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F%d#r não tem género, é um verbo

Para Charles Bukowsky, poeta e romancista, é absurdo que a palavra f%d*r arme tanta confusão. Se procurarmos o significado da palavra, p. ex., no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, verificamos tratar-se de um verbo transitivo e intransitivo (do latim futuo, -ere, ter relações com uma mulher); ter relações sexuais. Ao que parece, em latim (a origem da palavra), a ação cinge-se a ter relações com uma mulher. Ou seja, uma leitura clássica unilateral do sexo, onde macho cobre a fêmea. Como se o falo, em exclusivo, desse uso ao verbo em questão. Será que a biologia ainda tem assim tanta relevância na atração sexual? O instinto de procriação animal não está praticamente aniquilado pela busca do prazer?

Não há nada de natural no desejo
Segundo o filósofo contemporâneo, Slavoj Žižek, não há nada espontâneo, nada natural no desejo humano. Os nossos desejos são artificiais. Devemos ser “ensinados” a desejar. O cinema é, por isso, a arte pervertida por excelência, não nos dá aquilo que desejamos, mas ensina-nos como desejar. Esloveno Žižek coloca uma questão: o gozo de um descafeinado não é o real gozo do café, mas da sua imitação? Querer beber um café, sem cafeína, é destituir a coisa da sua essência. Logo, torná-la apenas em forma.

Da mesma forma, na questão do género se o destituirmos da sua força orgástica, torná-lo-emos no equivalente a um descafeinado; um semblante do gozo, não no seu real, uma imitação. Assim, é necessário esclarecer o que é género e o que é orientação sexual; género – masculino, feminino, ou alguma coisa no meio. Orientação sexual – que género se quer f%d*r. No fundo, o importante é descobrir a diferença entre a sombra e a essência do desejo, que é individual e não padronizável; e tentar seguir o seu curso, uno e irrepetível.

A mulher f%d* como o homem?
Simone de Beauvoir afirmou numa das suas mais célebres frases da obra ‘O Segundo Sexo’, não se nasce mulher, tornamo-nos mulheres; e abriu, de certa forma, caminho para as questões do género, tão debatidas na atualidade. Quando foi publicado o livro ‘Gender Trouble’ de Judith Butler em 1990, este entrou em conflito com algumas formas dominantes do feminismo. Segundo Butler, sempre que se falava de “mulheres assumia-se que elas se definiam pela relação com a reprodução ou o casamento, e o pressuposto era o de que ambos requeriam a heterossexualidade. Ou seja, a importância do prazer continuava estigmatizada pela sociedade que construiu o paradigma sexual da mulher (o género e a orientação sexual).

Na atualidade, discute-se se “mulheres” se refere apenas a quem coube essa designação por nascimento, ou se pode ou deve incluir quem, em determinada altura da sua vida, assume essa designação. Durante muito tempo, era socialmente inconcebível para uma mulher reconhecer o seu gosto pelo prazer sexual; se não o ligasse de alguma forma ao afeto. Ainda hoje, estamos longe de fugir à normatização da heterossexualidade; e o pudor continua a deitar-se na cama, do lado da fêmea. A mulher fode como um ser humano, bem e mal (ou como pode), independentemente da orientação sexual.

A sexualidade é plástica?
Segundo a filósofa espanhola Beatriz Preciado, a sexualidade não surgiu naturalmente. A sexualidade humana, não é uma prática biológica sem o lado cultural e, portanto, é uma prática que muda ao longo da história. Está sujeita a mutações e a críticas. Para Preciado, a ideia de sexualidade plástica surge da possibilidade de ser alterada, poder sofrer mutações e podermos ter sexualidades distintas ao longo da vida. Para a filósofa espanhola, parece-lhe inviável acreditar que se nasce com uma sexualidade estanque: heterossexual, homossexual e bissexual; esse é apenas o modelo da medicina psicopatológica dos anos 40 em que cada um tem de um identidade sexual imutável; o que acontecia é que caso a pessoa sentisse alteração, deveria pedir ajuda psicológica.

No entender de Preciado, a sexualidade é aberta e encontra-se em constante mutação. O certo é que ainda vivemos sobre normas sociais rígidas e essa plasticidade, a existir, é constantemente castrada. A mulher tem as mesmas capacidades para f%d*r que o homem. Não é a biologia que condiciona a ação verbal da carne contra carne. Importante é não ser simulacro do gozo; quer-se o pleonasmo real – café com cafeína, sexo com humidade.

Cláudia Lucas Chéu