Novas musas das revistas põem em risco manequins

A revista norte-americana ‘Sports Illustrated’ volta a dar que falar ao apostar, na edição de verão, em Ashley Graham para fazer a capa. O peculiar neste caso é que estamos perante uma mulher que, ao contrário do que tem sido prática habitual neste tipo de publicações, é bem mais curvilínea (plus size, veste o 44) do que as modelos que fazem normalmente ensaios fotográficos. A mesma publicação escolheu também Nicola Griffin, de 56 anos (cerca de 40 anos a mais do que a média de idades das manequins residentes da publicação), para protagonizar uma sessão de biquínis e fatos de banho.

E se esta aposta transmite a ideia de mudança de imagem das mulheres nas publicações femininas, o que pensar das revistas de moda que, um pouco por todo o mundo, diversificam as suas capas. Assim, em vez de manequins, a aposta reforça-se cada vez mais em mulheres mais velhas, com papéis sociais e com histórias para contar. Algo que acontece, também, em Portugal.

Ainda no domínio da identidade das publicações, como analisar que a edição de março da ‘Playboy’ norte-americana tenha, ao fim de 62 anos, acabado com a nudez, ao mesmo tempo que algumas publicações femininas e lifestyle parecem cada vez mais empenhadas em mostrar o máximo de pele possível dos seus protagonistas. Só a revista Cristina, dentro de fronteiras, já o fez em várias ocasiões. Confusão, contradição, procura de novos públicos?

“Se há mais nudez generalizada, a oferta perde sentido porque há mais corpos despidos de borla”

“As revistas ‘Playboy’ puderam existir por causa do puritanismo, pequeno pecadilho permissível. A partir do momento em que estamos perante a generalização do corpo o que era o pequeno fruto proibido e o que era o erotismo mascarado perde negócio”, contextualiza Pedro Vasconcelos. Para este o sociólogo, especialista em género e cultura, do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, “se há mais nudez generalizada, a oferta perde sentido porque há mais corpos despidos de borla. A internet mudou a forma como partilhamos narrativas culturais, por outro lado, o apelo do corpo está mais disponível na net”, considera. “O nicho do erotismo pecaminoso generalizou-se e, portanto, tornou-se vulgar”, afirma Vasconcelos, que descarta qualquer possibilidade de retrocesso: “A Playboy nasceu num contexto de puritanismo e não está, com esta decisão, a regressar a ele. Está a reinventar-se. É uma estratégia comercial e editorial para reequacionar o conteúdo.” A decisão de acabar com o nu integral – já na edição de março – não é, contudo, uma decisão pacífica no clã Hefner. Esta semana, o filho mais novo do magnata Hugh Hefner, Cooper, discordou publicamente da decisão tomada pelo CEO da empresa, Scott Flanders: “Não concordo porque acho que os millenials [pessoas que nasceram entre 1980 e 2000] não veem a nudez como o problema, mas sim a forma como a nudez e as mulheres eram retratadas”.
No plano da análise da oferta mediática, Felisbela Lopes recorda que “há mais erotismo presente noutras publicações” e que tal poderá ter levado a Playboy a focar-se num ângulo mais recatado, mais erótico. Em contrapartida, esta investigadora de media na Universidade do Minho recorda que “à partida não estaríamos à espera que revistas como as da Cristina [Ferreira] fizessem aquele tipo de capas”. A professora considera que “a intenção de fotografar entrevistados como menos roupa possível acontece com determinadas figuras que já foram fotografadas de todos os ângulos”, acrescentando que, em todos os casos, se está perante “a procura de novos públicos”.

Crise, públicos e a ‘questão da Barbie’

É a conquista de maior auditório que, no entender dos especialistas, parece ser o motor de tanta diversidade nas capas de revistas que, até há bem pouco tempo, gostavam de ter os seus territórios bem definidos. “As revistas, os formatos impressos estão em crise. Por outro lado, esses mesmos grupos de comunicação vão multiplicando as suas plataformas em busca de segmentos. E como não é possível entrar em rutura – sob pena de se perder público – as apostas não podem ser muito experimentalistas, mas também não podem ser muito miméticas”, afirma Felisbela Lopes, explicando, assim, o porquê de haver cada vez mais mulheres diferentes nas capas das revistas. “É uma mistura das duas coisas: as lógicas sociais estão a mudar os seus parâmetros – da identidade e da pluralidade – e o mercado reage a isso. Se se fecha em nichos, deixa de ter lucros”, sintetiza Pedro Vasconcelos.

“A questão dos vários modelos de Barbie”- acrescenta Felisbela Lopes – veio dar impulso à importância da diversidade no estereótipo das mulheres porque “os públicos-alvo estão à procura de determinada imagem ou de discurso e já não se reveem nos estereótipos que estavam definidos”, afirma a investigadora da Universidade do Minho.

“Os públicos estão mais exigentes, querem pessoas com ‘estórias’. É preciso procurar mais do que um rosto ou um corpo […] Mas as escolhas dessas mulheres para capa obedecem a critérios de beleza”

Ora é essa a razão pela qual as revistas de moda estão a tirar espaço às manequins para os dar às mulheres com história? “Os públicos estão mais exigentes, querem pessoas com ‘estórias’. É preciso procurar mais do que um rosto ou um corpo”, afirma a professora. Porém, ressalva: “Mas as escolhas dessas mulheres obedecem a critérios de beleza.”

As mulheres deixaram de ser apenas decorativas”

“Há aqui uma dimensão interessante: as mulheres deixaram de ser apenas decorativas. Elas eram manequim de montra, lugar de objeto estético, agora estão cada vez mais a deixarem de ser objetos, e ainda bem, para passarem a ser sujeitos e aí são muito mais plurais!”, diz Pedro Vasconcelos. Este professor do ISCTE recorda que “há muito mais modelos de pessoas. Este aumento da diversidade caminha também para uma igualdade muito maior entre homens e mulheres. Somos todos mais individuais, não individualistas, e aceitamos mais diversidade do que antes, somos mais cosmopolitas”.

“Ninguém com mais de 60 anos quer comprar revistas com apenas mulheres de 20 anos.”

Ora, tal aplica-se às mulheres mais velhas nas capas de revistas e sobram exemplos disso mesmo seja lá fora (Tina Turner na ‘Vogue’), seja cá dentro (Helena Isabel na ‘LuxWoman’ ou Rita Blanco na ‘Ativa’). E Felisbela Lopes exemplifica: “Há 25 anos ninguém colocava uma pivô com mais de 45 anos no ecrã da televisão, hoje são essas pessoas com notoriedade pública que vão envelhecendo e vão estando presentes, ao lado de um público que as acompanha e que também envelhece”. De volta ao mundo das revistas, a professora da Universidade do Minho atesta: “ninguém com mais de 60 anos quer comprar revistas com apenas mulheres de 20 anos.”

Mas e se a aposta se revelar pouco rentável, será que se retrocede? “Acho que nunca se volta atrás”, afirma o investigador do ISCTE. O que se passa, conclui Vasconcelos, é que “há a necessidade de inventar novos públicos, na lógica da Comunicação Social: novos modelos, novas questões, novos comportamentos. A competição do mercado é central para esta reinvenção permanente.”

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