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Cannes 2016: o festival foi das mulheres

Algum do melhor cinema que aí vem e que foi mostrado em estreia mundial na Côte d’Azur tem personagens femininas reais e marcantes. Cannes, este ano foi um festival sob o signo das grandes mulheres.

Papéis femininos fortíssimos, personagens de mulheres marcantes. A edição do Festival de Cannes 2016 deixou pistas conclusivas sobre uma tendência do atual cinema de autor: o lugar para a atriz, o lugar para as temáticas da mulher.

Se Jacklyn Rose, a vencedora do Prémio de Melhor Atriz pelo filme ‘Ma’ Rosa’, crónica sobre a desolação dos bairros pobres de Manila, fica desde já como um do símbolos dessa força feminina, também o regresso de ‘Sónia Braga’ em Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, surge como um exemplo de uma atenção específica ao pulsar feminino. O cineasta de ‘O Som Ao Redor’ filma um retrato de mulher como é raro o cinema fazer: com crueza, subtileza e sensualidade. A história de uma ex-jornalista aposentada que se reinventa quando decide resistir a uma proposta para vender o seu apartamento um prédio residencial do Recife marcado para demolição.

Braga torna-se o exemplo de um caráter de revolta perante uma sociedade brasileira contemporânea tão corrupta como violenta. É uma mulher que não cede e que consegue manter uma relação com a nostalgia de uma outra época, do Brasil do vinil em que se ouvia Chico Buarque e Bethânia e ainda se podia viver em comunidade. ‘Aquarius’ não é espelho de emancipação “cota” ou geriátrica nem nada disso, apenas um alerta e elogio da importância daquela minoria que ainda bate o pé aos sinais de evolução parasitária. Uma personagem que chega aos 60 anos com uma batalha ganha: a sobrevivência de um cancro (impressionante o plano em que descobrimos no duche a ausência de um peito). O cinema brasileiro parece ter ganho uma heroína inspiradora.

As mães solteiras na Inglaterra dos desfavorecidos é o tema de ‘I, Daniel Roach’, do veterano Ken Loach, vencedor da Palma de Ouro, onde se segue o percurso de uma jovem londrina recambiada para Newcastle depois de ficar desempregada e sem meios de subsistência. Sozinha e com dois filhos para criar vai sentir na pele a desumanidade dos serviços de assistência social. Interpretada pela novata Hayley Squires, esta mulher é um símbolo de uma falência social da Inglaterra destes dias. Um retrato feminino que dá uma dimensão universal a todas as jovens obrigadas a cuidar dos filhos sem qualquer ajuda dos pais das crianças num sistema que as ignora. Um arrepiante relato cujo realismo está longe de se configurar perante a mera lógica do discurso do contra da esquerda. Ken Loach filma o instinto maternal de forma seca e dá-lhe uma humanidade transparente. A interpretação de Squires é igualmente de uma honestidade transbordante…

Mas nem só de causas viveram as mulheres de Cannes. A selvagem Sasha Lane, de ‘American Honey’, da britânica Andrea Arnold, enunciava um princípio de escapismo puro. Uma jovem americana que foge para uma aventura na estrada junto de uma série de jovens que vivem de vender assinaturas de revistas à América ignorante.

É alguém a descobrir a sua sexualidade aos 17 anos. De cabelos ao vento e ao som de Rhianna, persegue o princípio do prazer e percebe que a sua sensualidade é uma forma de poder. Instante de uma geração de uma América de contrastes, foi dos retratos femininos mais puros e artísticos que o festival nos deu. ‘American Honey’ tem a sensibilidade do eterno feminino mas é sobretudo uma prova de fé nas utopias dos sonhos de uma jovem. Porque a estrada americana é território de afirmação…
Em Cannes, a pulsão feminina foi mais do que uma tendência.

Rui Pedro Tendinha