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“Inês de Castro não fez nada de extraordinário. Cortaram-lhe a cabeça e pronto”

Afinal de contas, Inês de Castro é considerada uma vítima ou uma heroína? Leonor Machado de Sousa, professora universitária e autora de várias obras (Mito e Criação Literária e, entre outras, Inês de Castro) sobre a rainha que foi coroada depois de morta, esteve no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos a debater o tema.

Nesta curta entrevista, a autora desmistifica uma das maiores lendas da História portuguesa, fala em caso de “violência política” e usa a lógica e o percurso de literatura nacional para explicar quem escolheu os heróis e porquê.

 

Como vê Inês de Castro hoje? Uma vítima? Uma heroína? Um ícone feminista?

Em termos literários, uma heroína é a figura principal, e, nesse aspeto, Inês é uma. Mas foi, claramente, uma vítima. O grande problema é que não sabemos praticamente nada dela, e essa é a dificuldade dos autores que escreveram romances e tragédias. Sabe-se da paixão com D. Pedro, que viveram juntos, que teve filhos e que foi morta por uma razão de Estado. Mas ícone ou heroína não, ela não fez nada de extraordinário. Cortaram-lhe a cabeça e pronto.

Uma vítima?

É realmente uma vítima. No teatro do romantismo do século XIX e princípio do século XX, os autores focaram-se mais no D. Pedro. Esse é que foi presenteado como herói. Por ter vingado a morte da amada e com a proclamação de um casamento que se calhar nunca existiu. Além disso, não houve coroação nenhuma. Isso é uma fantasia. Como é que se pode coroar alguém que foi decapitado?

Podemos ver Inês de Castro como vítima de violência de género?

Não exatamente, foi vítima de violência política. Nada tem a ver com o processo que levou o juiz Neto de Moura a perdoar um caso de violência doméstica devido a adultério, por exemplo.

Mas teria sido decapitada se não fosse mulher?

Até ao início do século XX, o marido podia matar a mulher adúltera sem ter consequências penais nenhumas. Eu conheci um caso, aliás. A lei era assim. Na atualidade, o caso de Inês de Castro não teria problema nenhum. D. Pedro era viúvo e Inês de Castro era solteira. Ele só a foi buscar depois da rainha D. Constança morrer.

Acredita que o lado passional da história, no fundo toda a lenda, não é mais do que um mito?

Hoje, tende-se a diminuir o aspeto apaixonado e ganha força a ideia que foi antes uma atitude política. Havia apenas um herdeiro do trono. D. Fernando acabou por ser rei, mas era uma criança doente e frágil. Se morresse, não haveria herdeiros legítimos e perderíamos a independência.

Texto de Marta Marques (aluna da Universidade Lusófona)

Imagem de destaque: Quadro de Columbano Bordalo Pinheiro/Museu Militar