Brigada Vermelha: portugueses filmam a luta feminina na Índia

Escrevo este texto de calças de ganga. Para mim, é uma peça de vestuário como outra qualquer, que uso livremente. Para Usha, que vive numa sociedade que não vê com bons olhos que uma mulher se vista assim, foram as calças de ganga que tinha vestidas naquele dia que a salvaram de uma violação iminente. É este o primeiro relato que se ouve no documentário ‘Brigada Vermelha’ e, logo ali, se percebe que vamos imergir numa realidade dura, cruel.

Três homens portugueses viveram durante um mês com um grupo de mulheres vítimas de abuso, que entretanto Usha organizou, para retratarem uma situação que é a norma em alguns estados da Índia. Tiago Carrasco, João Fontes e Pedro Gancho viveram de perto com a comunidade estabelecendo laços de confiança e amizade que duram até hoje, mesmo à distância. Dessa vivência nasceu o documentário com o mesmo nome da organização: ‘Brigada Vermelha’.

O trauma e a frustração de Usha materializam-se numa luta real para dar mais liberdade às mulheres. Liberdade de escolha, liberdade de expressão, liberdade para dizer não. No filme, meninas e mulheres têm aulas de artes marciais. Aperfeiçoam o murro e o pontapé, enquanto o professor grita para baterem com mais força. Da próxima vez que um homem se aproximar saberão defender-se. Esta é uma das vertentes do trabalho da Brigada Vermelha que Usha fundou. Outra é a sensibilização.

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Há que mudar mentalidades, há que abrir um caminho para o diálogo igualitário. Nas manifestações pela cidade ouvem-se as frases: “o casamento de menores é crime” ou “parem com a violência contra as mulheres”. A voz de Afreen, outra vítima em recuperação na Brigada Vermelha, soa mais alto do que as outras. A câmara capta o rosto de uma jovem que viveu mais do que deveria para a idade que tem. A noite traumatizante que passou, aos seis anos, marcou-a para a vida. Fala, entre lágrimas, da menina que ao ser abandonada pelos pais, acreditou na falsa bondade de um homem que a levou para casa e a violou. Não poderá ter filhos, no futuro. Vivia sem qualquer esperança até conhecer a Brigada Vermelha e abraçar a causa com toda a convicção. É hoje uma das mais destacadas ativistas, marcando presença em cada manifestação, em cada iniciativa. A última imagem do documentário é sua. Sorri e dança, entre amigos, celebrando o facto de estar viva. A imagem, de tão simples, é desarmante.

Como nasce um documentário na Índia

Foi Tiago o primeiro a falar da ideia. Regressou da Índia bastante incomodado com o que tinha visto. Estávamos 2012 e Deli enchia-se de manifestações por causa da violação coletiva de uma estudante. Foi aí que ouviu falar de Usha e da sua Brigada Vermelha e teve a certeza que queria contar esta história. Formou equipa com João e Pedro e o apoio da produtora Até ao Fim do Mundo. Restava a aprovação da Brigada, que veio rapidamente.

A vontade de expor as situações de abuso foram o grande incentivo para aceitarem esta partilha. Este é, inclusive, um dos grandes objetivos da Brigada Vermelha. Quando as autoridades não cumprem o seu dever e as famílias preferem ignorar o que aconteceu, as vítimas devem expor o seu abusador perante a sociedade. Um dos pontos mais marcantes do documentário é o momento em que um homem agachado, na rua, é obrigado a admitir o que fez, perante a sua vítima e conhecidos. Rodeado de mulheres, leva chapadas até confessar. Pede desculpa, que nunca será o suficiente, mas que é mais do que alguém já fez.


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A equipa torna-se conhecida daquela aldeia. Ao ponto de, na cena do casamento, onde a noiva em silêncio assiste à negociação do seu dote para depois dizer um relutante “sim” três vezes a alguém que nunca viu, João dizer que “ninguém falou connosco, durante toda a cerimónia”. Este momento dura o tempo suficiente para ficarmos desconfortáveis com a situação. Não só pelo choro da noiva e família, mas pela negociação insensível e algo oportunista que se faz da vida da adolescente. Quando a cena termina, prevalece uma sensação de incómodo e de impotência que era “exatamente o que pretendíamos quando decidimos alargar a duração [desta sequência]”, defende João. Afinal, é um ritual que ainda acontece todos os dias.

Não ficamos indiferentes ao ver este documentário. Não se fica indiferente à perseverança de Usha ou à delicada força de Afreen. Não se esquece os relatos de sofrimento que se transformaram em motivação. Não se quer esquecer. O ato de filmar a ação destas jovens mulheres e crianças na ‘Brigada Vermelha’ não é apenas um manifesto contra uma sociedade que não protege as mulheres. É, sobretudo, um manifesto contra a ignorância e a apatia.

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