Subir

O dia em que nasce uma Mãe

A maternidade, como a gravidez, é um estado de graça. Uma bênção pela qual grande parte das mulheres anseia. Talvez por essa razão sejam criadas grandes expectativas em torno deste acontecimento, todo um rol de ilusões à boa maneira dos contos de fadas, que muitas vezes se desvanecem (ou não) depois do parto, aquele grandioso momento em que nasce um bebé, e nasce também uma mãe. A hora H, em que a realidade se dá à luz. O encantamento surge, mas surgem também as dificuldades.

Por que razão temos tanta tendência a mistificar e idealizar o conceito da maternidade? Jorge Carrulo, Psicólogo Clínico, considera que nem sempre foi assim.

“Há 100 anos as expectativas culturais e sociais estavam diretamente ligadas à comunidade em que a mulher vivia, ao espaço físico. Com a massificação dos media verifica-se uma forte influência na criação das expectativas negativas através de qualquer post, vídeo, fotografia, sobre um bebé, um relacionamento mãe-bebé-companheiro-família, onde tudo é perfeito, sem falhas. A mãe entra num mecanismo de comparação constante e a impossibilidade de atingir estas expectativas irrealistas cria um conjunto de expectativas negativas. Mas nem tudo é mau, pois assim como as redes sociais têm influência nas expectativas negativas, têm, também, nas positivas.”

A maternidade começa, naturalmente, com a gravidez. “Quando os pais sabem que estão «grávidos», e esta gravidez foi desejada, existem sentimentos de plenitude, de omnipotência e de consagração do amor do casal. Nesta fase, as mães e os pais concebem o bebé na imaginação, nos sonhos, numa espécie de útero mental”, explica Jorge Carrulo. Catarina Barreleiro, 34 anos, casada, espera Alice que irá nascer em julho próximo.

“Enquanto futura mãe tenho medos e ansiedades. Há um misto de sentimentos, dúvidas e inseguranças. A bebé será normal, o parto correrá bem? Saberei cuidar dela quando vier para casa? Saberei educá-la?”, confessa.

Esperando contar com a ajuda do marido e pai da bebé, também ele “marinheiro de primeira viagem”. Jorge Carrulo confirma que “o apoio social, isto é, a perceção que a mãe tem do sistema de apoio que a circunda, o núcleo familiar e de amigos, os vizinhos e os serviços comunitários e sociais da sua área de residência” são fundamentais para a saúde mental e emocional da mãe, funcionando como uma “almofada” protetora.
Marília Tavares, 41 anos, casada, é mãe de João Afonso, de 11 anos. Decidiu ser mãe, segundo recorda, porque algo lhe dizia que “estava na hora”.

“Fiquei grávida «à primeira», mesmo depois do médico me ter dito que poderia demorar cerca de um ano, e por isso fui apanhada de surpresa. Quando fiz o teste, além de um sentimento de felicidade inexplicável, e de um medo na mesma proporção, lembro-me de pensar que, a partir daquele segundo, nunca mais deixaria de estar preocupada. E estava absolutamente certa.”

Jorge Carrulo indica que “o instinto de ser mãe está presente em todas as fases da vida da mulher, contribuindo no seu modo de ser, pensar e agir, fazendo parte da psicologia feminina”. No entanto, é claro que existem grandes diferenças entre as rotinas pré e pós maternidade, e essa gestão pode tornar-se complicada nos primeiros meses. Mafalda Galamas, 37 anos, casada e mãe de Bernardo, 3 anos e 10 meses, e Salvador, 1 ano, confessa que do que mais sente falta são dos “programas a dois, como jantar fora e ir ao cinema sem horas para regressar a casa, ou até passar fins de semana fora sem necessitar de um planeamento digno de emigrante.” O facto de ter deixado de ser dona do seu tempo influenciou todas as áreas da sua vida, e agora tudo é pensado em função dos filhos.

“As prioridades mudam, o que não constitui novidade. Já era expectável que ao trazer crianças ao mundo, tudo deixasse de girar à minha volta. Obviamente que é determinante que as mães não se anulem, porém, não há volta a dar, eles agora são a minha prioridade em tudo: segurança, saúde, financeiramente… Tudo passou a ser equacionado desta forma: isto é o melhor para eles?”.

Marília Tavares comprova: “Depois de ser mãe, já penso duas vezes quando há que ir a um congresso que ocupe um fim de semana. Já recusei um trabalho, por saber que teria de viajar ainda mais. Durante a semana, só faço exercício físico enquanto ele está nas suas atividades. Sempre que me é possível, fico a trabalhar em casa, para lhe poder dar mais apoio.”

Jorge Carrulo esclarece que, ao ser mãe, “a mulher precisa de reorganizar a sua vida pessoal, familiar e profissional para voltar-se exclusivamente, nos primeiros meses, aos cuidados do bebé, alterando os seus investimentos emocionais, a organização em relação ao tempo. Conforme o bebé vai crescendo, as mães podem voltar aos seus passatempos e resgatar as atividades preferidas.” Não deve a mãe, no entanto, esquecer-se de si, enquanto mulher. “Um dos maiores pediatras e psicanalistas do mundo, Donald Winnicott, refere que é necessário haver um corte na relação fusional e deixar que haja um desenvolvimento individual, tanto da mãe como do bebé. Uma das formas de lidar com a anulação é deixar que os companheiros participem e tenham uma voz ativa no cuidado físico, emocional e psíquico do bebé. Outra é reinvestir na relação conjugal. As amizades e as atividades sociais não devem ser descuradas, os encontros com os amigos podem eventualmente ser realizados em casa. O exercício físico é outra forma de lidar com a relação fusional, permitindo a libertação de endorfinas, aumentando a sensação de bem-estar, humor, concentração e diminuindo a ansiedade.”
É já sabido: a maternidade traz para muitas mães um constante questionar das suas capacidades enquanto progenitoras, um eterno sentimento de culpa. Marília Tavares conhece-o bem.

“Sentimos culpa porque trabalhamos até tarde e não estamos a horas do banho. Sentimos culpa porque temos que viajar em trabalho e faltámos à reunião da escola. Sentimos culpa porque não temos tempo para fazer bolos para o lanche, como a nossa mãe fazia. Sentimos culpa porque ele caiu e nós tínhamos ido ao cabeleireiro. Sentimos culpa porque não temos paciência para rebolar no chão ao final do dia e há que fazer o jantar. Sentimos culpa. Ponto.”

Jorge Carrulo considera isto algo normal. “O estado de preocupação materna garante à mãe a sua identificação com o filho, facilitando a sua compreensão e o acompanhar das necessidades do seu bebé. Por isso, o questionar constantemente a capacidade materna e de serem boas mães é algo esperado, desejado e saudável.”
No “produto acabado”, Marília e Mafalda são unânimes. “O amor incondicional sem qualquer espera de retorno, um amor puro e sem segundas intenções”, de acordo com Mafalda, é a maior recompensa da maternidade. Marília acrescenta ainda: “Vê-lo ser um rapazinho responsável, bom aluno, carinhoso, amigo dos seus amigos, respeitador dos avós. E fomos nós pais, que lhe passámos isso.” E finaliza: “Vale muito a pena. Mesmo naqueles dias em que só apetece desaparecer. Quando eles fazem birras no meio do supermercado, ou xixi pelas pernas abaixo na festa do chefe. Vale a pena.”

Carmen Saraiva