João Rolo: “Gosto de me reinventar e tento que esse desejo se reflita nas peças que crio”

O costureiro João Rolo é um dos mais importantes nomes da moda portuguesa, no que toca a moda para noivas. A linha de casamentos é uma das mais requisitadas do seu atelier, o que levou o costureiro a apresentar, fez agora um ano no Palácio Foz, em Lisboa, uma coleção unicamente composta por vestidos de noiva. Estudou Engenharia têxtil e o gosto pela profissão levou-o a querer aperfeiçoar a técnica de alta-costura trabalhando com alguns profissionais do setor dentro e fora de Portugal.

Ao longo de 31 anos de profissão teve alguns espaços comerciais, estando atualmente na Rua Rodrigues Sampaio, onde expõe os diferentes universos da marca: pronto-a-vestir, atelier, alta costura. Desde 2015 que decidiu apostar na internacionalização, sendo presença assídua em alguns dos mais importantes eventos de moda e lazer no Mónaco e Cannes.

Portugal é um país que continua a valorizar o ritual do casamento, uma celebração está muito associada ao mês de maio. No ano passado, fez um desfile inteiramente dedicado aos vestidos de casamento. O que o leva a ter um foco tão grande nesta área?
O casamento continua a significar o encantamento, o momento de sonho associado às histórias de príncipes e princesas. Mesmo que a frase: “foram felizes para sempre”, seja só nos livros e filmes da Disney. Penso que ainda existe, ou eventualmente sempre existiu, um preconceito sobre os vestidos de noiva, conotado com ideologias conservadoras e religiosas. Acho que cada pessoa tem o direito de escolher fazer da sua vida o que desejar, assim como um costureiro como eu ou um designer de moda de autor também tem o direito de criar o que gosta ou o que lhe pode trazer negocio.

A linha de noivas assemelha-se a um tabu?
Gosto de pensar que não. Não é vergonha fazer vestidos pensados unicamente para um momento especial. Os grandes nomes da moda internacional apostam muito neste segmento e mostram-no para a potencial cliente saber o que existe e ajudar na sua escolha final.

Maio é o mês mais forte para estas ocasiões?
Tenho duas situações distintas: a primeira, são os vestidos de noiva; e a segunda, a roupa para se levar a um casamento. Públicos com objecivos diferentes. No entanto, o mês de maio não é o único mês para vestidos de noiva, sou procurado ao longo de todo o ano, sabendo que algumas das minhas clientes vivem em países cujo clima diverge do de Portugal. Mas de facto o mês de maio ganhou um protagonismo muito grande nesta área.

Faz agora um ano que apresentou uma coleção de vestidos de noiva, no Palácio Foz, em Lisboa. Porquê?
Foi uma estreia. Quando se pensa em casamento acho que o meu nome está inerentemente associado a esta ocasião. O facto de ter escolhido ser costureiro deve-se ao amor que tenho em vestir o corpo feminino, de ver a beleza que ajudo a proporcionar, os sorrisos que surgem no rosto quando a peça é vestida e… Existem situações que não se explicam, simplesmente acontecem.

Tem um estereotipo de mulher?
Não. A mulher, independentemente do corpo, é uma mulher.

Mas um corpo esguio é o perfeito…
É o fácil. Não proporciona desafios, não nos faz pensar e criar soluções. Por vezes pensar dá trabalho….

2015 foi também o ano em que começou a investir na internacionalização da sua marca homónima, marcando presença no Sul de França (Cannes) e no Mónaco. O que o levou a ter esta estratégia?
Simples, encontrei um grande mercado para a minha roupa. É um mercado muito exigente, onde dei a conhecer o meu trabalho e fui muito bem recebido. O primeiro convite surgiu para fazer a Semana de Moda do Monte Carlo e desde então nunca mais parei de receber convites para outras festas e apresentações. Fiz o meu trabalho de casa, investiguei o mercado local e descobri que não têm um costureiro local, sei que as pessoas que ali vivem viajam muito, só existem duas ou três boas lojas de roupa… E decidi preencher essa lacuna.

Quantos anos de loja na Rodrigues Sampaio?
Três anos.

Foi uma boa aposta?
A mudança foi a mais acertada que poderia ter feito nos últimos anos. Estou no centro da movida, consegui aumentar a minha carteira de clientes e manter a que já tinha.

O seu estilo tem progredido para uma imagem mais sofisticada e elegante. Tem noção dessa evolução?
Não se trabalha durante 31 anos para se estagnar. Desejo chegar a uma determinada meta, para isso tenho de continuar a aperfeiçoar a minha técnica, investir na formação, no conhecimento e só assim vale a pena internacionalizar, porque a concorrência é feroz e para se ser mais um perdido entre os milhares que existem, mais vale estar quieto. Eu desejo não ser mais um, mas ser um que vale a pena conhecer e vestir.

Maio é também o mês do Festival de Cannes e o Festival de Cinema de Málaga, onde a João Rolo foi convidado a estar presente. Como curioso ou como profissional?
Ambos. Tem sido uma aventura, desde março que não paro de fazer desfiles em diferentes galas: Fundação Príncipe Alberto; Festival de Cannes; Prémio de Formula 1. Também fui convidado a vestir a diretora da revista L’Officel, uma apresentadora de um canal de televisão local. Não podia recusar. Também estive no Festival de Cinema de Málaga, onde vesti a atriz Patricia Montero. E no final do mês volto ao Mónaco para desfilar na noite de Gala do Grande Prémio de Fórmula 1.

Gostava de integrar o calendário oficial de alguma semana de moda internacional de renome?
Paris ou Milão, no calendário oficial.

E Nova Iorque?
A América não é o meu sonho Já fui convidado para estar na Semana de Moda de Nova Yorque e não aceitei. Optei pelo Mónaco.

Tem noção que muitos colegas seus gostariam de ter tido a sua oportunidade para estar na Big Apple?
Cada um tem a liberdade de escolher o que é mais adequado ao seu projeto. Não julgo os outros e gostava que também não o fizessem comigo.

Quantas pessoas trabalham consigo no atelier?
Neste momento cinco pessoas.

Qual o futuro da marca João Rolo?
Melhorar, evoluir, progredir e sedimentar uma imagem de elegância, sofisticação e qualidade. Gosto de me reinventar e tento que esse desejo se reflita nas peças que crio.

Como gosta de ser visto criativamente?
Como costureiro.

E o estilo?
Neo-clássico. O desafio é conjugar estilos aparentemente inconjugaveis, como o barroco, que adoro, e o vanguarda. O casamento que faço entre ambos transmite o meu trabalho. Evito ser ordinário, vulgar e ser sempre convencional sofisticado.

A aposta fora de Portugal significa que vai deixar de fazer desfile no seu país?
Quase todos os desfiles que fiz em Portugal foram suportados por mim. Decidi o ano passado, após o desfile de vestidos de noiva, investir lá fora. Prova de que não deixei de desfilar no meu país é a apresentação que vou fazer no próximo dia 16 de maio, no Corinthia Hotel. Gosto de organizar desfiles, como não integro o programa de nenhuma das plataformas de moda nacionais, significa que todos os custos são meus, logo prefiro fazer esse investimento lá fora.

Sente-se preterido pelo facto de não estar em nenhuma plataforma de moda portuguesa?
Não sinto nada disso, porque nunca precisei delas para me dar a conhecer. Mas como designer nacional gostava de estar. Sei que muitas vezes me dizem que pelo facto de ter um trabalho de alta costura, não tenho espaço nas plataformas nacionais… Não é bem assim!

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