O retro não é moda!

O retro não é moda!

Há mais de uma década que se fala no estilo ‘retro’, palavra que se refere à moda dos anos 1940 até aos anos 1990, ou seja, o estilo que consiste nas roupas criadas e usadas no passado. E esta expressão estende-se também à arte e à decoração de interiores.

As tendências nos últimos dez anos falam recorrentemente do estilo ou da moda ‘retro’. É um recuar no tempo, num máximo de 76 anos e num mínimo de 20 anos, relembrando tempos passados na história da moda recente, levando o público a recuperar ideias da moda passada para o uso atual.

As coleções primavera/verão 2016 e outono/inverno 2016-17 recriam um universo ultrapassado e revisitado ano após ano, estação após estação, sem apelo à criatividade quer por parte dos designers quer por parte de quem consome.

“O rétro não se assemelha a moda alguma porque já não se define por cânones estritos e inéditos, mas apenas pela referência flexível ao passado e pela ressurreição dos signos defuntos da moda, mais ou menos, livremente combinados”, afirma Gilles Lipovetsky, filósofo francês, no seu livro ‘A Era do Vazio’ (1989).
Desde 2010 que se assiste ao regresso de marcas que se destacaram entre os anos 1980 e 1990, como é o caso da Dr. Martens, fazendo as delicias das gerações que há 20 ou 30 anos viviam a sua adolescência, com maior ou menor irreverência, e que hoje voltam a procurar os momentos do passado através da moda. A ideia não é inovar mas recordar, voltar a usar, sem pensar em reinventar. O estilo ‘retro’ induz em erro, como salienta Gilles Lipovetsky, é uma atitude amorfa e inerte, disfarçada de uma falsa modernidade ou atualidade.

Na verdade, as tendências parecem ter uma ação criativa, numa incessante procura de novidade, disfarçada por novos tecidos ou materiais tecnológicos, ou ainda pela feroz sobreposição de estilos e ideias que acabam por induzir a uma interpretação errada junto de quem consome. Ideia é essa propositada, uma vez que o que se pretende é que o consumidor não pense, apenas consuma. “O ‘retro’ não tem conteúdo, não significa nada e aplica-se, numa espécie de paródia ligeira. (…) Nada está mais na moda do que aparentar não ligar à moda ”, afirma o filósofo francês seguindo uma linha de pensamento idêntica à de Yves de Saint-Laurent quando este anunciou que “já não está na moda andar à moda”, ou seja, cada indivíduo é responsável pela construção da sua imagem, evitando as imposições dos ‘trendsetters’, ‘designers’ e/ou ‘visionários da moda’.
As coleções P/V 2016 e O/I 2016-17 espelham o que Gilles Lipovetsky defende há já vários anos nos livros que tem publicado ao longo da sua carreira académica, quer nas conferências que tem feito um pouco por todo o mundo. A inspiração continua a focar-se entre os anos 1920 e os 1990, em alguns casos o design das peças explora outras abordagens artísticas, recorrendo à pintura, à escultura ou à arquitetura, exemplo disso mesmo é a marca Alexander McQueen ou Comme des Garçons.

Olhar com distanciamento as propostas criativas das próximas estações, percebe-se uma contínua repetição de ideias, que num primeiro olhar parece inovador e de vanguarda, mas acaba por ficar bem patente que nem uma coisa nem outra acontece, porque “se o modernismo assentava na aventura e na exploração, o pós-modernismo repousa na reconquista, na autorrepresentação, humorística para os sistemas sociais, narcótica para os sistemas psíquicos. (…) Quando a moda deixa de ser um pólo altamente marcado, o seu estilo torna-se humorístico, tendo por motor o plágio vazio e neutralizado”. A verdade é que o próprio ‘retro’ faz sorrir

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