Dá prazer fazer coisas sozinha

Dá prazer fazer as coisas sozinha

Um estudo norte-americano diz que podemos divertir-nos sozinhos muito mais do que imaginamos.

Se vivemos cada vez mais em casas só para um, por que é que não podemos ir jantar ou beber um copo connosco próprios? Helena Pinto Marina, de 35 anos, vai ao cinema três ou quatro vezes por semana. Escolhe sempre a primeira sessão da tarde em que, como ela, é rara a pessoa que vai acompanhada. “Já perdi a conta aos amigos que dizem que não viram este ou aquele filme por não terem companhia. Há uma pressão enorme para não se fazer nada sozinha, como se isso fosse sinónimo de solidão.” No seu caso, o cinema é a área que estudou, em que trabalha e é a sua paixão. “É uma arte solitária, em que sou eu, o filme e isso basta.” Um ser humano talentoso, acredita ela, é o que aprende a estar sozinho sem precisar de fingir que está ocupado. “Tem tudo que ver com autoconfiança. Saber estar e apreciar as coisas sem precisar da confirmação de alguém.”

As universidades norte-americanas de Georgetown e Maryland divulgaram um estudo recente em que se concluía que as pessoas evitam sair sozinhas por pensarem que podem parecer antissociais. Mas os que o fazem acabam por se divertir muito mais do que esperavam.

Rebecca Hamilton, uma das investigadoras, explicou ao ‘Washington Post’ que há uma desadequação de expetativas: “As pessoas subestimam de forma muito consistente quanto podem divertir-se se forem sem companhia ao cinema, ao teatro, a um museu – ou até jantar e viajar sozinhas.” As conclusões foram obtidas através de cinco experiências sociais. Em quatro delas foram feitos inquéritos para perceber que atividades preferiam os entrevistados fazer sozinhos ou acompanhados. Na quinta, os investigadores tentaram medir se um grupo de indivíduos retirava mais prazer da visita a uma galeria de arte estando, ou não, com alguém a seu lado. “A conclusão é que os níveis de prazer são semelhantes, mas quem ia sozinho esperava que a experiência não fosse tão boa”, explicou Rebecca Ratner, outra das investigadoras.

Sozinha em casa

“A verdade é que estamos todos a perder um grande pedaço de prazer nas nossas vidas pelo medo de que os outros pensem que somos uns falhados.” Não deixa de ser surpreendente que assim seja. Afinal, nos últimos anos, a vida faz-se cada vez mais a um. Segundo a Pordata, o número de pessoas que vivem sozinhas em Portugal subiu de 520 mil para 851 mil nos últimos 15 anos. Ou seja, é um aumento de 63,1 por cento em década e meia. Por outro lado, o número de casamentos reduziu de 68 410 para 31 478 no mesmo intervalo de tempo, o que significa uma variação negativa de 53,9 por cento.

Estamos menos acompanhados. Mas ainda não sabemos lidar muito bem com isso. Petra Sauer é diretora-geral da Fortaleza do Guincho, um dos mais luxuosos hotéis do país. O edifício acolhe também um restaurante com uma estrela Michelin, que desde agosto é liderado pelo chef Miguel Rocha Vieira. “No hotel temos alguns hóspedes que chegam sozinhos, sobretudo médicos que trabalham em organizações internacionais, em zonas de conflito ou de grande pobreza, e precisam de alguns dias em frente ao mar para pôr a cabeça em ordem. Mas no restaurante não aparece literalmente ninguém para jantar sozinho.”

País sofre da síndrome de esplanada

Pode até haver alguns restaurantes em Lisboa e no Porto com grandes mesas comunitárias, em que pessoas que não se conhecem se sentam à mesma mesa e partilham uma refeição. Mas por cá ainda não há nada como o Eenmaal de Amesterdão. Em tradução livre o nome do estabelecimento significa jantar para um e, segundo a agência criativa holandesa que o criou, é “o sítio perfeito para jantar em prazenteira solidão”. Mas será que uma ideia destas funcionaria num país latino. Helena Pinto Marina, a cinéfila, diz que o país sofre da síndrome de esplanada: “Tem de se comer, beber e ainda ler um livro, fumar um cigarro ou falar ao telefone. Quantas pessoas são capazes de apenas estar consigo próprias numa esplanada?”

Anabela Fonseca, que é proprietária de uma agência de viagens no Parque das Nações, a Click Viaja, diz que há mais pessoas a viajar sozinhas. “Mas a grande maioria não o faz por opção, fálo por não ter companhia. Há gente mais velha que tenta integrar-se em excursões e há cada vez mais programas temáticos, como os cruzeiros desportivos, ou para solteiros.” Quem quer realmente fazer-se à estrada sem companhia opta normalmente por destinos de aventura – Ásia e América do Sul. “São pessoas que partem muitas vezes sozinhas para fazer de facto viagens pessoais, interiores.”

E essas são capazes de se divertir bastante, segundo o estudo das universidades de Maryland e Georgetown. “O que é preciso é criar uma nova tendência “, diz Rebecca Ratner. “Já chega deste estigma de fazer as coisas sozinho em público. Porque fazê-lo não só é arrojado como pode ser muito cool.”

Por Ricardo J. Rodrigues, publicado originalmente na NM

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