas e não consegue motivação para iniciar a procura ativa de emprego. O stress da primeira pessoa, foi um stress bom, enquanto que o stress da segunda pessoa foi um stress mau. O que é que fez com que o mesmo stress para duas pessoas, funcionasse como “bom” para um e “mau” para o outro? Foi a forma como cada pessoa percecionou a situação de stress, o “estar desempregado”.


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Mulheres são as grandes vítimas do stress natalício


O Natal está à porta e a quadra tem uma série de preceitos e hábitos associados. Há, no entanto, muita gente que não aprecia este tipo de ritual. De resto, parece haver hoje uma tendência para desvalorizar este tipo de rituais, com o argumento de que não passam de convenções sociais. Mas segundo o seu livro, não se resumem a isso e têm importância.
Estudos indicam que os rituais são importantes e têm a sua função de abrir e fechar os ciclos. A cada ciclo que termina, as pessoas sentem necessidade de fazer um balanço de pontos positivos e negativos. Associados a eles está um poder enorme, o poder da força simbólica, onde o mundo todo se mobiliza em função de festejar o Ano Novo ou o Natal. Os rituais são altamente simbólicos, não importa se tão comuns como escovar os dentes. Dentro da família os rituais permitem estabelecer um nível de estabilidade. Todas as famílias experimentam situações de crise ou stress, e os rituais têm a capacidade de assegurar às famílias alguma estabilidade durante esses períodos. Também trazem uma identidade familiar, pois são ocasiões em que os membros da família transmitem valores familiares e crenças, reforçam a herança familiar e reconhecem mudanças na família, além de criar sentimentos de pertença ao grupo. Por outro lado, permitem a socialização. Os rituais familiares são experiências de socialização entre os membros da família, para que as famílias possam transmitir informações culturais e normativas, assim como valores e crenças através das gerações. Como exemplo temos os rituais linguísticos: ensinar a criança a dizer “por favor” e “obrigado”. No Natal o que devemos continuar a valorizar são os sentimentos reativados nesta época natalícia: de harmonia, partilha, solidariedade e de alegria.

Recentemente saiu um estudo internacional que revela que as mulheres são as grandes vítimas do stress natalício, em grande parte porque a organização dos festejos recai sobre elas. Além dos conselhos que dá no seu livro em relação ao stress que esta quadra pode provocar, que soluções neste caso específico poderiam ajudar as mulheres a combater este stress?
Esta época conhecida pela “azáfama do natal” é causadora de stress. No meu ponto de vista, esse estudo evidencia a importância de envolvermos e de partilharmos as tarefas que a época natalícia exige com todos os elementos familiares: como a decoração da árvore de Natal e o presépio, a lista dos presentes, as compra desses presentes, as compras no supermercado, os cozinhados ou o arrumar a casa, entre outras tarefas. Assim, a primeira etapa para começarmos os preparativos natalícios é reunir toda a família com o objetivo de se distribuir as tarefas necessárias que cada um deve cumprir para que a noite e/ou o dia de Natal seja vivido por todos com paz e amor e sem stress (negativo).

Ana Tomás