VIH/SIDA: há quanto tempo não faz o teste?

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A 1 de dezembro celebra-se o Dia Mundial da Luta Contra a SIDA. De doença altamente mortal passou a crónica e até já existem medicamentos muito inovadores mas isso não é motivo para descurar a prevenção: todos os anos surgem novos infetados, sobretudo por via sexual (60,5% heterossexual e 31,8% homossexual, em 2014). Fazer o teste faz toda a diferença.

Os primeiros casos de SIDA, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, causada pelo vírus da imunodeficiência humana, VIH, que enfraquece o sistema imunitário, destruindo a capacidade de defesa em relação a várias doenças, foram diagnosticados em Portugal há já 33 anos.

Hoje é considerada uma doença crónica mas o número de novos casos continua a ser elevado: no mundo inteiro, em 2015, surgiram cerca de dois milhões de infetados segundo a UNAIDS, o programa das Nações Unidas criado em 1996 para lidar com o problema.

Ricardo Fernandes, diretor de serviços na Associação Positivo, que apoia seropositivos e respetivos familiares; e diretor executivo do GAT, Grupo de Ativistas em Tratamentos, ONG que luta pelos direitos de pessoas afetadas pelo VIH e outras infeções relacionadas, como é o caso da hepatite, falou ao Delas.pt sobre os novos medicamentos, a importância do teste e o que ainda falta fazer em termos de prevenção.

Nos últimos 30 anos os tratamentos evoluíram de dezenas de comprimidos três vezes ao dia para uma toma única diária.

Os Regimes de Comprimido Único (RCU) são já usados amplamente em Portugal há alguns anos. No fundo, trata-se da combinação de três fármacos num único comprimido para facilitar a toma e adesão à terapêutica. Contudo, nem todas as pessoas podem ser tratadas com estas formulações, quer por terem outras patologias associadas, quer por outras razões associadas ao VIH. Porém, geralmente o tratamento de uma pessoa recém diagnosticada com VIH poderá ir de um a três comprimidos uma vez ao dia.

E está para surgir uma injeção trimestral…

Essa injeção ainda está em estudo e, em princípio, só chegará a Portugal no primeiro semestre de 2019, se tudo correr bem. Já sabemos, pois o estudo avançou, que não será trimestral, ou seja, será eficaz por um período menor. Não deixará, no entanto de ser uma inovação.

Quem vive com HIV tem hoje uma esperança de vida similar à do resto da população?

De facto, os estudos demonstram que a esperança média de vida das pessoas que vivem com VIH pode ser igual à das população em geral. No entanto, presume-se que isto aconteça a pessoas cuja infeção foi diagnostica ainda numa fase inicial e que tiveram acesso ao seguimento clínico e tratamento considerados excelentes, os quais estão disponíveis no Sistema Nacional de Saúde Português. É por isso que se considera tão importante que as pessoas façam testes regularmente.

O acesso aos tratamentos é verdadeiramente universal e gratuito?

Em Portugal existe acesso à maioria dos medicamentos aprovados na União Europeia pelo regulador europeu, a EMA. Se um doente tiver necessidade de tomar um medicamento terá acesso ao mesmo, seja RCU ou outro. O problema, em Portugal, é o acesso à saúde de pessoas migrantes (in)documentadas que têm muitos obstáculos, não obstante a Lei o permitir no caso das pessoas infetadas pelo VIH.

A informação chega pessoas que usam drogas e prostitutas ou há muito a fazer junto dessas comunidades?

Estas comunidades não precisam assim tanto de informação, precisam, sim, de serviços que lhes sejam dirigidos, que abordem as necessidades sociais e de saúde específicas destas populações. Nesses serviços, para além de intervenções de saúde (rastreio de infeções sexualmente transmissíveis, acesso à saúde, troca de material de injeção, distribuição de preservativos, tratamentos…), podem ser feitas intervenções que visam o apoio social e mais informação sobre VIH, hepatites e outros assuntos relevantes. Infelizmente, estes serviços, e o financiamento disponível para os manter, são escassos, o que aumenta a vulnerabilidade (já alta) destas populações para a infeção pelo VIH.

Tem-se falado muito da PrEP, que previne a infeção, e também do seu custo elevado. O que é exatamente?

A PrEP, ou Profilaxia Pre-Exposição, consiste num comprimido que deve ser tomado todos os dias e que previne a infeção pelo VIH. Destina-se sobretudo a pessoas que se encontram em alto risco de contrair a infeção pelo VIH, seja porque pertencem a comunidades mais vulneráveis à infeção, seja porque têm comportamentos sexuais de risco. O custo deste medicamento é significativo mas não pode ser considerado alto, sobretudo quando evita infeções que significariam que a pessoa tomaria uma terapêutica ainda mais cara para toda a vida. O medicamento que é usado para a PrEP passará a ser genérico em 2017, pelo que o custo descerá muito. Não se sabe ainda quando virá a estar disponível para a população portuguesa em geral.

Pensa que a população já tem informação suficiente sobre VIH/SIDA?

A informação sobre VIH e SIDA nunca é demais e está sempre em atualização, pelo que faz todo o sentido que todas as pessoas possam ser informadas em várias etapas da vida. Seria bom que o VIH e outras infeções sexualmente transmissíveis (IST) fossem abordados numa perspetiva de educação sexual que contextualize estas doenças mas que aborde, também, outros assuntos como a orientação sexual, a contraceção, etc.

Têm surgido cada vez mais casos de infetados com 50 anos ou mais…

Existe, de facto, um aumento das infeções por VIH nas pessoas com mais de 50 anos que não é ainda preocupante do ponto de vista epidemiológico. Ainda não há muita informação sobre o fenómeno, mas é consensual que o uso de medicamentos para a disfunção eréctil, nesta população, e o facto de permitirem ter uma vida sexual ativa até mais tarde, pode ter um papel crucial neste aumento.

Quem deve fazer testes e com que regularidade?

Todas as pessoas que têm uma vida sexual ativa devem testar-se para a infeção pelo VIH pelo menos uma vez por ano, independentemente de serem casados, fiéis, etc. Quando se tem um comportamento de risco (sobretudo sexo oral e anal sem uso de preservativo) deve fazer-se um teste três meses a seguir ao comportamento de risco ou, se houver sintomas, recorrer a um médico.

Onde podem ser feitos?

Através do médico de família ou num Centro de Deteção do VIH (antigos CAD), que existem em todos os distritos. Além disso existem associações e organizações de base comunitária que oferecem testes rápidos. Tanto os ex-CAD como estas organizações oferecem testes rápidos para o VIH (o resultado é dado entre uma hora a 30 minutos) de forma gratuita, anónima e confidencial. Um diretório online permite localizar o local mais próximo, excluindo hospitais é o www.redederastreio.pt.

Já é banal os médicos incluírem esta análise quando prescrevem as de rotina?

Não é ainda banal a prescrição pelo médico de família do teste para a infeção pelo VIH. Pelo contrário, há relatos de médicos que até desencorajam a pessoa por acharem que não está em risco… Sempre que o médico nos prescreve exames de rotina devemos certificar-nos de que este teste está incluído.

Há sinais de alerta que levem as pessoas a ir fazer o exame?

Os sintomas de infeção pelo VIH não são exclusivos. Pelo contrário, existem muitas doenças cujos os sintomas são exatamente os mesmos. Por outro lado, há muitas pessoas que, quando se infetaram, não sentiram nenhum tipo de sintomas. Assim, os sintomas por si só não são suficientes para diagnosticar a infeção. No entanto, após uns dias ou semanas a seguir a um comportamento de risco (sobretudo sexo oral e anal sem uso de preservativo), febre muito alta (acima dos 38º) e dores articulares semelhantes às de uma gripe podem ser sinal de alerta.

O facto de ser hoje uma doença crónica não levará as pessoas a protegerem-se menos?

É uma teoria bastante falada mas não existem estudos que o demonstrem.

 

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