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Vítor Espadinha e o regresso às aulas

Setembro era um mês tão lindo quando Vítor Espadinha o cantava com pose marialva e voz delicodoce:

Foi em Setembro que te conheci
Trazias nos olhos a luz de Maio
Nas mãos o calor de Agosto
E um sorriso, um sorriso tão grande
Que não cabia no tempo

Era o mês do meu aniversário e do aniversário do meu filho mais velho; o que assinalava a chegada do outono e trazia as saudades de um bom casaco de malha pelos ombros ao cair da tarde. Pois era, até se tornar no mês em que esse filho entrou para a escola e depois dele a irmã, uma carga de trabalhos que está longe de me abandonar.

Há 15 anos que setembro deixou de ser um mês bestial e se transformou numa época de ansiedade, stress e falência. Ansiedade porque a publicidade começa a montar-nos o cerco logo no final de agosto, com promessas de descontos e facilidades. Uma pessoa já nem goza bem o resto das férias quando começa a ouvir aquela lenga-lenga dos manuais escolares. E o stress que é pôr adolescentes na cama à meia-noite quando, até há dois dias, viravam a madrugada a ver séries? Tenho uma lá em casa que me apareceu com esta solução para entrar nos eixos.

– Quarta-feira vou fazer direta.

– Estás doida, porquê?

– Assim, na quinta-feira estou morta de sono, deito-me cedo e acordo na sexta fresquinha.

Por último, falemos daquilo que hoje está em primeiro: o dinheiro. Neste caso, da falta dele. Comprar manuais escolares para dois filhos que frequentem o ensino secundário é hipotecar qualquer pequeno luxo relativo ao próximo semestre. Por isso já tenho as respostas na ponta da língua quando me vierem com cantigas:

– Calças novas? Vende o livro de matemática que dá para comprares um par na Primark.

Apetecia-te um hambúrguer? Morde os cadernos de argolas que comprámos na Staples.

Quanta mim, resta-me esperar que o mês passe sem dar em doida com as queixas dos horários, o ódio aos professores, as toilettes matinais, etc, etc, etc. Deus me ajude a ter paciência ou me arranje uma caixa de calmantes. De marca branca, que estou na miséria.


Dulce Garcia é jornalista e romancista, autora do livro ‘Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum