Irão e Portugal encontram-se na ‘lua’

Guitarrista Marta Pereira da Costa com a cantora iraniana Tara Tiba.
(Leonardo Negrão/Global Imagens)

A iraniana Tara Tiba canta música Persa acompanhada pela guitarra portuguesa de Marta Pereira da Costa. O tema chama-se Moon e integra o primeiro álbum da artista portuguesa, editado pela Warner Music. Tara Tiba esteve em Lisboa a promover este trabalho e o Delas.pt foi saber a história destas duas mulheres resilientes, que a música juntou.

Tara Tiba nasceu no Irão, estudou arquitetura mas foi a música a ditar o ritmo da sua vida. Hoje vive na Austrália, porque no seu país a Lei não a deixa cantar e viver da sua própria voz. Por lá, isso é coisa de homens.


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Marta Pereira da Costa é portuguesa, estudou engenharia e mudou tudo perto da casa dos 30. Arriscou fazer da guitarra portuguesa a sua companheira de estrada mesmo sabendo que, por cá, estaria a entrar, com toda a sua feminilidade, num universo masculino. Tara e Marta são duas mulheres de talento sem fronteiras que se juntaram para dizer ao mundo que a arte não tem género.

A primeira vez que ouviu Fado, Tara estava no Irão. Visitava uma galeria de arte e uma “música maravilhosa, uma voz linda”, palavras suas, chamaram-lhe a atenção. Era um dos álbuns de Mariza, que levava Portugal a Teerão. Na altura, Tara apenas soube – porque perguntou ao galerista – o nome da cantora; à data, não sabia que aquilo que ouvia era Fado. Esse conhecimento veio mais tarde, quando pesquisou o tema e descobriu vários fadistas nacionais. Também aí, a guitarra portuguesa ficou-lhe no ouvido e terá começado a pensar numa forma de unir a sua voz às cordas, àquelas cordas em particular. Já a viver em Perth, Austrália, soube que Carminho iria subir ao palco do WOMAD, festival de world music, em Adelaide (AU). Em 2014, quando apanhou o avião para finalmente ‘ver’ o Fado, levava na bagagem a certeza de que o queria na e com a sua música; a ele e à guitarra portuguesa. No final do concerto, participou no workshop com Carminho e Diogo Clemente, que a acompanhava. Tara fez perguntas, muitas!, queria saber do Fado, das suas escalas, das suas formas. Queria “colaborar com o Fado”, desafiou Diogo a tocar e cantou. Assim. De improviso.

Ali, no momento em que Tara Tiba solta a voz a Diogo Clemente, começa a escrever-se a história de um encontro improvável. Quando Tara descalça os sapatos e crava os pés na relva para mostrar o que sabe fazer, estava longe de imaginar que, num futuro próximo, cantaria para a guitarra portuguesa de Marta Pereira da Costa.

O terceiro single do seu álbum de estreia, editado em maio, conta com a participação de Tara Tiba. Como aconteceu este feliz encontro?

Marta Pereira da Costa (MPC): No dia a seguir ao Diogo Clemente ter sido “atropelado por aquela voz” – é assim que ele descreve o momento em que ouviu Tara Tiba cantar – estavam já a gravar, no hotel, vários takes, em várias tonalidades. Logo ali ele começou a magicar uma data de coisas. Mandou-me uma mensagem a dizer que tinha conhecido uma mulher inacreditável, com uma voz única, que estava a ter uma ideia fantástica e que quando chegasse a Lisboa que ma contava. Disse apenas para eu ir pesquisando por Tara Tiba. Eu não a conhecia. Entretanto o Diogo chegou a Lisboa com as gravações. Ele próprio fez o conceito do tema, criou a minha melodia para a guitarra, montou o tema todo e depois eu gravei a guitarra, cá em Lisboa, sem conhecer a Tara! Ela só veio em Janeiro fazer o videoclip do disco. A Tara estava em Madrid a gravar o segundo disco, com Javier Limón – que é um grande produtor, já produziu para a Mariza, para a Buika… – e aproveitámos a proximidade. Agora voltou a Madrid, para continuar com as gravações, e aproveitámos novamente.

Porque é que o Diogo se lembrou de si, quando ouviu a Tara cantar?

MPC: Porque começámos a trabalhar na pré-produção do meu disco e ele estava muito por dentro daquilo que eu queria fazer. Eu queria criar novas parcerias com músicos estrangeiros, queria abrir portas para a guitarra portuguesa, e ele achou que ligar duas mulheres que estão a romper tradições – ela teve de sair do seu país para poder cantar de forma profissional; eu por tocar guitarra portuguesa, que é um instrumento associado aos homens – fazia todo o sentido.

É linda a sonoridade de Moon. De que trata a letra?

Tara Tiba (TB): A letra é do poeta Persa, clássico, Rumi, muito difícil de traduzir. Mas a mensagem é esta: se estás à procura da verdade, o melhor será olhares para ti próprio.

Não é comum uma adolescente de 16 anos interessar-se por música clássica Iraniana. Mas aconteceu consigo…

TB: Não é, de todo, comum. Aliás, eu era a aluna mais nova do meu professor, porque normalmente são as pessoas mais velhas que procuram estas aulas. O que me fez despertar para este tipo de música? Não sei. Verdadeiramente não sei. Mas sinto-me muito feliz por isso ter acontecido, porque é um dos grandes ativos que tenho e que posso apresentar ao mundo. A técnica vocal e a improvisação serão dos aspetos que mais me fascinam na música persa.

À qual adicionou o jazz. Era-lhe óbvia esta fusão, ou foi resultado de pesquisa e de várias tentativas?

TB: Eu sempre pensei em, de alguma forma, pegar na música clássica Iraniana e levá-la ao nível seguinte. Houve uma época em que, em simultâneo, estava a estudar Arquitectura moderna, na Universidade, e música antiga persa. Vivia uma dicotomia: ‘estou a pensar a arte enquadrada num conceito muito moderno e ao mesmo tempo estou a fazer (na música) algo tão tradicional.’ Nessa altura estava a entrar na casa dos vinte e ainda levei alguns anos a abraçar ambos, o antigo e o moderno, o que só aconteceu quando senti que tinha raízes profundas no tradicional e queria dá-lo a conhecer de forma a que outras culturas o percebessem, ou seja, teria de o atualizar.

Com Luisa Amaro, a Marta será das raras mulheres guitarristas em Portugal. Atua num meio maioritariamente masculino. À Tara não lhe é permitido cantar a solo, em público, no país onde nasceu. Mera coincidência?

MPC: Eu acho que o destino se encarrega de nos por no sítio certo. Quando deixei de exercer Engenharia Civil para me dedicar à guitarra portuguesa, de repente, tudo se encaminhou e tudo aconteceu. Foi uma decisão muito arriscada, não sabia ao que ia, não tinha muita experiência a tocar guitarra; sabia que ia ter de me dedicar muito, ter muitas aulas… Mas felizmente apareceram muitos concertos que me fizeram crescer, apareceram muitas oportunidades e por isso eu acredito que quando nós tomamos decisões certas, o universo acaba por nos encaminhar. E neste caso, o Diogo foi a chave e a ligação de duas mulheres que lutam pelos seus sonhos.

A Tara emigrou para concretizar o seu sonho. Porquê Austrália?

TB: Bom, tens de emigrar para algum lado (risos!). Naquela altura, emigrar para a Austrália, enquanto arquiteta, era um caminho de certa forma facilitado, porque teria acesso imediato a visto de residente permanente. Tive sorte de não ter estudado música (a título universitário); se o tivesse feito, não teria conseguido emigrar para a Austrália. No Irão as mulheres não podem cantar profissionalmente. Lá vivemos uma espécie de vida dupla: a de dentro de casa e a de for a de casa. Por isso decidi ir embora. Quando me mudei para a Austrália, em 2012, eu não conhecia ninguém. Cheguei às três da manhã, sozinha, a Perth.

De todas as restrições impostas por Lei, quais são as que mais condicionam o dia a dia das mulheres iraniana?

TB: Para começar o uso obrigatório de hijab – deveríamos ter o direito de escolher o que vestir. A polícia pode sempre mandar-te parar na rua para saber quem é o rapaz que está ao teu lado, ou para dizer que o teu hijab não está bem. Podem entrar na tua festa, em casa, com música e dança, rapazes e raparigas… podem prender-te na tua própria festa, na tua própria casa.

O que se sente quando se nasce num país que não te defende?

TB: Feels like shit! Música é algo tão natural para o ser humano. É como dançar: como podes proibir alguém de dançar? É duro.

Alguma vez pensou em usar a sua música como arma política?

TB: Já é uma espécie de manifesto quando encontras uma maneira de fazeres o que tu queres fazer, sobretudo quando não to permitem. Não tem de ser muito literal.

A Marta dizia-nos, há pouco, que é difícil viver da música em Portugal. Como é na Austrália? A Tara vive da sua música.

TB: Eu tento viver da música, mas não é suficiente. Especialmente porque a minha música é de nicho; na verdade eu tive de criar o meu próprio mercado. Tive de chegar e dizer: ‘Esta sou eu. Ouçam isto!” (risos). O mercado é muito pequeno. Para incrementar os rendimentos também dou aulas de música (de canto), algumas até por skype!

Apesar de difícil, a Marta tem conseguido viver da sua arte…

MPC: Felizmente sim. Acho que viver da música, em Portugal, é muito complicado de uma forma geral, no entanto temos o mundo todo por descobrir e o Fado e a guitarra portuguesa são uma bandeira do nosso país. Nós podemos exportá-la e se a divulgarmos bem temos muito mercado. Ser instrumentista é mais difícil ainda do que ser fadista, do que ser uma voz. Especialmente cá, o público está muito habituado a concertos com voz e menos a concertos instrumentais. Mas lá fora há muitos festivais de música instrumental e é por aí que eu vou querer ir. Quero dar voz à guitarra. A ideia do disco foi mesmo a guitarra ser a voz, ser o elo de ligação de vários géneros musicais.

A ‘voz’ de uma guitarra feminina é muito diferente da de uma guitarra masculina?

MPC: Sim, tem um approach totalmente diferente. A nossa maneira de ser é diferente, a nossa sensibilidade é diferente, a forma como exprimimos as nossas emoções também é diferente. Eu queria tentar mostrar ao máximo estas diferenças, daí experimentar vários géneros musicais e ver como conseguiria interpretar cada um deles.

E sobre o que é que fala a ‘voz’ da sua guitarra?

MPC: É totalmente transparente. Fala aquilo que eu sinto, fala a minha paixão pela música, a minha sinceridade, a minha sensibilidade.

Aviso à navegação: quando ouvir Moon pela primeira vez, é possível que se emocione. Provavelmente não irá decifrar a letra, mas se fechar os olhos chegará a algures. E será certamente a um lugar muito bonito.

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