E se Lisboa tiver carruagens só para mulheres?

“A forma de mandar uma mensagem clara à sociedade para dizer que não queremos ser apalpadas nos transportes públicos e que queremos ser respeitadas passa por criar zonas específicas para as mulheres no metro ou nos autocarros”. A proposta é de Joana Amaral Dias, candidata pela Nós, Cidadãos! à Câmara Municipal de Lisboa e foi apresentada durante o debate “Mulheres, raparigas e a cidade: o direito ao espaço público em Lisboa”.

Estava lançada, então, uma das polémicas deste encontro que durou quase três horas e que teve lugar na Casa do Brasil, esta quinta-feira, dia 21 de setembro.

Isso é voltar ao Apartheid”, reagiu Inês Sousa Real, candidata pelo partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), que apontou a “educação para a cidadania” como o melhor caminho para o combate a este assédio.

“Inconcebível”, reagiu Helena Roseta, candidata independente do PS à Assembleia Municipal.

“No momento em que as mulheres deixaram de estar segregadas dentro de casa, não podem estar a ser segregadas no espaço público”, vincou Margarida Saavedra, candidata pela lista do PSD.

Ana Margarida Carvalho, candidata à AML da CDU, também considerou a proposta “inadmissível” já que “uma mulher não pode deixar de andar de transportes públicos por causa disto”. “É que o espaço público tem de ser vivido por todos”, completou Isabel Pires, do Bloco de Esquerda.

Joana Amaral Dias defendeu-se, garantindo que as mulheres só iriam para lá “se quisessem e para não se sentirem ameaçadas”, não era obrigatório e elencou outros exemplos em que a divisão de género “existe e está mal feita”: “por que é que há as casas de banho de mulheres, crianças e deficientes e depois há a dos homens? Ou porque é que existe a segregação nos desportos de alta competição?”.


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O debate foi organizado pela Associação Mulheres sem Fronteiras e a Mulheres na Arquitetura e reuniu candidatos à Câmara Municipal e a Assembleia Municipal da principal autarquia do país. Entre os presentes estiveram também Carlos Teixeira, da Lista Lisboa Sim! e Luís Júdice, candidato pelo PCTP/MRPP. Assunção Cristas, nem ninguém da sua lista do CDS-PP, esteve presente neste encontro – para o qual todas as candidaturas foram convidadas à exceção do PNR – em que a videovigilância foi outro dos temas polémicos que fez subir a temperatura do debate.

Tudo isto a par de medidas como mais iluminação nas ruas e nas paragens, transportes mais frequentes e menos lotados, guardas-noturnos em bairros, mais estacionamento, creches nos locais de trabalho e não só, mais mulheres nas esquadras e nos bombeiros e a desertificação da cidade.

Vídeoproteção: Segurança vs Big Brother

Carlos Teixeira, candidato pela Lisboa Sim!, crê que a segurança das mulheres ficará mais assegurada se houver “videoproteção”, distinguindo-a de “videovigilância”. “É a forma mais eficaz de garantir essa mesma segurança”, sobretudo em locais em que “há pouca iluminação”, condições que favorecem quem quer “prevaricar”.

Considera assim que a medida não porá em causa a privacidade porque o “uso das imagens terá de ser feito com critérios e só podem ser usadas em circunstâncias muito específicas”, afirmou o candidato.

“Repúdio” reage Luís Júdice. O candidato do PCTP/MRPP considera que “a medida é conjuntural”, “não resolve o problema” e permite “outro tipo de práticas”, considerando que esta “pontencia o Big Brother” e significa um retrocesso no tempo, num regresso ao fascismo. Para a candidata da CDU, só a “ingenuidade” é que pode permitir a promoção de uma proposta desta natureza.

“Chamar vídeoproteção à videovigilância é enganar as pessoas. Usar a videovigilância como método? Não acredito que seja solução. A seguir à vigilância vem a repressão”, apontou Isabel Pires, que propôs em Assembleia Municipal medidas como a melhoria da iluminação noturna e do funcionamento dos transportes públicos.

Margarida Saavedra tem outra proposta e passa por devolver os “guardas-noturnos aos bairros“. Apesar de não garantir a “eficácia total”, “a falta deles representou exatamente a perda da segurança”. Ao Delas.pt, a candidata do PSD não revelou os custos de uma medida desta natureza aplicada a Lisboa, mas acredita que “esse ónus devesse partilhado com as Juntas de Freguesia”, sobretudo em zonas mais empobrecidas.

Transportes: a medida de todos, mas sem as contas feitas

Todos os candidatos apontaram deficiências à quantidade, qualidade e extensão dos serviços de transportes que servem a cidade e os arredores, mas não foram apresentadas medidas monetizadas nesse sentido.

Na verdade, há alguma unanimidade ao reconhecer que as mulheres quem mais os usa fora de horas, por via dos turnos e mais viagens fazem na cidade para irem buscar os filhos, ir às compras ou outras atividades. Por existirem menos, são elas que mais viajam em espaços cheios de gente, o que permite situações de vulnerabilidade física para elas.

Helena Roseta considerou, inclusivamente, que “a questão dos transportes é de fundo e só se resolve quando as autarquias começaram a trabalhar em conjunto, com competência nesta matéria”.A candidata independente à AML, pela lista do PS, fala em formação dos motoristas em vários campos “como a igualdade e a sensibilização”, mas não crê que possam ser eles – nem uma segunda pessoa nos autocarros, como antigamente, – a solução absoluta. Afinal, afirma: “não creio que possam ser eles e pôr fim a uma situação de violência que decorra dentro do autocarro”.

Recorde-se que as eleições autárquicas decorrem a 1 de outubro e concorrem à autarquia de Lisboa Assunção Cristas (CDS-PP/MPT/PPM), João Ferreira (CDU), Ricardo Robles (BE), Teresa Leal Coelho (PSD), o atual presidente, Fernando Medina (PS), Inês Sousa Real (PAN), Joana Amaral Dias (Nós, Cidadãos!), Carlos Teixeira (PDR/JPP), António Arruda (PURP), José Pinto-Coelho (PNR), Amândio Madaleno (PTP) e Luís Júdice (PCTP-MRPP).

 

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