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Aheda Zanetti: “Criei o burkini para dar liberdade às mulheres, não para a tirar”

Burkini

Aheda Zannetti, a estilista que desenhou o burkini, diz que o criou para dar liberdade às mulheres e não para as oprimir.

O fato de banho que cobre o corpo todo e que é usado por muitas muçulmanas foi proibido, recentemente, em várias praias francesas, sob pena de multa e advertência policial. Esta terça-feira, uma mulher foi obrigada pelas autoridades a despir-se em plena praia, em Nice.

Todas estas notícias parecem ter apanhado de surpresa a australiana de origem libanesa que, há mais de dez anos, resolveu criar uma peça de roupa que permitisse às mulheres muçulmanas movimentarem-se sem as contrariedades físicas impostas por outros trajes de cariz islâmico.

“Quando inventei o burkini, no início de 2004, foi para dar mais liberdade às mulheres, não para a tirar”, começa por referir, num artigo que escreveu para o ‘The Guardian’ e que foi publicado esta quarta-feira. A ideia surgiu, conta no mesmo texto, depois de ver o desconforto da sobrinha a jogar netball com o hijab – o véu islâmico que cobre a cabeça e o colo. “Quando finalmente a deixaram jogar [com o hijab] fomos todos assistir e apoiá-la, mas o que ela estava a usar era totalmente inapropriado para uniforme desportivo”, recorda a estilista, guardando na memória a imagem da sobrinha durante o jogo: “ela parecia um tomate, tão encarnada e cheia de calor”.

Aheda Zanetti decidiu então retirar aquilo que considerava ser o excesso de tecido do hijab, mas sem comprometer os códigos morais da comunidade islâmica. Criou então um fato composto por duas peças que cobrem o corpo e o cabelo, e que viria a tornar-se mundialmente conhecido quando a organização Surf Lifesaving Australia iniciou um programa para integrar rapazes e raparigas muçulmanos. Uma dessas raparigas competiu num dos eventos da ONG e usava um burkini.

O burkini acabou por converter-se no fato-de-banho de muitas mulheres muçulmanas, mas Aheda Zaneti rejeita que ele seja uma “burka para a praia”, apesar da sonoridade da palavra. Até porque, sustenta, ele pode ser usado por qualquer mulher, seja “cristã, judia, hindu”. “É apenas uma roupa que pode ser vestida por uma pessoa recatada, ou alguém que tenha cancro de pele, uma mãe recente que não queira usar biquíni, não é um símbolo do Islão”, defende.

Por isso, a designer de 48 anos diz não entender a polémica em França em torno do burkini e lamenta que os franceses não tenham compreendido o significado de “uma roupa que é tão positiva e que simboliza lazer, felicidade, diversão, saúde e desporto e agora estão a mandar as mulheres saírem da praia e voltarem para as cozinhas?”, questiona.

Aheda acusa os políticos franceses de estarem a privar as mulheres da sua liberdade e de não serem melhores, nesse aspeto, que os talibãs. Para a designer nenhum homem devia preocupar-se com o que as mulheres vestem. “Ninguém nos está a forçar, é uma escolha”, sublinha no artigo que escreveu para o ‘The Guardian’.

A estilista diz ainda que se preferir dar o protagonismo a um homem é por escolha sua. “Eu gosto de estar por detrás do meu companheiro, mas eu sou o motor e escolhi sê-lo. Eu quero que ele fique com todos os louros, mas sou eu quem, discretamente, os alcança”, afirma.

Apesar de condenar as proibições em França, Aheda reconheceu, esta semana, em declarações à AFP, que isso trouxe publicidade aos burkinis e que aumentou as vendas do fato, trazendo um novo tipo de cliente. “No domingo recebemos 60 encomendas pela Internet – todas elas de não muçulmanas. Tem sido alucinante”, concluiu.


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Ana Tomás