Vanessa Rodrigues: “Há muitos estereótipos sobre a mulher reclusa”

A prisão “é vivida de maneira diferente por homens e por mulheres”, acredita Vanessa Ribeiro Rodrigues, autora de um livro sobre reclusão feminina, que será apresentado na quinta-feira, 22 de março, em Lisboa. O livro “Ala Feminina” resulta de conversas com 17 reclusas em três prisões exclusivamente, ou com alas, femininas: a brasileira Talavera Bruce e as portuguesas Santa Cruz do Bispo (Matosinhos) e Tires (Cascais).

A autora do livro, Vanessa Ribeiro Rodrigues, reflete que as mulheres reclusas vivem uma realidade paralela e “falam constantemente dos laços afetivos” com a família.
“Ao contrário da reclusão masculina, a reclusão feminina tinha uma característica, que era o facto de elas não perderem os laços afetivos com os filhos, a família e viverem uma dupla punição“, descreve, em entrevista à Agência Lusa.

“Tem de ser feito um trabalho mais profundo, mais alargado, porque há muitos estereótipos sobre a mulher reclusa, é um universo mais invisível. Fala-se mais da reclusão masculina”, compara, recordando que apenas 6% da comunidade reclusa é mulheres. É minoritária e, por isso, com “menor visibilidade na esfera pública”, analisa.
A autora destaca que “tanto Tires, como Santa Cruz são especiais, têm condições para a comunidade feminina em reclusão, creches, cabeleireiro, condições que não estão presentes em todas as prisões”. As reclusas têm também acesso a quartos para visitas íntimas, onde podem receber regularmente, e após autorização superior, os seus companheiros.

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“Ala Feminina” começou a ser escrito há sete anos, quando “o acaso” fez Vanessa Ribeiro Rodrigues “tropeçar” nas histórias de prisão no feminino. Na altura jornalista correspondente a partir do Brasil, tentou cobrir os confrontos violentos que estavam a acontecer nas prisões do estado do Rio de Janeiro, mas razões de segurança obrigaram-na a divergir caminho para o estabelecimento prisional de Talavera Bruce, onde, à boleia do projeto de reinserção social AfroReggae, falou com três reclusas.

“Ao contrário da reclusão masculina, a reclusão feminina tinha uma característica, que era o facto de elas não perderem os laços afetivos com os filhos, a família e viverem uma dupla punição”

Começou aí a “inquietação” de Vanessa, que indagou se, por “algum acaso da vida, uma má decisão ou o próprio contexto social”, não poderia estar, ela própria, ali, entre grades. Fixou esse “jogo de espelhos” e, quando voltou para Portugal, em 2010, decidiu aprofundar o assunto. Tinha “curiosidade” de saber mais sobre as histórias e circunstâncias de vida dessas mulheres.

Prisões portuguesas mais compreensivas

Vanessa Ribeiro Rodrigues notou um “cuidado diferenciado” com esta comunidade reclusa e também diferenças na relação entre guardas e reclusas de Portugal e Brasil. “Há uma maior proximidade e compreensão nas prisões portuguesas“, distingue, recordando que, em Talavera Bruce, as reclusas “tinham medo” das guardas, que a mantiveram sob pressão durante as entrevistas, muito controladas no tempo.

O livro – que conta com um prefácio da procurador-geral da República, Joana Marques Vidal – não foi escrito com o objetivo de questionar o ordenamento prisional português e as reclusas não fizeram “queixas” sobre o sistema. O que fizeram foi “contar as suas histórias de vida e o caminho que as levou à reclusão e como esta as fez mudar ou fará mudar”, resume.

Porém, “a reinserção social é um tema transversal ao testemunho destas mulheres”, que, quando são reincidentes, culpam a ineficácia das políticas de reintegração. “Há uma tatuagem que elas carregam, que é o facto de serem ex-reclusas“, lembra a autora.
Sublinhando que as 17 histórias de reclusas que reuniu no livro “não representam o todo”, Vanessa Ribeiro Rodrigues acrescenta que as prisões de Tires e Santa Cruz do Bispo também não. “Estes dois casos são especiais”, até porque têm feito um “trabalho diferenciado” na formação das mulheres reclusas, destaca.
Mas, mesmo em Tires e Santa Cruz do Bispo “elas saem da prisão e são colocadas lá fora (…), não há um processo transitório entre o estar dentro e o estar fora, que permita (…) depois uma reintegração, uma reinserção social que seja, de facto, eficaz”, aponta, referindo que “uma das maiores críticas” destas mulheres recai sobre “a política de integração social”, que, segundo elas, “não existe e lhes dificulta muito o caminho”.
Editado pela Saída de Emergência, “Ala Feminina” será lançado na quinta-feira, às 18:30 horas, na livraria Fnac do Chiado, em Lisboa.

CB com Lusa

Imagem de destaque: Shutterstock

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