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Tuberculose diminui em Portugal, BCG não evita o contágio

Em Portugal, a tuberculose “está a reduzir de forma consistente” a sua incidência, ainda que seja o país da Europa com a mais elevada taxa da doença: 20 pessoas por cada 100 mil habitantes. Em termos concretos, os dados provisórios relativamente a 2015 apontam para 2089 casos, dos quais 1925 são novos (com uma taxa de notificação de 18,6%). Estes são os resultados apresentados esta quinta-feira, 24, dia Mundial da Tuberculose, pela Direção-Geral de Saúde.

A taxa de incidência da tuberculose registada no ano passado – sendo quatro vezes superior no caso das populações imigrantes – pode ser explicada pelo facto de Portugal ter no passado aumentado a prevalência da doenças quando os outros países da Europa estavam já a registar descidas. Esta é uma razão apontada por Raquel Duarte, coordenadora do Programa Nacional de Combate à Tuberculose, que também lembra, referindo-se aos anos 70: “não sabemos qual foi o peso da nossa população vinda de África nesse aumento da tuberculose registado nessa fase. Partimos de uma incidência muito acima dos restantes países da Europa ocidental”.

Mas, apesar da “boa notícia” em torno do decréscimo, a coordenadora defende que há muito por fazer.

“Diminuir a demora entre sintomas e diagnóstico (que se mantém nos 104 dias), fazer o diagnóstico precoce e os tratamentos até ao fim e rastear os contactos de modo a detetar os infetados” são algumas das medidas que defende para baixar a prevalência da doença. Mas há mais.

“Os clínicos têm de sair das quatros paredes, têm de trabalhar com a comunidade, articular-se com as entidades” que trabalham com os grupos mais vulneráveis, sustenta a responsável. É ainda importante voltar a colocar a doença no cenário de diagnósticos possíveis quando se está perante um indivíduo que tenha tosse, expetoração, suor e emagrecimento”, lembra.

De acordo com os dados provisórios de 2015, Lisboa e Porto continuam a ser dois centros de “concentração da tuberculose”, mas a média de idades de incidência está a aumentar, situando-se nos 35-44 anos no caso das mulheres e 45-54 anos no sexo masculino.

As prioridades estão concentradas na população considerada vulnerável. As dependências de álcool, droga, a reclusão, os sem-abrigo e as residências comunitárias continuam a ser fatores de risco a ter em linha de conta na hora de olhar para a doença, cuja taxa de sucesso terapêutico parece ter decrescido para os 85% (face a 86% em 2014). O abandono do tratamento é alto naqueles grupos de risco, mas também importante lembrar que a falta de acesso geográfico a estruturas que prestem cuidados de saúde estão também na base deste aumento.

“Temos melhores resultados nesta matéria no que diz respeito à tuberculose multirresistente”, afirma Raquel Duarte, que explica: “Nos centros de referência há equipas especializadas enquanto nos outros sítios há instabilidade”, refere.

Sem vacina, pode esperar-se um decréscimo de incidência da doença na ordem dos 5% ao ano. Mas se ela existisse, essa taxa poderia caminhar para uma redução ao nível dos 17% anuais. Como explica Raquel Duarte, “nesta altura não temos nenhuma vacina que permita evitar que o indivíduo fique infetado. Temos um esquema preventivo de 60 a 90%, mas não evita a doença”.

No que diz respeito à prevenção em bebés, a coordenadora lembra ainda que não será a BCG – que esteve em falta em Portugal entre maio de 2015 e janeiro de 2016 e que é agora dada a crianças recém-nascidas que vivem em zonas ou situações familiares de risco – a fazer alterar este cenário, no futuro:

“A BCG como vacina não evita que o indivíduo exposto fique infetado e que individuo infetado fique doente. A única coisa que evita é que se a criança, até aos dois anos, estiver doente evita a que tenha formas graves da doença. Não tem impacto no futuro”.

CB