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Poliamor: quando um só amor não basta

Poliamor: quando um só amor não basta

Marta tem dois amores. Daniel tem quatro. Ao contrário do que possa pensar não há um oficial e outros camuflados, escondidos de olhares alheios: quer num caso quer noutro são todos assumidos como parte de um todo. Confuso? Nós explicamos. Chama-se poliamor, “uma orientação relacional, que pode definir-se como a suposição de que é possível, válido e valioso manter relações íntimas e/ou sexuais e/ou amorosas com mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, com o consentimento informado de todas as partes”, explica Daniel Cardoso, professor assistente na Universidade Lusófona e poliamoroso assumido. “É, no geral também, um movimento em que a maior parte das figuras mais conhecidas e importantes são mulheres; tem uma componente política e parte das suas raízes surgem, por exemplo, nas críticas feministas do século XIX e XX à associação entre monogamia compulsória, patriarcado e capitalismo”.

As três namoram, as três vivem juntas
Marta tem 21 anos. Prefere não dizer o apelido e a profissão porque os pais não sabem que em vez de uma namorada tem duas. Que vive com as duas. Que as três jantam em família, vêem filmes, discutem quando assim tem de ser – como em qualquer relação. E namoram, claro.

“O meu poliamor começou quando me apaixonei por uma pessoa sendo que já estava numa relação monogâmica. No entanto surgiu esta possibilidade por conhecer outras pessoas poliamorosas que trouxeram a palavra e a definição para a minha vida. Conversei com a pessoa com quem estava na altura, falámos de poliamor e chorámos, chorámos imenso. A sociedade ensina-nos que as relações são posses. Quisemos desconstruir esse sentimento de pertença e concentrar a nossa energia na felicidade e comunicação”, conta Marta sobre o início do ‘caminho’.

“Têm sido muitas as mudanças individuais e sociais nas últimas décadas no que às relações íntimas diz respeito. Primeiro que tudo, a longevidade é cada vez maior, o que impacta na vivência plena de uma relação satisfatória quer a nível emocional, quer a nível sexual. Para além disso, temos assistido a uma maior igualdade entre homens e mulheres”, começa por contextualizar Natália Antunes, psicóloga Clínica da Oficina de Psicologia. “Não esqueçamos ainda que a expansão da internet tem também trazido novos ideais para os relacionamentos. É neste plano de maior necessidade de uma vida íntima satisfatória e completa que surge o fenómeno do poliamor, visando colmatar as necessidades emocionais que muitas vezes não o são quando se investe numa relação com apenas uma pessoa, em regime de exclusividade”, acrescenta a psicóloga.

“Atualmente estou com duas pessoas, sendo uma delas a pessoa com quem iniciei a relação monogâmica. Estamos numa relação há três anos. A minha outra relação existe há seis meses. Todas as relações que tive desde que conheci o poliamor foram bastante positivas na forma como os meus amores se relacionavam. É praticamente uma relação familiar. Super próxima”, explica Marta ao Delas.pt sobre esta orientação que considera uma resposta à liberdade individual e relacional.

Poliamor não é sexo com muitos
“O poliamor é trabalhar os ciúmes, a comunicação e a possessividade. É linda a ideia de ficarmos felizes com a felicidade dos nossos amores tendo em conta que não temos que concordar com tudo e temos o direito de o dizer e procurar soluções para que nenhuma parte fique magoada. Poliamor não é sexo com muitos – existem pessoas assexuais em relações poliamorosas. Poliamor não é uma competição de quem tem mais parceiros – existem relações poliamorosas formadas por apenas duas pessoas. Poliamor não é dizer sim a tudo – é saber dizer não, é saber procurar soluções e sobretudo respeitar todas as pessoas envolvidas. Foi uma lufada de ar fresco viver com a consciência de que o amor não se divide – multiplica-se”, diz ainda Marta, acrescentando que o mais difícil é viver esta pluralidade amorosa numa sociedade monogâmica.

“Somos as galdérias, as que ainda não encontraram o verdadeiro amor, as oferecidas, as cornudas. Não somos alguém que ama algu(ens). Em casos de relações com precessão social heterossexual elas são as submissas e eles os garanhões. As lésbicas são promíscuas ou não sabem o que querem. As leituras são imensas. A verdade é que temos empregos, contas para pagar, responsabilidades como todas as pessoas. A diferença? Amamos no plural. E mesmo isso não é algo tão distinto de pessoas monogâmicas que amam vários amigos ou familiares”.

Um amor não basta?
Daniel Cardoso concorda. Perguntar “porque é que um amor só não basta” é o mesmo que perguntar “porque é que não basta ter só um amigo”, ou “porque é que não basta ter só um filho”. Falando de forma generalista, todas as pessoas acabam a desenvolver ligações afetivas de vários tipos, com várias outras pessoas ao longo da sua vida. Geralmente isto não é entendido como sendo uma questão de ‘necessidade’, mas algo que simplesmente vai acontecendo organicamente ao longo da vida. A perspetiva de uma pessoa poliamorosa é apenas a de que isso pode acontecer com qualquer tipo de ligação emocional, não apenas com amizades”, acredita o professor.

Para muitos isto soará estranho, incompreensível até. “Mas a verdade é que muitas pessoas vivem esta indefinição ao longo da vida, embora nem sempre a concretizem através do desenvolvimento de várias relações. Em diferentes momentos da nossa vida poderão existir duas ou mais pessoas pelas quais nutrimos alguns sentimentos. E se pudéssemos, de uma forma livre e não estigmatizada, viver estas relações?”, questiona a psicóloga Natália Nunes.

Ao longo dos últimos anos vários estudos têm sido feitos nesta área, na tentativa de perceber se uma relação poliamorosa tem mais consequências negativas ou positivas para aqueles que as vivem.

Normalmente, os casais que se permitem incluir outras pessoas nas suas relações tendem a sentir-se mais seguros, a partilharem mais as diferentes exigências e preocupações e a desenvolverem relações de cooperação.

Num estudo desenvolvido por Peabody (1982), verificou-se que os indivíduos em relações poliamorosas têm relações sexuais ligeiramente menos frequentes do que os que as têm com apenas um parceiro. Neste estudo, os participantes relataram que ainda assim se tendem a envolver mais em atividades sociais, onde a aceitação, a comunicação aberta e a amizade são destacadas.

Vivências difíceis
No entanto, podem surgir algumas dificuldades na vivência de relações poliamorosas: A comunicação poderá sofrer constrangimentos com os diferentes parceiros, impactando na vivência dos diferentes relacionamentos; a necessidade de ter de selecionar diferentes competências para a resolução de problemas com os diferentes parceiros; Provável desenvolvimento de sentimentos de culpa sobre a opção tomada, sobretudo no que à aprovação da sociedade diz respeito e não aprovação das pessoas significativas; Existência de sentimentos de posse e de ciúme quando algum dos envolvidos é deixado de parte; Exigências individuais relativamente ao tempo gasto com cada parceiro, relacionadas com o medo de perda e com a necessidade de controlo e existência de divergências em relação ao tempo disponível para cada uma das relações; Não existência de um grupo social externo que se permita partilhar abertamente estas opções, pelo estigma social ainda existente.

“Além de que as pessoas poliamorosas têm uma pressão enorme em manter os relacionamentos. Parece que temos que provar a alguém que resulta. Que funciona. Dói visto que nem sempre resulta da mesma forma que nem todas as relações monogâmicas resultam”, conclui Marta.

Alexandra Martins