Subir

Sim, podemos

Mas primeiro é preciso mudar o mundo. Levar o filho bebé para o parlamento, como fez Carolina Bescansa, deputada do Podemos, em Espanha, é fofinho, dá boas fotos, tem probabilidades de tornar-se viral nas redes sociais, mas ajuda a mudar o mundo? Não sei.
A deputada do Podemos, que tem uma creche no parlamento, onde pode deixar a criança, terá querido, com este gesto, chamar a atenção para a dificuldade que continua a existir, para as mulheres sobretudo, em conciliar carreira e maternidade. Mas aquele gesto confronta-nos também connosco próprias. Porque nos atira à cara que essa dificuldade não é só alheia – dos homens, das empresas, das instituições, da sociedade -, mas também nossa.

Temos dificuldade em delegar o cuidado dos nossos filhos. Até aos pais deles. E não podemos. Se quisermos ser mais do que mães, não podemos. Consegue imaginar uma operadora de caixa de supermercado com o filho ao colo enquanto avia uma fila enorme de clientes? Ou uma médica a dar uma consulta ou a fazer uma cirurgia com o (seu) bebé a chorar no consultório ou no bloco operatório? Ou uma operária a dar de mamar na linha de montagem? Ou uma professora a dar aulas a trinta miúdos do secundário enquanto embala o carrinho de bebé? Ou uma diretora de uma empresa a ter que interromper uma reunião para ir mudar a fralda do filho? Não.

Podemos, e devemos, discutir horários de trabalho e a conciliação entre estes e os horários escolares ou das creches ou dos infantários; podemos, e devemos, discutir licenças de maternidade e paternidade e a partilha de tarefas e responsabilidades, assim como as desigualdades salariais e de oportunidades entre homens e mulheres. Podemos discutir imensa coisa, mas não podemos fazê-lo com os nossos filhos ao colo. Por mais que amemos dar-lhes colo. Ou precisamente porque amamos fazê-lo.

Catarina Pires, editora da Notícias Magazine