Roberta Medina: “Nunca existiu o ‘você não pode porque é mulher’”

Tem 38 anos, trabalha com a família numa união diária. A menos de 40 dias da realização de mais um Rock in Rio Lisboa, diz que o festival de música mainstream lhe ocupa as quase 24 horas do dia. Está à procura do equilíbrio entre o trabalho e a filha, não quer ter menos ambição para conseguir conciliar as duas responsabilidades, mas assume que quer ser uma mãe mais presente. Tem a consciência feminista a despertar e pintou o cabelo de encarnado por ser relativamente normal – “ser esquisito mas não chocante”. O Delas.pt esteve à conversa com Roberta Medina, para quem a fronteira entre o trabalho e a vida pessoal não existe.

Pintou o cabelo de vermelho porquê?
Na verdade, porque acho divertido. Eu comecei a pintar o cabelo com 22 anos, assim que acabou a minha primeira edição do Rock In Rio. Foi imediatamente a seguir ao evento. Acho que foi para botar aquele susto para fora. Eu fiz uma mecha azul e amava a minha mexa azul. Mas uma mecha azul tem de ser muito descolorada e dá um bocado de trabalho para manter. Mas ainda fiquei uns bons anos com ela. Quando vim para Portugal ainda tinha a minha mechinha azul. Hoje eu olho para fotografias, em conferências de imprensa, vejo a mecha toda descolorada… não sei como é que eu tinha coragem de andar daquele modo. Depois já fui ruiva clarinha, depois coloquei mechas amarelas. Acho divertido mudar de vez em quando. Também já usei o cabelo curtinho. Mas já estava há muito tempo com o cabelo castanho. Acho que usava o cabelo natural há seis anos, desde o primeiro ‘Ídolos’. E foi super bacana voltar à cor natural, mas já era tempo de mudar.
E esse vermelho tem a ver com o símbolo do Rock In Rio? É mais do que vestir a camisola?
Não. Se pensar bem… Eu tenho de encontrar um ponto de irreverência que me permita continuar a ir aos meus clientes. O meu ponto de irreverência é menos livre do que, talvez, o de algumas figuras públicas. Eu tenho compromissos mais formais e por isso tenho de achar um ponto de irreverência que não seja chocante. Queria fazer uma coisa esquisita mas que não assustasse ninguém.
A imagem é um aspeto muito importante para o seu trabalho?
Eu acho que a imagem é importante para tudo. Eu sou muito visual. A imagem é o primeiro ‘oi’, para qualquer coisa. E também tem perigos. Mas a verdade é que tem de ser usada como uma ferramenta dependendo de onde estivermos e qual é o objetivo que pretende atingir. Se entrar uma criatura aqui de bermuda, chinelos e óculos espelhados na cabeça eu vou achar que é surfista. É um estereotipo, é equivocado e podemos pecar muito por assumir desta forma. Mas num ambiente formal de trabalho, é natural que existam códigos. Eu acho que a imagem é uma mensagem.
Sentiu os preconceitos sobre a sua imagem na pele?
Vir de uma família conhecida no Brasil, ser bonitinha e ainda por cima pensar… era muita informação para mim! Eu ainda nasci na geração do ‘bonita e burra’. E eu, burra, não queria ser… foi nessa altura que resolvi engordar… Com muita sinceridade, foi um processo de gestão da imagem que eu demorei muito tempo a resolver. Não sei se já está completamente resolvido mas foi na altura dos ‘Ídolos’, em que o boneco é importante e a questão da imagem é muito importante, que eu comecei a resolver isso.
Não deixa de ser interessante que me diga que, quando é presidente do Rock in Rio em Portugal e com tantas edições feitas cá, continue a pensar que não pode chocar assim tanto em termos visuais.
Temos que tomar muito cuidado com este aspeto. Não se trata de uma ditadura da imagem, não se trata de não ser autêntica, não é uma questão de me frear. A questão é achar o ponto certo. Se nos encontrarmos no fim de semana, vai achar que eu tenho 18 anos… Uso ténis, uso minissaia, rabo-de-cavalo… O que acho é que eu tenho de respeitar o ambiente onde eu estou, seja ele qual for. Não preciso de ser careta, mas tenho uma meia medida porque me relaciono com as pessoas. A minha imagem também passa credibilidade para a minha empresa, uma vez que eu dou a cara por ela. Se eu não desse a cara pela empresa eu teria outra liberdade. Tenho uma responsabilidade agregada e tenho que ter cuidado com a imagem por isso.
É atenta à moda? Segue as tendências?
Não. É uma tristeza na verdade. Eu não gosto muito de ir às compras. Não gosto de ter muitas coisas. Não tenho paciência e não tendo, nunca vou conseguir comprar as coisas certas. Às vezes peço ajuda. Peço ajuda a um stylist, que também faz produção para revistas, e de vez em quando ligo-lhe a pedir que me compre peças que façam sentido para mim. Eu não tenho tempo, não é a minha prioridade, não tenho espaço mental. Não é por não gostar. É por não ter disponibilidade.
Como é que são os seus dias?
Nesta fase é péssimo descrever a minha rotina.
Estamos a menos de 40 dias do Rock in Rio.
Na verdade é há cerca de três meses… É uma péssima fase para descrever a minha rotina, porque eu acordo, levo a [minha filha] Luna à escola, trabalho e chego a casa sabe Deus a que horas. Às vezes consigo encontrar-me com ela em casa mas às vezes não. Faço o máximo possível para me encontrar com ela à noite. Faço questão de a levar de manhã à escola. É raríssimo não a levar à escola.
Como é que a sua filha lida com esta fase de trabalho da mãe?
Ela agora está com três anos e já acusa. Ela sempre ficou bem na escola e agora começou a chorar quando a deixamos. Mas ela aqui já está melhor.
Como é que vê as questões relacionadas com mulheres, maternidade, trabalho? O feminismo está a por estas discussões na agenda, e especialmente no Brasil.
Muita gente me chama para falar desses temas por causa do meu trabalho. Mas confesso que não se muito bem do que se trata, no sentido em que eu não passei pela discriminação. Fui a uma iniciativa do CDS-PP do Dia da Mulher onde falaram a maestrina Joana Carneiro, a apresentadora Cristina Ferreira. A Joana Carneiro tem um discurso muito politizado – e eu sou zero politizada – e achei a postura dela muito interessante. A Cristina Ferreira já não tem um discurso politizado, falou da sua experiência de vida. E eu, ouvindo as duas, percebi porque é que nunca pensei nestas questões, nunca lhes dei importância. Não é uma bandeira minha, porque eu nunca precisei. Caiu-me a ficha do porquê da minha não relação com o feminismo. Eu digo sempre que alguém já fez o trabalho antes de chegarmos aqui, e é muito importante, e claro que ainda falta fazer muito trabalho. Mas foi muito interessante perceber que em comum tinham a educação que tiveram em casa: para elas nunca houve a diferenciação em casa, nunca existiu o “você não pode porque é mulher”. Elas tiveram em casa as portas abertas para fazer o que quisessem independentemente de ser mulher ou homem. E na minha casa foi assim. Mas tive o privilégio de me darem a responsabilidade de facto e muito cedo.
E nunca esteve exposta a situações machistas no quotidiano?
Sim, inclusive situações de trabalho. E só não fiquei muito chateada porque não perco muito tempo a pensar nisso. Mas a verdade é que uma vez tive uma reunião de trabalho em São Paulo e o executivo de uma empresa teve uma postura muito desagradável, de me menorizar e até bastante sexualizada. Eu não me ofendo. Eu acho que aquela pessoa é retardada. Por isso fui-me embora e nunca mais voltei lá. Em Madrid, aconteceu-me ter uma reunião com um engenheiro a quem eu fazia perguntas e ele respondia para o engenheiro que mês estava acompanhar, por ser homem. Quando eu percebi o que se estava a passar, não parei de falar o almoço inteiro até ele começar a olhar para a minha cara. Mas eu diverti-me. E depois nunca mais pensei em fazer negócios com ele, claro.
Mas a sua postura impede-a de ser feminista?
Não sou ativista, mas quando me deparo com factos concretos: as mulheres ganharem menos, de terem menos mulheres em posições de liderança… isso para mim é um espanto. Na nossa empresa, há mulheres ‘para caramba’. Existem mulheres em cargos de liderança. Claro que, na administração da sociedade eu sou a única… Será que isso quer dizer alguma coisa? Acho que há a questão da opção também, não é? Sabe o que senti quando a Luna nasceu? A minha natureza quer ficar com a minha filha. Não quer dizer que todas as mulheres sejam assim, mas eu, Roberta, mãe, quero ficar com a minha filha. Não sou capaz de ficar em casa o dia inteiro, não sou capaz de brincar o dia inteiro. Mas leva-me à loucura passar tantas horas longe dela. Não faz o menor sentido para mim e ainda não achei o ponto certo entre as duas coisas ainda. Penso nisto todos os dias. Não acredito que este modelo… tenho um certo receio desta distância.
Sente desequilíbrio entre o trabalho e a família?
Completamente. O que me pergunto é onde é que está esse ponto de equilíbrio. Porque no meu mercado tenho a certeza absoluta: quanto mais responsabilidades temos mais encrencas. É muito mais desgastante estar sentada numa cadeira a gerir problemas do que a carregar caixas no terreno. Hoje eu tenho um problema: eu já me envolvi no processo de decisão tão mais alargado, que é muito difícil voltar para carregar caixas. Mas eu era mais feliz a carregar caixas. Mas é um conflito brutal, é um processo difícil saber como é que eu consigo interferir no produto da forma em que eu acredito, sem ter todos este envolvimento. Não sei qual é o ponto. Estou a tentar descobrir qual é o ponto certo, porque eu quero estar mais presente enquanto mãe.

Lisboa-07/04/2016- Roberta Medina é uma empresária e produtora de eventos brasileira, residente em Lisboa, Portugal desde 2003. Filha de Roberto Medina, o criador do Rock in Rio, é responsável pela realização do Rock in Rio em Lisboa e Madrid. (Paulo Spranger/Global Imagens)
Roberta Medina é empresária e produtora de eventos brasileira, filha de Roberto Medina, o criador do Rock in Rio, é responsável pela realização do Rock in Rio em Lisboa e Madrid.
(Paulo Spranger/Global Imagens)

 

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