Westworld 2: A busca de humanidade no meio do sangue, do terror e dos robôs

Caos, vingança, justiça impiedosa e uma luta até à morte pelo controlo de Sweetwater é o vemos na segunda temporada de Westworld, a série da HBO que imagina um faroeste onde os hospedeiros são robôs que sangram. Mas o que significa para estes hospedeiros, que são feitos de fios e processadores, lutar até à morte? E como vão definir personalidades se toda a sua existência foi programada por humanos?

“A segunda temporada explora exatamente o que os hospedeiros vão fazer com a liberdade que adquiriram”, explica Rodrigo Santoro, o ator brasileiro que interpreta o papel de Hector, numa conversa em Hollywood e a propósito da exibição da série em Portugal, no canal TV Séries.

“Agora há uma procura pelas suas identidades, porque até aí viveram com as narrativas que foram criadas para eles.” No final da primeira temporada, os hospedeiros rebelam-se depois de começarem a ganhar consciência, que se desenvolveu com uma injeção de código misteriosa que lhes permitiu, aos poucos, recordar memórias. Mas apenas Maeve (Thandie Newton) conseguiu escapar do parque. Os outros hospedeiros, incluindo Hector, terão de lutar contra os donos de Westworld, que pertence à corporação Delos, para conservarem a sua inédita liberdade.

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Santoro fala de uma jornada de autodescoberta, mas refere que Hector mantém a sua essência. “É um guerreiro niilista, apocalíptico. Nunca olhei para o Hector como um vilão ou um mau cowboy. Ele acredita na espiral descendente dos humanos.

A moralidade e humanidade dos protagonistas estará em causa, mesmo quando se trata de robôs, e a audiência ficará confusa sobre que lado defender. “As pessoas querem ver estes hospedeiros sobreviverem, não necessariamente acabarem com a raça humana, mas queremos que tenham redenção”, diz James Marsden (Teddy).

“Uma das coisas interessantes da série é que a audiência tem empatia por estes robôs sencientes.” Essa confusão é o que querem os criadores Jonathan Nolan e Lisa Joy, que conceberam este mundo fantástico para questionar o que significa ser humano. “Estamos a tentar explorar não apenas o advento da inteligência artificial, mas também examinar a natureza humana”, afirma Lisa Joy. A criadora, casada com Jonathan Nolan, diz ao Delas.pt que o arco da história foi decidido antes mesmo do primeiro episódio, e por isso é possível encontrar “migalhas” que indiciam revelações posteriores desde o início.

“Estamos a tentar explorar não apenas o advento da inteligência artificial, mas também examinar a natureza humana”, afirma a criadora Lisa Joy

“Estamos a colocar questões enormes e não seria bom não termos uma hipótese final”, sublinha. Isso não muda mesmo que os fãs mais dedicados descubram segredos antes do tempo, como aconteceu na primeira temporada. Até porque a intenção de Westworld não é tanto ser um quebra-cabeças, mas uma teia de reflexões. “Parte da glória de fazer uma série sobre Inteligência Artificial (IA) é que podemos dar um passo atrás e olhar para os humanos a partir desse ponto de vista”, afirma. “Não devemos comprimir as nossas identidades num arquétipo simplista.”

Percebe-se, por isso, porque é que a personagem principal, Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), não é construída nem como uma vítima nem como uma heroína típica. O seu papel na segunda temporada é duro e deixa um rasto de sangue, que até o par romântico Teddy (James Marsden) questionará. Mas Dolores é tão imperfeita como nós, quase um representante da audiência, que quer vingança, liberdade e respostas.

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O interessante desta dicotomia humanos-robôs é que tendemos a achar a humanidade das máquinas quando elas exibem candura, amor, compaixão ou saudade; mas não consideramos o mesmo quando elas traem, manipulam e matam, que são características abundantes na natureza humana.

Jonathan Nolan, o irmão de Christopher Nolan que trabalhou com ele na trilogia Batman – The Dark Night, acha que sabe porquê. “Tendemos a pensar em nós próprios como o standard de ouro em inteligência e comportamento, porque não temos nenhum outro exemplo. Estamos sozinhos neste planeta”, diz ao Delas.pt. “A nossa compreensão da inteligência, consciência e moralidade é muito limitada. Há muitos humanos e diferentes exemplos de como viver, mas todos aprisionados dentro do mesmo parâmetro”, reflete. “Temos uma forma muito estreita de ver o mundo e tendemos a aplicar isso à inteligência artificial. Penso que isso é uma armadilha, porque nos deixa cegos em relação a outras possibilidades.”

O regresso de uma personagem perdida

“O interessante na temporada 2 é que há aqui uma inversão de papéis”, diz Shannon Woodward, que dá corpo à intrépida investigadora. “Os humanos já não têm controlo sobre o parque e os hospedeiros têm uma autonomia que não tinham, e estão a escolher quem querem ser. Os humanos têm de enfrentar a ideia de que perderam o controlo. Com quem se aliam, em que acreditam, onde está a sua moral?”

Shannon revela que sempre achou ser a personagem que encarna os criadores. “É como se audiência tivesse sido inserida na história”, explica. “Há muitas coisas que fizemos que me trouxeram uma emoção que não pertencia àquelas cenas, e eu pensei: ‘é isto que a audiência é suposto sentir’.”

“Sou atraído pelas perguntas existenciais que são feitas e as forma como exploramos a nossa relação com a realidade”, diz Jeffrey Wright, o ator que dá vida a Bernard Lowe, o hospedeiro que achava ser humano e que está de regresso à série.

Curiosamente, quando Wright aceitou este papel, não sabia que era um dos hospedeiros robóticos. “Sou atraído pelas perguntas existenciais que são feitas e as forma como exploramos a nossa relação com a realidade”, estabelece. Wright confessa que nenhum dos atores vê o trabalho dos outros até à estreia dos episódios e que todos são fãs da série. “Estamos tão excitados por ver a temporada como o resto dos fãs.”

Karl Strand, que será interpretado por Gustaf Skarsgård (mais um irmão do clã de atores), chegou de novo e encarna um ex-militar que lidera uma companhia privada e é chamado quando as coisas correm mal. “O Karl é a representação de uma certa crueldade da Delos”, explicita. “Para as empresas, é sempre por causa do dinheiro”, afirma ao Delas.pt. E conclui: “Tão ameaçador quanto o advento da inteligência artificial é a falta de controlo sobre as corporações. Eu represento isso.”

Ana Rita Guerra
Imagem de destaque: Phil McCarten/Reuters