Aqui d’el rei! A masturbação é um tabu

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Por muito modernas que gostemos de nos considerar, por muito caminho que a sexualidade feminina já tenha palmilhado, a verdade é que, até não há muito tempo, qualquer prática sexual que não tivesse o fito da procriação era vista como uma forma máxima de luxúria ou, no limite, de aberração. Pouco a pouco, os tabus vão caindo, o Homem sonha, o mundo pula e avança, e nós, mulheres, vamos podendo, finalmente, viver a nossa sexualidade como nos apetece. Ou será que não?

Tal como muitas outras facetas da sexualidade humana, a masturbação é um tabu e uma barreira difícil de transpor e normalizar. Sobretudo, se a mão que embala o (nosso) berço for delicada e feminina, isto porque, aqui d’el rei!, nos proteja a todos do vislumbre do prazer de uma mulher. E isto é tanto mais ridículo conquanto é uma ideia partilhada por ambos os sexos. Os homens, porque têm uma sexualidade infantilizada; as mulheres, porque são educadas na culpa e no pecado. E assim ficam todas as outras mulheres, mais livres ou menos atreitas ao juízo alheio, mas, sobretudo, mais escrutinadas e alvo de crítica.

E esse julgamento nem sempre é direto, objetivo. Muitas vezes ele chega-nos da cultura popular que nos rodeia. Vejamos o cinema. Quem se lembra do filme ‘Jovem procura companheira’, do início dos anos 90, em que a personagem retratada como estranha passa a ter uma moral questionável quando é vista num momento masturbatório? Também no filme ‘Corpo de Delito’, a cantora Madonna, atriz principal, é representada como uma mulher fatal, amante de um homem muito rico que morre enquanto tem sexo com ela. A cena em que ela se masturba serve o propósito de mostrar o poder sexual daquela mulher, que pode até chegar a matar. Isto, sem esquecer o ‘Cisne Negr’, em que Nina se masturba como forma de aceder ao seu lado mais cru e sedutor, necessário para a performance no espetáculo. E claro, o clássico ‘Exorcista’, em que a cena onanista de Blair é a prova cabal que está possuída pelo Diabo.

Posto isto, e todo o jugo moral que existe no olhar dos outros, que mulher quer assumir que se masturba? É que a mensagem que recebemos é clara: a masturbação é perversa e as boas meninas não se tocam. E as que o fazem, quem sabe que outros desvios escondem aqueles corpos e mãos sem pudícia? O modo como se liga a moral ao auto-erotismo feminino reveste a masturbação de uma vergonha que ela não pode ter. Somos entupidas de mensagens subliminares truncadas em filmes, livros, músicas e uma série de registos de cultura popular, na qual o conforto que sentimos com o nosso corpo e na nossa sexualidade é visto como uma ofensa e uma afronta aos delicados valores masculinos.

41 anos depois da revolução que nos trouxe a liberdade, onde anda a independência sexual feminina? A que nos deixa livres para ser e fazer como quisermos, como nos sentirmos melhor, como melhor nos representa? Não falo de consentimento alheio. Felizmente, e apesar dos pesares, deste lado do mundo a vida não nos é tirada porque decidirmos masturbar-nos ou ter sexo casual. Falo da independência de cada uma de nós, mulheres, face ao que é esperado, isso sim, ainda do tempo da outra senhora. Falo de encontrar o nosso erotismo e não esperar que ele nos seja trazido por um parceiro. A ideia que está subjacente à masturbação é a de que nos permitimos ter prazer sem que isso implique a existência do outro. Que não é a mesma coisa que dizer que só as pessoas sem parceiro se masturbam.

É por isto que um dia destes alguém devia criar um movimento de mulheres sexualmente independentes, as que estão de si para si sem que isso implique uma rejeição dos outros e pelos outros. Quem se chega a frente?

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