Séries feministas? De ‘O sexo e a Cidade’ a ‘Transparent’, uma história de ficção

Muitas das mulheres (e homens também, claro) que consumiram televisão nos anos 90, sabem quem são Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha – as protagonistas da icónica série da HBO, ‘O Sexo e a Cidade’. A série estreada há dezoito anos, foi um dos primeiros produtos televisivos feministas que veio, de facto, revolucionar o papel da mulher citadina e a forma como se posicionava e vivia as suas relações (profissionais, amorosas, familiares, etc).

O mercado das séries americanas explodiu, no entanto, cerca de uma década mais tarde, com centenas de produtos, com todas as temáticas possíveis e imaginárias. As séries feministas continuaram a ser feitas, mas poucos produtos têm tido a mesma relevância social. Há, no entanto, algumas sagas televisivas a assinalar, igualmente revolucionárias, atentos à realidade feminina contemporânea no Ocidente. Se nos anos 90 tínhamos como protagonistas quatro mulheres emancipadas de NYC, na década de 10, temos, por exemplo, como protagonista de uma série feminista, uma mulher transgénero com mais de sessenta anos, com uma família (mulheres e filhos), residente em Los Angeles.

A série feminista de mais sucesso nesta década, ‘Girls’, tem também como protagonistas quatro amigas e a cidade de Nova York. Passa-se no final da primeira década do milénio, mas as protagonistas em vez de profissionais de sucesso, têm empregos nada definidos, pouco dinheiro e nenhuma estabilidade nos relacionamentos amorosos. A série, também da HBO, escrita, realizada e protagonizada por Lena Dunham, é um paradigma feminista de sucesso. Há quem considere a sua criadora a voz daquela geração ou, pelo menos, uma voz importante daquela geração. A geração das mulheres nascidas nos anos 80, provavelmente filhas ou irmãs mais novas das mulheres que assistiram a ‘O Sexo e a Cidade’. O tom de Girls é sarcástico – com muita graça hardcore – recorrendo à temática das relações amorosas ou sexuais falhadas. Todas as personagens têm o seu quê de falhadas. O central da série é o guião, não são as marcas de designers ou a maquilhagem e cabelos das protagonistas. Há até um certo desprezo expresso, por algumas personagens às referências feministas, num contexto televisivo (uma das personagens, Jessa, diz que nunca ouviu falar de ‘O Sexo e a Cidade’).

Lena Dunham, a criadora de ‘Girls’, vai continuar a criar dentro da mesma temática, encontrando-se, neste momento, a preparar com a HBO a produção de um episódio piloto de ‘Max’, uma série sobre o feminismo nos anos 60. ‘Max’ vai ser protagonizada por Lisa Joyce, uma escritora que aparentemente está farta do movimento feminista.

A série ‘Transparent’ tem quebrado paradigmas desde sua estreia no serviço televisivo da Amazon. Em 2015, a série arrecadou dois Emmys: um para o protagonista, Jeffrey Tamber, como melhor ator em séries de comédia; e outro para Jill Soloway, a sua criadora, para a melhor realização. A autora, em entrevista à revista New Yorker (2015), disse que “o enredo da série não tem um universo maravilhoso, mas sim algo próximo do mundo real. É feminismo.” Estamos então perante uma série (inspirada na vida da autora), cujo protagonista é uma mulher transgénero, com mais de sessenta anos e com uma família (mulher, filhos, netos). A série gira em torno das relações familiares e amorosas, da sexualidade e dos corpos fora dos padrões, sem ser moralista, mas tentando destruir estereótipos sociais acerca destes assuntos. A temática feminista, é então abordada (implícita ou explicitamente) por esta mulher trans (e pelas filhas homo e bissexuais), sem qualquer espécie de glamour (como em ‘Sexo e a Cidade’) ou sarcasmo (como em ‘Girls’). É uma abordagem seca, dura, cujo interesse reside em nos apercebermos que tudo é possível, a mudança de paradigmas; basta estarmos disponíveis e atentos para ver. ‘Transparent’ é tão feminista, hoje, como ‘Sexo e a Cidade’, o foi nos anos 90. ‘Transparent’ fala acerca da condição da mulher (do homem, da pessoa) no período em que se inscreve (o tempo actual), revelando um universo igualmente revolucionário e transformador.

Interessante é assinalarmos a mudança de abordagem. Usando estes três exemplos em décadas díspares, podemos afirmar que o feminismo nas séries televisivas americanas, nasceu na emancipação romântica das grandes marcas, passando pela frustração económica e falência emocional (rindo-se disso), acabando por atracar, na nossa década, na transparência das máscaras. Ninguém sabe o que é isto de se ser mulher. E ainda bem.

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