Assédio: “As mulheres passam a vida a ouvir bocas”, diz Rita Blanco

Rita Blanco (Foto de Gerardo Santos/Global Imagens)

O assédio e abuso sexual do produtor de Hollywood Harvey Weinstein a várias atrizes internacionais não é caso isolado. Mesmo em Portugal, onde não existe uma indústria cinematográfica propriamente dita, também acontece, revela a atriz Rita Blanco.

“Isso é real. Sabemos”, disse no debate desta manhã da conferência ‘Mulheres nas Artes: Percursos de Desobediência’, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Rita Blanco referia-se a casos de pessoas do meio “que se deixaram assediar para poder trabalhar” e acrescentou que, também nesta área, o assédio é difícil de provar e normalmente são as mulheres as maiores vítimas.

Os comentários ao tema surgiram a meio da discussão, mas este já tinha sido lançado pelo moderador logo no início da conversa, que juntou também a diretora de castings Patrícia Vasconcelos e a realizadora Leonor Teles. Pedro Borges começou por falar do escândalo que tem estado a abalar Hollywood para perguntar se não haveria alguma história parecida por cá.

Patrícia Vasconcelos acabaria por comentar o mediático caso do produtor da Miramax reprovando o seu comportamento mas também o de algumas das vítimas. “Entristece-me muito esta história com o Harvey Weinstein. Choca-me ainda mais as mulheres que aceitaram dinheiro para se calarem”, afirmou.

A diretora de casting acabaria mesmo por partilhar um episódio de que ela própria foi alvo, por parte do conhecido ator francês Gerard Depardieu.

“Lembro-me de um caso com o Gerard Depardieu, que estava em Lisboa a fazer um casting para dois filmes, e há uma altura em que estou a filmar e ele mete-me a mão no rabo. Chamei-o de lado e disse-lhe: ‘nunca mais na vida me metes a mão no rabo!’” Patrícia Vasconcelos conta ainda que o ator que recentemente deu vida, no grande ecrã, ao ex diretor do Fundo Monetário Internacional, (FMI), Dominique Strauss-Kahn, no filme ‘Bem-Vindo a Nova Iorque’ (2014), tentou repetir a graça mas a diretora de castings deu-lhe “um estalo na mão”.

Com ou sem assédio, as mulheres “estão sempre a ouvir bocas” dos homens da equipa, diz Rita Blanco. Bocas que podem ir de observações à roupa usada como ao paternalismo sobre a capacidade das mulheres para assegurarem determinada tarefa, sobretudo quando esta é de cariz mais técnico.

“Diziam-me que só podia ser assistente. Eu com isso nunca me conformei”, contou Leonor Teles, a jovem realizadora premiada pelo filme ‘Balada de Um Batráquio’, sobre a função de diretora de fotografia, que desempenhou no recente filme de Pedro Cabeleira, ‘Verão Danado’.

A realizadora concorda com Rita Blanco no facto de as mulheres terem de lutar muito mais para disputar certos lugares que os homens, mas para a sua geração as dificuldades são outras, confessando que sentiu “mais discriminação por ser jovem e não tanto por ser mulher”.

Ainda assim nota que a indústria cinematográfica “ainda é um meio muito masculino e vai continuar a ser” e diz ter tido sorte por ter trabalhado com uma mulher produtora quando começou “Acho que as mulheres têm uma abertura um bocadinho diferente”, considera Leonor Teles.

Lobby de mulheres
Com diferentes experiências e visões sobre a condição da mulher nas áreas profissionais que desempenham, as oradoras partilharam diferentes opiniões sobre outro tema que também parece não se circunscrever a Hollywood: a discrepância salarial entre homens e mulheres no cinema.

Enquanto Patrícia Vasconcelos e Loenor Teles não referem ter sentido diferenças a esse nível por serem do sexo feminino, Rita Blanco, conta que em muitos dos trabalhos onde havia um ator do sexo masculino como co protagonista, ela ficou ganhar menos, apesar de ter igual importância na hierarquia do elenco. “Num genérico será muito difícil, havendo um co protagonista, que eu fique a frente dele”, revela, apontando o filme ‘A Gaiola Dourada’, de Ruben Alves, como uma exceção à regra.

“O Joaquim d’Almeida é mais conhecido que o tremoço! No entanto, eu era a protagonista e na altura não me passaria pela cabeça ficar à frente do Joaquim d’Almeida. E fiquei à frente porque o realizador tinha em atenção toda esta situação.”

Rita Blanco confessa que, além de ter sido “sempre tratada como uma tonta”, por ser mulher – “porque eu conheço muitos homens tontos”, diz – o facto de nunca ter querido aceitar o jogo de poder fez com que o seu percurso tivesse sido ainda mais duro e com que tivesse de fazer a sua “carreira zangada”.

“A minha sorte é que alguém vinha sempre proteger-me, geralmente uma mulher”. Por isso, considera que as mulheres se devem ajudar mutuamente, imitando um pouco a chamada solidariedade masculina.

“As mulheres para poderem chegar aos sítios têm de ser agressivas (…)Também acontece uma coisa: se uma mulher está numa posição cimeira e corre mal não terá defesa (…) Temos nós mulheres de ter uma atitude mais protetora e de género. Sou a favor disso, do lobbying.”

A conferência ‘Mulheres nas Artes: Percursos de Desobediência’ termina esta terça-feira. Ao longo de dois dias, várias personalidades femininas da cultura portuguesa estiveram reunidas em Lisboa para discutir o papel da mulher nas artes. As escritoras Maria Teresa Horta e Lídia Jorge e a pintora Graça Morais foram homenageadas no evento.

(Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens)