“Não vim para pregar. Não sou mais do que os outros”

Mafalda Ribeiro conversou com Daniel Oliveira, no ‘Alta Definição’ da SIC, sobre os desafios e dificuldades de viver com osteogénese imperfeita, deficiência também conhecida com ‘ossos de vidro’. Com 92 centímetros de altura e fisicamente confinada à cadeira de rodas, Mafalda revelou que a condição não moldou a sua personalidade: “Não vim para pregar. Não sou mais do que os outros. [A minha maneira de ser] não tem nada a ver com a deficiência, é caráter.”

Frequentemente convidada para palestras, e autora do livro ‘Mafaldisses’, a antiga jornalista vê a inclusão e igualdade como a sua causa maior, denunciando as dificuldades de mobilidade que enfrenta todos os dias. Ainda assim, não deixa que a cadeira seja uma prisão: “Não sou autónoma mas sou extremamente livre, não tenho vergonha nem problemas em pedir ajuda.”

“A sua filha vai morrer dentro de algumas horas”, recordou Mafalda em entrevista a Daniel Oliveira

A história de Mafalda, com 32 anos, começou ainda na barriga da mãe, pois antes de nascer já tinha duas pernas e uma clavícula fraturada. “A sua filha vai morrer dentro de algumas horas”, recordou Mafalda o que os médicos tinham dito ao seu pai. Tal era o seu estado agravado que propuseram ao pai de Mafalda que esta fosse trocada por outra bebé, que havia sido abandonada no hospital. “Como não se avizinhava uma vida fácil para mim, podiam trocar-me por outro bebé. Era parecida comigo, com cabelo escuro e pele clara. E o meu pai não precisava de se preocupar com nada que o hospital cuidava de tudo”, confidenciou Mafalda a Daniel Oliveira.

O longo período no hospital só terminou com um termo de responsabilidade assinado pelo pai, dado o aconselhamento médico para não levar Mafalda para casa. A autora, que nunca escondeu a sua crença em Deus, recordou que logo nos primeiros meses de vida lhe foi dada a extrema-unção e que pediram ao pai fotografias para a campa. “Estou despachadíssima desde que nasci”, brincou.

“Nunca me senti verdadeiramente deficiente, a cadeira é mais do que eu. Ficou muitas vezes à porta, eu nunca fiquei”

Depois de uma infância de luta vencida com a vontade incessante de viver, Mafalda, apesar de ter dores todos os dias, diz que não tem vergonha do corpo que tem. “Tive de o conhecer e habituar-me a viver com ele”. “Nunca me senti verdadeiramente deficiente, a cadeira é mais do que eu. Ficou muitas vezes à porta, eu nunca fiquei”, revelou.

Mafalda abordou ainda o aspeto mais difícil da sua vida, que é evidenciado pelos comentários de desconhecidos. “Os outros julgarem-me é a coisa mais difícil com que tive de lidar. Dizerem ‘tadinha, mais valia que Deus a levasse’ sem saberem nada da minha vida, se era feliz ou infeliz.”

A lisboeta de 32 anos deixou uma mensagem positiva e colocou as dores para segundo plano, até porque “há uma diferença entre ter dor e viver na dor”. “Eu posso controlar a forma como lido com ela, não vou passar o dia inteiro a queixar-me”, terminou.

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