Will & Grace: um regresso hilariante para aliviar o estado do mundo

Will & Grace, a série, volta como uma lufada de ar fresco para fazer rir e, pelo caminho, mudar mentalidades. Debra Messing (Grace), Eric McComark (Will), Megan Mullally (Karen) e Sean Hayes (Jack), contam-nos, em Londres, porque é que rir é o melhor remédio.

Ele era advogado numa firma importante e homossexual. Ela era designer de interiores e heterossexual. Entre eles havia uma amizade que cativou audiências e quebrou estereótipos. Ao longo de 8 anos, Will & Grace ganhou 16 Emmys e uma legião de fãs que fizeram este regresso possível, 10 anos depois daquele que se pensava ser o último episódio.

“Quando a série terminou em 2006 todos nós pensámos que era tempo de seguir em frente”, conta Sean Hayes, o ator que dá vida a Jack. Quando em 2016 o elenco foi contactado pelos criadores da série para uma curta reunião a fim de apoiar a candidatura presidencial de Hillary Clinton todos disseram que sim em menos de uma hora. “Nós queríamos fazer passar a nossa mensagem da melhor forma que conseguíamos. Infelizmente para nós, e para o resto do mundo, acabou por não correr como queríamos”.

A filmagem desse vídeo de 10 minutos foi feita no maior dos secretismos e nem a audiência presente no dia sabia que estaria prestes a presenciar um dos reencontros mais esperados da história da televisão americana. Publicado no Youtube horas antes do primeiro debate da corrida presidencial norte-americana, o vídeo incentivava ao voto democrata e foi o humor político que lhe valeu mais de 7 milhões de visualizações e, por fim, o regresso de Will & Grace para uma nona temporada.

WILL & GRACE: Debra Messing como Grace Adler, Eric McCormack como Will Truman no episódio ’11 anos depois’

Durante o hiato de 10 anos, o cenário permaneceu intocado, tal e qual como Will e Grace o tinham deixado no último episódio. Dentro do apartamento de Will nada mudou, mas cá fora, o mundo está muito diferente.

“A série ultrapassa gerações”, explica Eric McCormark, que no pequeno ecrã protagoniza Will Truman. “O que eu nunca me tinha apercebido é que esta nova geração viu a série durante estes 10 anos de intervalo e isso teve um efeito. Eu continuava a ser abordado por jovens de 18 anos que me agradeciam por os ter ajudado a ‘sair do armário’ para os pais. O programa continuou a ter vida própria e a ser um veículo para facilitar diálogos”.

“Começámos a receber cartas de pessoas a expressar a sua gratidão por as representarmos em horário nobre – como trabalhadores árduos, pessoas leais, românticas, divertidas, multifacetadas”

Quando estreou na televisão em 1998, Will & Grace foi revolucionário. Além de ser o primeiro programa em horário nobre a tratar temas LGBTQ sem pudor, foi também o primeiro a fazê-lo de forma natural e sem clichés. Apesar de algumas críticas iniciais apontarem para um retrato pouco diversificado da homossexualidade, a série depressa ganhou o apoio de organizações para os direitos LGBTQ, como a GLAD nos Estados Unidos da América.

“Eu penso que estas primeiras críticas não estavam totalmente erradas”, admite Eric McCormark. “Era um programa num canal de televisão americano. O canal estava preocupado que [a série] fosse demasiado gay e nos estávamos preocupados que não iria ser gay o suficiente para que fosse aceite. Mas depois da primeira temporada, as organizações aperceberam-se de que nós estávamos do lado delas, e que não estávamos ali para gozar, coisa que aconteceu durante décadas no seio da comédia americana”. Quanto à questão da diversidade, o ator acredita que o programa não era limitativo. “Entre o Jack e o Will há muitas abordagens diferentes da forma que um homem gay vive, o que possibilitou que nós explorássemos áreas que outros programas não seriam capazes. E eu penso que no fim de tudo foi esta forma de tratar os assuntos que nos fez ganhar este respeito”.

Apesar de não ter sido criado com este propósito, Will & Grace acabou por se revelar um marco para a educação social, não só dos Estados Unidos da América, mas do mundo. Em 2012, Joe Biden, na altura vice-presidente do governo de Barack Obama, declarou publicamente que a série “fez mais para educar o público Americano” em termos de direitos LGBTQ “do que alguém alguma vez fez”.

“O que o programa fez para curar famílias, encorajar pessoas a aceitarem-se e a celebrarem quem são, abrir diálogos e, em última análise, a aceitação da lei do casamento”

“Esta foi a maior surpresa do programa”, releva Debra Messing ao recordar a primeira vida de Will & Grace. “Nós sabíamos que [a série] era engraçada, mas foi quando começámos a receber cartas de pessoas a expressar a sua gratidão por as representarmos em horário nobre – como trabalhadores árduos, pessoas leais, românticas, divertidas, multifacetadas, etc. – que começámos a perceber que estávamos a ter impacto social e, por conseguinte, político”. Ao falar ao Delas.pt, a atriz vencedora de um Emmy em 2003 pelo seu papel como Grace, não esconde a emoção de fazer parte deste projeto. “É do que mais me orgulho… Para além do nascimento do meu filho. O que o programa fez para curar famílias, encorajar pessoas a aceitarem-se e a celebrarem quem são, abrir diálogos e, em última análise, a aceitação da lei para o casamento gay… Fazer parte de algo que influenciou tudo isto foi um tremendo privilégio”.

O orgulho de Debra é vivamente partilhado pelos outros três protagonistas. Porém, é tempo de partir para outros temas igualmente urgentes. “O que é ótimo para a série agora é que não faz sentido pintar histórias dramáticas das aflições de ser gay. Sim, ainda temos muito trabalho a fazer nesse sentido por todo o mundo, mas nesta série já cobrimos isso, agora é acerca das outras milhares de coisas que as personagens enfrentam”.

Para Eric McCormark a abordagem de temas para quebrar preconceitos é incontornável. “Era bom que pudéssemos ter uma volta da vitória, em que não tivéssemos que carregar o peso do mundo aos ombros – e nós não temos que o fazer, porque há outros programas, dramas e comédias, que carregam esse peso. Mas, ao mesmo tempo, todo o progresso racial, gay e para as mulheres foi pelo cano abaixo. Venho de um país em que o Ku Klux Klan faz outra vez parte da conversa. Há tanto ódio que voltou por causa de Donald Trump que algumas das coisas que nós estamos a dizer agora precisam de ser ditas, tal como em 1998. É extremamente chocante, mas é a verdade”.

“Eu penso que a série é mais necessária agora do que alguma vez foi”, explica Debra Messing. “O nosso país é um sítio muito diferente daquilo que era quando a série terminou. O último ano e meio tem sido muito confuso, caótico e assustador. E há muitas facetas da nossa sociedade que regrediram. Por isso mesmo sinto que é oportuno fazermos o nosso programa agora”. A atriz confessa que o seu único requisito para voltar foi que a série continuasse a ser fiel a si mesma. Will & Grace “sempre foi um programa provocante que fazia comentários acerca de política, tendências sociais, cultura pop e acontecimentos do momento. Sempre o fizemos de uma forma divertida e atrevida que desafiava limites. Eu disse logo que se alguém viesse dizer que tínhamos que ser gentis com o nosso Presidente, então nós não podíamos fazer a série, porque essa não é a nossa a série. É exatamente por mantermos estes parâmetros que conseguimos fazer as pessoas rir – o que sempre foi a nossa prioridade – num tempo em que rir e uma bomba reparadora e muito necessária no nosso país”.

Sean Hayes concorda que é sempre importante falar de problemas que afetam minorias e defende que a forma mais eficaz de o fazer é pelo riso. “A comédia é uma ferramenta tão poderosa para passar uma mensagem porque é menos provável que as pessoas oiçam se estivermos a gritar com elas”. O ator adianta ainda que o que dá poder a estas personagens é o facto de elas serem reais e viverem no mesmo mundo dos espectadores.

A realidade deste grupo de quatro amigos retratado em Will & Grace assemelha-se a muitas situações sociais reais. Ideias opostas, opiniões políticas distintas que podem aquecer qualquer discussão amigável. Will & Grace quer mostrar como a amizade pode superar estas barreiras, ainda que haja amigos que não conseguimos mudar como é o caso de Karen. Megan Mullally dá vida à personagem que conquista pela sua personalidade maliciosa. Nesta temporada, Karen é das melhores amigas de Donnie e Mel (os nomes carinhosos para Donald e Melania Trump). Mas na vida real, a atriz não poderia discordar mais da sua personagem.

Quando se fala em Trump, Megan Mullally revira os olhos e não lhe chama carinhosamente Donnie, mas sim “o ditador” ou “nojento”. Na vida real, a atriz não tem a voz aguda a que nos habituou no ecrã nem o cabelo armado, mas o sentido de humor é igualmente genial. “É interessante que os criadores colocaram a Karen como a apoiante de Trump mas ainda assim todas as observações desrespeitosas acerca de Trump vem inocentemente da boca de Karen. Ela diz estas coisas horríveis que ela acha que são espetaculares porque para ela as qualidades terríveis de Trump são fantásticas. Então, ironicamente, a Karen que é a maior apoiante de Trump é quem faz involuntariamente as maiores críticas ao regime”.

Com o sucesso do regresso da série, cuja segunda temporada já está confirmada, será que estas críticas já chegaram aos ouvidos de Trump? “Provavelmente, eles têm que ouvir alguma coisa acerca (de Will & Grace)”, acredita Megan Mullally. “Mas ainda não fomos bombardeados com um tweet pelo ditador. Mas há sempre um amanhã, e eu tenho a certeza que virá, mais cedo ou mais tarde”.

Will&Grace é exibido todas as quintas-feiras, às 21h10, no TVSéries.

Por Andreia Pedro, em Londres