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Retrato setecentista de Frei Fonseca Évora terá sido executado por uma mulher

A professora de História da Arte e investigadora Teresa Vale defende que um retrato de Frei Fonseca Évora (1690-1752) terá sido executado na década de trinta do século XVIII por uma das mais importantes artistas italianas da época.

O pequeno retrato oitocentista de Frei Fonseca Évora, pintado sobre marfim, – uma miniatura – é a obra que o Museu de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, pretende adquirir, por 10 mil euros, através de uma nova campanha pública de recolha de donativos lançada em 2016, e que ultrapassou na semana passada os seis mil euros.

Contactada pela agência Lusa, Teresa Vale, convidada pelo MNAA a fazer uma investigação sobre a peça, indicou que começou o trabalho “a partir do zero”, porque o retrato não está assinado, nem existe qualquer documentação sobre a obra.

“Sabíamos apenas que deverá ter sido executado na primeira metade do século XVIII, em Roma, quando Frei Fonseca Évora está em Roma como embaixador do rei D. João V”, referiu, indicando que, dada a falta de informação, investigou o contexto histórico em que foi produzido.

Num verdadeiro trabalho de “detetive”, a investigadora procurou os artistas que, em Roma, no século XVIII, faziam retratos em miniatura e encontrou dois que “serão os mais plausíveis”: Giovanni Ramelli (1666-1740), miniaturista, conservador e restaurador de miniaturas do Vaticano, e uma sua discípula, Maria Felice Tibaldi (1707-1770), que trabalhava sobretudo sobre marfim.

“Ambos estavam ativos em Roma, nesta época, e qualquer um deles poderia ter sido o autor do retrato. Considero que Maria Tibaldi é a mais provável devido a um elemento do contexto familiar”, sustentou.

Teresa Vale descobriu que Maria Tibaldi tinha sete irmãs, e uma delas foi casada com Giuseppe Zarlatti, governante da casa de Fonseca Évora, “que terá sido o elo de ligação para uma encomenda ou uma oferta desta miniatura”.

A investigadora ressalva que não pode garantir esta autoria, mas é, na sua opinião, a mais plausível.

O retratado, Frei José Maria da Fonseca Évora, nascido no Porto, foi um destacado franciscano do seu tempo, embaixador de Portugal no Vaticano, agente artístico, colecionador, mecenas e bispo da cidade natal.

No quadro, o embaixador português surge vestido com o hábito franciscano, que usou desde o momento em que professou, em 1712, até ser nomeado bispo do Porto, em 1740.

Atrás do frei, sentado, há um cenário de estantes com livros que fazem alusão à biblioteca do convento onde viveu, em Roma, e que ficou conhecida como Biblioteca Eborense.

“A observação analítica da obra ajuda a datar, a definir as balizas cronológicas, e depois a grande questão foi descobrir o autor”, comentou a professora do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, e a especialista do país que mais sabe sobre a vida de Frei Fonseca Évora.

Sobre a importância da aquisição da peça para o acervo do MNAA, Teresa Vale defende que é “fundamental”, porque “retrata um português que teve um papel fundamental no contexto europeu do século XVIII”.

Os resultados das recentes investigações de Teresa Vale foram hoje apresentadas no MNAA, numa conferência sobre a peça, que surgiu à venda no mercado internacional e foi adquirida por um particular que propôs, por seu turno, vendê-la ao MNAA.

A campanha pública de angariação para a compra do quadro prolonga-se até 30 de maio de 2017, podendo os contributos ser feitos em dinheiro, no museu, ou por transferência bancária.

Trata-se da segunda campanha pública de angariação de fundos realizada pelo MNAA para a aquisição de uma obra de arte, após a lançada em outubro do ano passado – intitulada “Vamos pôr o Sequeira no Lugar Certo” – para adquirir a obra de Domingos Sequeira “A Adoração dos Magos”, por 600 mil euros.

Lusa