Filipa Gomes: “A ‘dona de casa’ que ‘tem de cozinhar’ é do tempo da minha avó”

Não gosta de ser chamada de Chef, mas é uma cozinheira de mão cheia. Entre os tachos e as panelas é feliz, descontraída e muito, muito divertida. O seu look atrai miúdos e graúdos e a linguagem que adota não é de uma personagem criada para a televisão. Ela é assim fora dos ecrãs. Filipa Gomes, mulher e mãe, da pequena Julieta de dois anos, tem novo programa no 24Kitchen. Depois do sucesso do “Prato do Dia”, transmitido também na Turquia, Bulgária e Holanda, chega agora ao mesmo canal “Cozinha Com Twist”. Aos 34 anos, a apresentadora workaholic assumida, abre o coração ao Delas e antecipa alguns segredos do seu novo projeto, com estreia marcada para 24 de julho às 21 horas.

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Ver a Filipa Gomes a cozinhar torna-se tão fácil fazer o mesmo em casa…

Que bom! Ainda bem, porque esse é um dos meus grandes objetivos. Sou bastante exaustiva no teste das receitas e até na forma como faço a coreografia do meu guião. Para que no momento em que estou a gravar tudo possa fluir de forma a facilitar ao máximo a vida das pessoas lá em casa.

É raro usar um garfo ou uma colher de pau. A Filipa põe literalmente a mão na massa!

Eu venho da aldeia, nasci em Almargem do Bispo, bem perto de Lisboa, por isso sou prática. Enerva-me que as coisas tenham que ser todas muito direitinhas. Gosto de ultrapassar o risco, sempre que possível, e quanto mais as pessoas me dizem que eu tenho que ter regras mais vontade me dá de excedê-las. E acho que uma das coisas que faz com que as pessoas se afastem da cozinha é o facto de elas acharem que têm de ter mil e um utensílios. Não têm. As mãos são o melhor utensílio que nós temos à disposição. Então bora lá! Qual é o problema? Não há nada melhor do que sentir os ingredientes.

O que é que o público pode esperar deste Cozinha Com Twist?

Para já, O Cozinha com Twist tem 22 episódios e, de uma forma geral, retrata o tipo de cozinha que eu faço. Tanto pode ser tradicional como internacional, vegan ou muito gulosa. Misturei tudo isto e daí sai uma cozinha com twist. Tento que cada episódio tenha um tema e que as três receitas que faço a cada programa estejam subjacentes ao tema.

As calorias restringem a liberdade na cozinha?

Sim, mas também podem servir como ponto de partida. Agora está muito na moda a cozinha sem açúcar, sem glúten e sem lactose… Ou seja, isso pode ser muito restritivo ou pode ser também uma base criativa muito forte.

O nome do programa é a sua cara!

Sim, claro! Fui eu que escolhi o nome. E a escolha aconteceu muito naturalmente, porque é uma expressão minha, que uso muitas vezes no dia-a-dia. “Damos aqui um twist”, digo tanto. Depois, tem muito a ver com o meu look, que é uma coisa que as pessoas gostam muito de falar. Questionam se é, de facto, meu ou se estou a encarnar um personagem. Digamos que foi o match perfeito. Sugeri e todos acharam que era uma ótima opção. Assim como o genérico do programa também foi ideia minha.

O look da Filipa também atrai os fãs…

Adoro as referências dos anos 40 até aos anos 60, como base. Depois gosto bastante do revivalismo dos anos 80. Sou mais rockabilly do que vintage. Sou mais do Rock&Roll, e adoro andar com os ténis rotos.

Não gosta de ser chamada de Chef, já o disse várias vezes…

Não sou. Não dirijo nenhuma equipa.

Identifica-se mais com a dona de casa que vê a cozinha de forma divertida e descontraída, é isso?

A ‘dona de casa’ que ‘tem de cozinhar’ é do tempo da minha avó, da qual a geração da minha mãe fugiu. Publicamente, parece que eu sou uma dona de casa que não faz mais nada senão cozinhar, que toma conta da filha e que, quando o marido chega a casa, tem tudo limpo e perfeito. Mentira! Na minha vida real não é isso que se passa. Eu trabalho imenso e não trabalho só nas lides domésticas. Não me interpretem mal, porque eu tiro a saia pelas mulheres que estão em casa nesta situação. Na verdade, eu detesto fazer coisas em casa. [risos]

Fala-se tanto hoje de que devemos habituar as crianças logo cedo a fazer uma alimentação saudável. Como é lá em casa com a Julieta?

Inicialmente, eu era extremamente cuidadosa. Não sou extremista, mas até ela fazer um ano de vida nunca comeu nada processado. Ainda hoje evito que ela coma, apesar de me ter tornado uma mãe um bocadinho mais descontraída. Cozinho a pensar nela de forma a que todos possamos fazer a mesma refeição sentados à mesa. Era ela ainda muito pequenina quando eu cozia os brócolos, dava-lhos para a mão e lá ia ela toda contente a roê-los, como se fosse fruta.

A infância define muito a nossa identidade e aquilo em que nos tornamos…

Sim, acredito muito nisso. E eu tive uma infância tão feliz…

Uma infância feliz e rural, com os pés descalços na terra. Mas hoje vive na cidade e a Julieta não vai crescer nesse contexto.

Penso nisso imensas vezes. Como é que eu tento compensar? Os meus pais continuam a viver no campo e a Julieta passa algum tempo com eles. Portanto, quero acreditar que ela vai ter algumas referências do campo. Ao longo dos anos, eu e o pai, vamos sempre tentar mostrar-lhe essas referências. A culinária dá-nos essa ligação à vida real e à natureza, porque vemos os processos a acontecerem. Percebemos que uma cenoura tem rama e que vem com terra.

Portanto, apresenta a origem dos alimentos à sua filha?

Sim, claro! Tento ao máximo que ela respeite as plantas, por exemplo. Dou-lhe muitas coisas a cheirar, como a hortelã ou o manjericão. Desde cedo que faço isso, porque para mim a memória olfativa é fortíssima. É muito forte em mim e traz-me memórias incríveis. Eu cheiro tudo.

Filipa, quem são as suas cobaias?

[Risos] Eu, essencialmente, o que é um problema. Porque eu testo assim que sai do forno, provo quando está morno e depois quando está frio. E até no dia a seguir! Tudo desculpas para continuar a comer [risos]. Quando são pratos principais já é diferente. Detesto desperdício. Portanto, mando para agência do meu namorado [n.r. Jorge Trindade, pai da sua única filha] ou para os amigos. A experiência vai-me dando ferramentas em que sei que, mais ou menos, as coisas vão correr bem.

E o Jorge é o maior dos críticos?

Ele próprio diz que é um ‘boca de cabra’, porque gosta de tudo. Por isso, eu sou a minha maior crítica. Há pratos que para as pessoas estão bem e para mim nem por isso. Quero sempre alterar alguma coisa.

E quem cozinha em casa diariamente?

Eu!

Mas é rápida ou elabora sempre um bocadinho os pratos que confeciona?

Tento ser muito prática, porque com filhos não dá para fazer um Cozido à Portuguesa à quinta-feira. Por isso, acho que as pessoas se identificam comigo. Sou muito real.

Sai-lhe muitas vezes a massa com atum?

[Risos] Muitas vezes o meu jantar passa por frango assado, leitão e atum, sim! Se chegamos a um ponto em que começamos a sofrer na cozinha então deixa de ser uma paixão e passa a ser um sofrimento. E de coisas práticas podem sair pratos incríveis. O Frango Assado à Brás que eu vou apresentar num dos episódios vem claramente de uma noite em que sobrou do jantar. Adoro aproveitar restos e isto era uma coisa que a Filipa Vacondeus também fazia muito.

E quem lava a loiça no final?

Normalmente é o Jorge. Tarefas sempre divididas, sempre. [risos]

É muitas vezes convidada para ir a casa dos amigos cozinhar?

Eu convido-me, mas levo sempre a comida. E adoro ir jantar fora, é maior das minhas fontes de inspiração.

Que mensagem deixa para quem a cozinha é uma obrigação?

Acho horrível uma pessoa obrigar-se a fazer coisas. Se o marido cozinha melhor, então que seja ele a fazer o almoço e o jantar. Não sofram com isso. Devemos simplificar ao máximo e nunca compararmo-nos com a vizinha. Se as pessoas precisam de cozinhar, mas não adoram, então tentem simplificar a coisa. Cozinhar não tem que ser doloroso. Há opções tão simples como saltear legumes: cortamos os legumes, metemos na frigideira, juntamos azeite e molho de soja e já está. Podem ligar com atum e não sofram porque estão a comer atum. Ninguém é infeliz a comer atum. Ultrapassem esses preconceitos. O mesmo se passa com o frango assado. Procurem ingredientes muito nutritivos e saborosos.

Como lida com o sucesso alcançado?

No início foi um bocadinho estranho, porque nunca projetei isto em mim. Nunca tinha pensado em ser apresentadora de televisão e nunca me aventurei pela cozinha em miúda. (Fazia apenas as sobremesas em dias de festa.) Porém, era muito comunicadora. Adorava atuar. Estive sempre ligada ao teatro da escola ou da catequese, mas nunca tinha pensado nisso como uma possibilidade.

E o público da Filipa Gomes é tão diferente! Sei que feedback tem sido muito positivo.

Tenho um público dos 8 aos 80 anos e pessoas com doenças terminais que me chegam a enviar mensagens incríveis. Choro muito. Larguei o trabalho que eu tinha porque não conseguia ter a liberdade que queria. Em publicidade não há feedback do público, até porque não sabem que fui eu que fiz determinado trabalho. Agora sim, o meu trabalho é muito mais imediato. Tenho um enorme retorno. Saber que sou a companhia de uma senhora de 80 anos que está sozinha em casa é brutal. Uma vez fui ao aniversário de uma senhora que completava 92 anos de vida, em que a família decidiu convidar-me. Passou-me qualquer coisa pela cabeça e fui. Andou de braço dado comigo fascinada por eu estar ali junto dela. Quando as senhoras de certa idade dizem que aprendem comigo, e eu que sou uma miúda, é fascinante. Se eu ouvir uma mãe a dizer que por causa de mim o filho de sete anos vai para a cozinha, então é sinal que a minha missão é cumprida. É sinal que estou a influenciar o futuro destas crianças de forma positiva.

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