Subir

Não há redenção na última temporada de ‘The Leftovers’

De quantas formas diferentes podemos colocar a questão sobre o sentido da vida e o que acontece quando ela acaba? Em ‘The Leftovers”, nunca há escassez de metáforas. A série criada por Damon Lindelof com base no livro de Tom Perrotta vai chegar ao fim com a terceira temporada, que estreia no próximo domingo no TVSéries. Arrisca-se a ser a melhor série do ano, a par de ‘Big Little Lies’ e enquanto não estreia o final de Guerra dos Tronos.

No entanto, o universo de ‘The Leftovers’ é completamente diferente, e o seu propósito também. “O Damon quer que vocês façam perguntas, mas não quer ser ele a respondê-las”, descreveu Scott Glenn, o ator de 75 anos que interpreta Kevin Garvey, o sénior, e tem um papel muito mais proeminente nesta última temporada:

“Perguntem-se a vocês mesmos: o que significa a palavra família? E qual é a origem da religião?”

Neste universo, 2% da população mundial desapareceu no mesmo dia, sem deixar rasto. O fenómeno destruiu famílias e deixou um trauma profundo. A forma como cada um lidou com ele é, para os criadores, mais importante que revelar onde foram parar esses milhões de pessoas.

No final da segunda temporada, Kevin Garvey júnior (Justin Theroux) é baleado e regressa da morte pela segunda vez, deixando uma nova dúvida nos espectadores: quem é ele, na verdade? Como conseguiu ressuscitar novamente? Nada disto soa a forçado ou demasiado fantasioso, porque está construído de forma sólida.

A terceira temporada vai levar-nos até à Austrália, onde o legado milenar das tradições indígenas se mistura com o receio do fim do mundo. Estamos perto do sétimo aniversário da “Grande Partida” e muitos crêem que haverá um novo dilúvio que irá destruir tudo e todos. “A Austrália dá uma sensação de antiguidade e distância”, explicou Damon Lindelof, criador e showrunner, numa conversa em Beverly Hills. “As pessoas ficam perturbadas quando as tiramos de casa. Eles estão constantemente desenraizados, não conseguem encontrar o caminho de casa.”

Mas não é assim no início da temporada, que tem muito mais ação que as outras duas. Passaram alguns anos e as dinâmicas familiares mudaram e assentaram, dando uma aparência de normalidade que está ameaçada pelo aproximar do sétimo aniversário. John e Laurie, ex-mulher de Kevin que se libertou da seita Guilty Remnant, estão agora casados. Lily, a bebé que Kevin e Nora adotaram, já não está com eles.

“Estas pessoas estão à procura de sistemas de crença, um significado para as suas vidas”, refletiu Mimi Leder, produtora executiva e showrunner. “Passaram por uma perda tão profunda que precisam destas crenças para funcionarem.” O primeiro episódio começa, precisamente, com a alusão a uma seita real que existiu entre 1833 e 1844, os Millerites. Os membros acreditavam que a segunda vinda de Jesus Cristo e o fim do mundo aconteceria a 22 de outubro de 1844, e o movimento foi tão forte que deu mesmo origem a várias denominações dentro da fé cristã. “The Leftovers” reacende a ideia e coloca a questão: será Kevin Garvey a chave para a salvação?

“Será surpreendente para alguns e satisfatório para todos”, garantiu Mimi Leder. Damon Lindelof disse mais ou menos a mesma coisa, mas garantiu que não haverá grandes revelações.

“Se você está a ver esta série para descobrir onde as pessoas foram parar, não vai descobrir”, afirmou. “Se calhar é por causa disso que só 14 pessoas veem a série”, brincou.

A última temporada de ‘The Leftovers’ estreia na madrugada de domingo para segunda, 16 de abril, no TVSéries.

Rita Guerra, na Califórnia