Vanessa da Mata: “O Brasil hoje não protege as suas mulheres”

Vanessa da Mata Jorge AmaralGlobal Imagens
Fotografia: Jorge Amaral/ Global Imagens

“É como se nós estivéssemos dentro de uma caixa de ideias”. É assim que Vanessa da Mata descreve o seu novo espetáculo que a traz de volta a Portugal, para quatro concertos. A primeira metade desta minidigressão nacional, inspirada no disco/DVD ‘Caixinha de Música’, acontece já esta sexta-feira, 27 de julho, e no sábado, nos Casinos da Póvoa do Varzim e do Estoril, respetivamente. Espetáculos que juntam canções novas e outras bem conhecidas do público nacional, com quem a cantora brasileira mantém uma relação de “respeito e admiração”. Vanessa da Mata confessa que já pensou em mudar-se para Portugal, não só pelas circunstâncias atuais do Brasil, mas porque dois dos seus filhos vão passar a estudar na Europa. “O que me segura muito no Brasil é a família”, diz em entrevista ao Delas.pt. Com um olhar atento ao que se passa social e politicamente no seu país, a cantora mostra-se particularmente preocupada com a situação das brasileiras. “O Brasil hoje não protege as suas mulheres e isso quer dizer que não protege as suas famílias”. Nesta entrevista, Vanessa da Mata fala ainda da crise política que o país atravessa, das próximas eleições presidenciais e do feminismo crescente que diz estar a revelar-se no outro lado do Atlântico.

O que nos pode adiantar sobre estes novos concertos em Portugal? O que o público pode esperar deles?
Esse espetáculo chama-se ‘Caixinha de Música’ e é como se nós estivéssemos dentro de uma caixa de ideias e eu, sendo a compositora dessas ideias, é como se estivesse contando essas ideias para uma mesma reverberação, como se todos fossemos um só. Então essa ‘Caixinha’ tem as partes mais pop – a ‘Ai Ai Ai’, ‘Não Me Deixe Só’, ‘Ainda Bem’, ‘Boa Sorte/ Good Luck’ – mais quatro canções novas, mais uma série de músicas da minha carreira, que já tem 15 anos. Para dar conta, nesse DVD novo, das histórias todas, de muitos discos, demorámos um pouco a selecionar esse repertório. Mas acho que está tudo lá.

É uma espécie de best of destes 15 anos ou quis ir além desse conceito?
Talvez não tenha sido feita nesse sentido, mas acho que o best of está lá. Acho que é muito mais um trazer da ideia de cada disco, e o DVD a trazer uma identidade de uma maneira mais documental, no sentido de ter todos eles ali.

Como é que essas quatro canções inéditas refletem a Vanessa da Mata hoje em dia, enquanto compositora, cantora, mulher?
Cada uma diz uma coisa. A ‘Gente Feliz’, por exemplo, é a maneira de se ser feliz mas ao mesmo tempo precisar “gritar” para que algumas coisas mudem – seja na política, no Brasil ou no simples quotidiano. No Brasil, a gente tem muita positividade, na hora da reclamação, os que são mais positivos dizem “ah, deixa para lá, não ’tou nem aí com isso…”. Na verdade, a gente precisa desse contraponto: manter essa inocência e essa positividade e ao mesmo tempo exigir mudanças e melhorias, e isso é um contraponto para tudo. O ‘Orgulho e Nada Mais’ fala de um ‘não’, no amor, e ao mesmo tempo dos egos de hoje em dia. O ‘Caixinha de Música’ fiz para a minha mãe e várias outras mulheres que deixaram de amar, de alguma maneira, porque tiveram alguma deceção, mas em algum momento elas recomeçam a perceber as delicadezas da vida – um passarinho, o pôr-do-sol, coisas que se deixam de ver quando se está magoado – e que se volta a amar de uma outra maneira. E ‘Perfume Barato’ é a história de uma mulher que gosta de um sujeito e pede para que ele não vá para outros territórios.

Gosta sempre de cantar as suas canções, ou há algumas que gostaria de não ter de cantar mas acaba por fazê-lo porque o público insiste?
Graças a Deus, eu não sou cantora de uma música só [risos]. Porque eu podia ter ficado só com a ‘Ai Ai Ai’, ou com o ‘Boa Sorte’ e, na verdade, tive muitas músicas, muito tocadas, no Brasil. Tenho 13 músicas que entraram em novelas. Isso dá um repertório enorme e eu posso escolher de vez em quando. No show anterior não cantava o ‘Boa Sorte’ e quando eu venho com esse DVD, que traz essas nuances, texturas eletrónicas, dá para brincar [com as canções]. No ‘Boa Sorte’ o arranjo é diferente, tem vocais africanos no começo. Isso traz uma frescura a mim também. Não é uma ‘Simpathy for the Devil’, que os Rolling Stones cantam há 50, 60 anos, sei lá [risos]. Mas eu acho que ainda existe uma frescura nas minhas canções, que não têm tanto tempo assim.

E a relação com os públicos como é que se vai renovando? No caso do público português, como é que foi evoluindo essa relação?
Eu tenho muito respeito e admiração pelo público português, porque eu construo as minhas canções em cima das palavras, gosto muito das palavras, e a primeira pessoa que me lançou foi a Maria Bethânia. Por causa das entrevistas dela o público português começou a procurar-me e acho que é essa sensibilidade que traz sempre aqui e me faz contar as histórias à minha maneira. E que sorte a minha! Eu conheço cantores que contam as suas histórias, mas os outros não têm empatia por elas. E eu tenho uma sorte enorme por atravessar o Atlântico e ter um público que se vê dentro dessas canções e que bom que eu consigo dizer isso de uma maneira poética numa música que também toca na rádio, o que é difícil.

Muitas figuras conhecidas brasileiras estão a atravessar o Atlântico, mas para virem morar em Portugal, devido à insegurança e violência que se vive no Brasil. Já pensou em fazer o mesmo?
Já fui convidada para morar em Portugal faz tempo. O que me segura muito no Brasil é a família. A minha família é grande, divertida e extremamente unida. Mas eu tenho vários amigos que moram aqui. Os meus filhos, este ano, vão estudar, pela primeira vez, em Genebra [Suíça], onde mora o pai – o meu ex-marido tem uma parte da família lá. E eu cada vez mais estou pensando em Portugal. Tenho uma comodidade muito grande no Brasil, porque o país é enorme e nós fazemos shows o ano inteiro, sem repetir lugares, e isso, de certa forma, facilita. Mas realmente com a violência é cada mais difícil, ainda mais sendo mulher. É uma coisa muito séria. O Brasil hoje não protege as suas mulheres e isso quer dizer que não protege as suas famílias, porque a mulher é a base fundamental de uma família. Se tem uma mulher machucada, magoada, e a justiça não é feita, vai haver filhos não amados, uma família não cuidada, e isso é muito sério. Mas isso é de todas as formas. Estamos a ter uma política degradante no Brasil, mas ao mesmo tempo eu nunca vi tanta gente ser presa. Quando eu era criança não via nenhum “coronel” ser preso e a gente sabia que todo o mundo roubava. Finalmente, estão a prender pessoas e isso é importante.

E qual é a sua perspetiva em relação às próximas eleições presidenciais e aos candidatos que se perfilam à frente na corrida? Convencem-na, causam-lhe preocupação?
Muita preocupação. O Brasil é muito forte mas ao mesmo tempo a educação é capenga [ou seja, manca] e isso faz com que as pessoas sejam manipuladas de uma maneira muito fácil e estão doidas por um resultado prático, rápido, que não existe. Se não for com a educação, para mim não existe mudança. A dedicação e o investimento forte na educação já não vem sendo feito há muito tempo e aí quando há radicais tentando [chegar à] presidência isso mostra como as pessoas estão desesperadas. E isso é catastrófico e não ninguém a dizer que a educação é o primordial. Talvez, sei lá, [haja] um, dois, três, no máximo.

Na passagem por Portugal, Vanessa da Mata vai aproveitar para estar com amigos, como os cantores António Zambujo e Malu Magalhães, escrever e matar saudades dos cafés de Lisboa. [Fotografia: Jorge Amaral/ Global Imagens]
Em relação às mulheres, há quatro anos, numa entrevista ao jornal Correio Braziliense, disse que “quem diz que uma mulher merece ser atacada é doente”. Temos, de facto, a sensação que a situação das mulheres piorou mas também que há muita reação das mulheres nas ruas a protestar contra isso.
Sim, mulheres guerreiras. Eu tenho a sensação que as mulheres estão a armar-se, mesmo, e o feminismo no Brasil cresceu de uma maneira enorme, e não é radical mas é tão forte como o machismo. A diferença é que o feminismo quer igualdade, o machismo quer além disso. E o que eu percebo é que existe uma luta enorme para que haja mudanças, agora enquanto houver deputados, pessoas que trabalham na política e que não percebem que isso tem de ser criado para as filhas, para as mulheres deles, não é uma coisa distante, isso não vai mudar. Inclusivamente, as mulheres precisam de entrar [na política] para fazer leis, que são completamente feitas para os homens e de uma maneira dispersa. Às vezes tenho a sensação que existe até uma certa proteção das pessoas que fazem maldades.

Essa foi a sensação com que muita gente ficou depois do assassinato da vereadora Marielle Franco.
Ela era uma pessoa que representava muita gente e por isso tornou-se num ponto de referência, mas isso acontece o tempo todo.

O Rio de Janeiro aprovou recentemente o dia 14 de março, como o Dia Marielle Franco – Dia de Luta Contra o Genocídio da Mulher Negra. É importante haver uma data destas no Brasil, especificamente para a mulher negra? Ou seja, apesar de haver violência contra as mulheres brasileiras, a situação da mulher brasileira negra é pior?
O que acontece com a mulher negra é que ela está numa situação de maior risco, de pobreza extrema, porque ela tem a herança da escravatura ainda, jogada nas favelas. As favelas foram criadas depois do abandono escravo. Enquanto os Estados Unidos deram um pedaço de terra e algum dinheiro para que essas pessoas [os antigos escravos] pudessem começar, o Brasil jogou essas pessoas nas ruas. Então existem cinco gerações de pessoas que moram na rua, várias pessoas jogadas nas favelas montando as suas casas e tentando sobreviver de qualquer maneira e muitos e muitos trabalhadores. Se for conhecer as pessoas da favela, elas são uma coisa linda. Adoram cantar, são engraçadas, são gentis, são trabalhadoras, mas ao mesmo tempo é como se se elas tivessem de ficar escondidas. É como se o governo dissesse: “não apareça, não exista, porque eu não tenho o que fazer com você”. E a mulher, nesse sentido, está no lado mais fraco, infelizmente.

Voltando ao seu mais recente disco/DVD, ‘Caixinha de Música’, o que é que ouvia em casa, na sua infância, no tempo das caixinhas de música?
A minha mãe cantava muito uma cantora brasileira chamada Clara Nunes. Era excecional, cantava vários ritmos, tinha uns cabelos enormes, usava muitas flores. Eu acho que tive uma influência muito grande dela. A gente ouvia também muito Maria Bethânia – que veio a lançar-me depois, como compositora e cantora –, Milton Nascimento, Chico Buarque e os sertanejos da região, do centro oeste brasileiro que é o Brasil profundo. Eu acho que de certa forma componho trazendo também a natureza para dentro do cenário de cada música.

E para um próximo disco, que cenários é que gostaria de trazer?
Eu estou a começar a pensar num novo disco, mas isso muda tanto que ainda não consigo adiantar nada. Tenho uma tournée pequena, que vai começar em outubro no Brasil, com a cantora cubana Omara Portuondo. Há muitos anos ela convidou-me para cantar duas músicas com ela e agora estamos a começar um show. Eu mando para ela coisas que gostaria que ela cantasse, ela manda para mim coisas que gostaria que eu cantasse. Como trocaríamos certas músicas. E demora um pouco a costurar essa malha. Mas acontece em outubro e chama-se ‘Último Beijo’.

Há planos para passar por Portugal?
Eu adoraria. Mas a Omara tem 87 anos, não sei como é que ela se sente a ter de viajar tanto tempo. Depende muito dela.

Depois dos concertos desta sexta-feira e sábado, em Portugal, tem mais dois espetáculos no país, em meados de agosto. Vai ficar por Portugal até lá?
Bom, acho que vou dar um pulinho a Genebra, dois dos meus três filhos estão agora lá, também tenho um show em Londres. Nos outros dias, vou tentar encontrar-me com amigos como o José Agualusa, António Zambujo, Mallu Magalhães, e espero escrever o máximo que puder, porque aqui há essa atmosfera de escrita que gosto muito, há história e os cafés que eu adoro.

E o arroz de pato.
O arroz de pato, com certeza!