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Como a alimentação saudável salvou a vida de uma mulher

Como a alimentação saudável salvou a vida de Ella Woodward

Gostava que os vegetais tivessem o mesmo protagonismo no prato que a carne ou o peixe. Um protagonismo que conquistaram à mesa dela, por força de um problema de saúde que lhe virou a vida do avesso e a levou a mudar radicalmente a forma de comer. Conseguiu vencer uma doença que a medicina dizia ser para toda a vida e, aos 23 anos, a britânica Ella Woodward tem mais de 80 mil subscritores no seu blogue (‘Deliciously Ella’), mais de 85 mil seguidores no Twitter e quase 200 mil likes no Facebook. E tudo porque é o exemplo de que somos, de facto, o que comemos.

“As pessoas estão cansadas de não se sentirem bem e querem fazer alguma coisa para mudar.”

Foi imediata a decisão de mudar a forma de comer logo após ter-lhe sido diagnosticada uma doença rara (síndrome de taquicardia postural)?
Não. Estive seis meses a tomar medicamentos, a fazer tratamentos e coisas do género e percebi que aquilo não estava a resultar. Foi então que decidi começar à procura de alternativas e deparei-me com exemplos de pessoas que tinham tido vários tipos de doenças e que tinham usado a alimentação para as controlar. Essa foi a minha inspiração.

Foi uma mudança radical?
Foi, sim. E não foi nada fácil. Aliás, não é algo que aconselhe a ninguém. No meu caso, estava desesperada, tinha passado quase um ano doente e por isso apostei no tudo ou nada. Mas mudar a forma de vida dessa forma não é necessariamente a atitude mais esperta.

Como reagiu o seu corpo? Foi imediata a mudança?
Não e nunca é. Estava tão doente que era incapaz de atravessar uma rua, cansava-me constantemente e passava a maior parte do tempo deitada. Por isso, nunca seria imediato. Levou cerca de 18 meses até deixar a medicação. Foi um processo longo.

O que é que deixou de comer?
Não gosto de me focar nas coisas de uma forma negativa. Por isso, não foi tanto o que deixei de fazer ou deixei de comer, mas o que passei a comer. Comecei a apostar em coisas mais naturais, produtos sem açúcar refinado, mais fruta, vegetais. É muito mais saudável fazê-lo dessa forma em vez de criar uma lista de coisas que não se pode comer.

Mas houve coisas que deixou de comer. Não sentiu falta de nada?
Claro que senti. Era muito gulosa e passei a ter desejo de gomas, de chocolates, que me estavam a deixar louca. Mas assim que substitui o que comia por outros doces, deixei de ter estes desejos. É muito melhor comer um brownie de batata-doce e ser feliz do que querer roubar a barra de chocolate dos amigos. Por isso, continuo a consumir açúcares, mas naturais. Acho que é muito importante para a saúde que nos sintamos bem e felizes. Porque não juntar um pouco de mel às papas de aveia, se isso nos sabe bem? Se precisa de algo doce, então coma algo doce, mas mais saudável. Ninguém espera que as pessoas sejam perfeitas e que apenas comam coisas verdes. Isso nunca vai acontecer.

Hoje não tem sintomas. Os médicos ficaram surpreendidos com este facto, tendo em conta que a doença que lhe foi diagnosticada é considerada uma doença crónica, sem cura?
Sim, completamente. Não é coisa que costume acontecer.

E acha que a ciência, a medicina, a sociedade em geral valorizam essas mudanças que podemos fazer e que têm reflexo na nossa saúde?
Sim, penso que sim. Acho que há um movimento crescente, muita informação, muitos estudos, que mostram às pessoas que efeitos tem a forma como cuidamos de nós.

Costumava cozinhar antes de adoecer?
Não, de todo. Não era algo que me interessasse. Depois comecei a fazê-lo, mas não foi preciso tirar cursos ou ler livros. O grande problema é que as pessoas têm medo, pensam que não são boas na cozinha, mas todos podemos ser bons cozinheiros. É tudo uma questão de confiança para experimentar. Depois logo se vê o que acontece

Mudou radicalmente a forma de comer e isso melhorou muito a sua vida. Acha que toda a gente devia fazer esse exercício de mudança?
As pessoas querem mudar e os números mostram que estão cada vez mais atentas ao que comem, à forma como tratam os seus corpos. Estão cansadas de não se sentirem bem e querem fazer alguma coisa para mudar.

No seu caso, as mudanças ficaram-se pela alimentação ou foram além dela?
No início sim, mudou apenas o que comia. Mas à medida que o ia fazendo, percebi que a mudança vai para além da comida. Podemos comer muito bem, comer muitos vegetais, mas eles só conseguem fazer uma parte. Se continuo muito stressada, se não faço exercício, se não estou feliz, isso não vai ajudar o meu corpo. Para mim, o importante é o todo e é tudo uma questão de equilíbrio. Ou seja, quando falo sobre comer de forma saudável, isso não significa fazer dieta, não significa restrições, privações, mas fazer coisas que nos fazem sentir bem.

Escreveu o livro ‘As Delícias de Ella’, com receitas saudáveis. Tem alguma preferida?
Não é fácil escolher, mas há coisas às quais volto sempre, como o caril de legumes. E podemos convidar amigos e apresentar-lhes esta receita sem necessariamente reforçar a ideia de que é saudável. É diferente de uma salada de couve porque é caril, tem sabor, tem arroz. Mas o mais importante para mim é que estas receitas sejam fácies de fazer. Tudo o que faço tem que ser simples e rápido, porque há pessoas que gostam de passar muito tempo na cozinha, mas há outras que até gostam de cozinhar, mas chegam tarde a casa, têm os filhos e uma série de coisas para tratar e quando não se tem assim tanto tempo há que optar por coisas fáceis.

Podemos adaptar as receitas e introduzir, por exemplo, o açúcar?
Sim, claro. Devemos fazer as coisas à nossa maneira e incorporá-las na nossa vida. Podemos adaptar, mudar, juntar galinha, juntar ovos… Tradicionalmente, os pratos são pensados à volta de um pedaço de carne ou peixe, sendo os vegetais apenas um acompanhamento ao qual não é dada igual atenção. E eu concordo que se me derem um prato de brócolos cozidos não os vou achar nada interessantes. Mas se os saltearmos com alho, chili, azeite, tornam-se deliciosos. O importante é mostrar às pessoas que se dedicarem aos vegetais tanta atenção como dedicam à carne, eles podem ter um sabor fantástico e passar a ocupar o meio do prato em vez de estarem sempre ao lado.

Carla Marina Mendes