Mulheres com cancro da mama podem vir a evitar quimioterapia

Milhares das mulheres com a forma mais comum de cancro da mama poderia evitar fazer quimioterapia sem afetar as suas hipóteses de vencer o cancro.

Esta é a conclusão do maior estudo alguma vez realizado sobre tratamentos ao cancro da mama, desenvolvido pelo ECOG-ACRIN Cancer Research Group e publicado na revista científica New England Journal of Medicine.

Os testes genéticos realizados mostram que a maioria das mulheres não necessitam de tratamento, além da cirurgia e dos bloqueadores hormonais e que a quimioterapia não melhora a sobrevida.

A investigação acaba também por salientar a importância dos rastreios, já que as conclusões incidem sobre cancros em estádio inicial, antes de se espalhar pelos gânglios linfáticos, alimentado por hormonas e que não é alvo do medicamento Herceptin.

O estudo envolveu 10,273 mulheres com cancro da mama, em 1,182 locais dos Estados Unidos da América, na Austrália, no Canadá, na Irlanda, na Nova Zelândia e no Peru.

Só nos EUA, a investigação mostra que seria possível poupar cerca de 70 mil doentes que todos os anos, naquele país e em outros locais, passam por esta provação e têm despesas com estes medicamentos.

Genética cada vez mais determinante no tratamento individual

Entretanto um estudo conduzido por uma equipa de investigadores do Texas, revela que os tratamentos que atacam os tumores cancerígenos em função de suas características genéticas individuais aumentam significativamente a sobrevivência do doente.

A investigação, citada pela AFP, salienta que nem todos os cancros de mama, fígado ou outros são iguais, explicam os investigadores. Durante anos, os pesquisadores multiplicaram o sequenciamento de tumores, principalmente os resistentes aos tratamentos habituais, para encontrar mutações genéticas num paciente específico e adaptar o medicamento que lhe será administrado.

Estes tratamentos dirigidos são considerados promissores e não são novidade, mas faltava até agora confirmar estatisticamente se são mais eficazes, desafio que uma equipa de investigadores do Texas se propôs abraçar em 2007, através de um estudo alargado denominado “Impact”.

Os pesquisadores recrutaram 3.743 doentes tratados no centro oncológico MD Anderson, no Texas, de 2007 a 2013. Todos tinham cancro em estágio avançado, principalmente de mama, pulmão ou gastrointestinal.

Do total, 711 foram tratados com um medicamento adaptado a uma mutação genética identificada entre eles. Um segundo grupo, de 596, seguiu o protocolo padrão, principalmente porque não havia disponível nenhum tratamento geneticamente adaptado para seus casos.

Depois de três anos, 15% dos que receberam terapias moleculares específicas estavam vivos, em comparação com 7% no grupo de pacientes que seguiram o tratamento tradicional. Depois de 10 anos, 6% dos pacientes do grupo objetivo estavam vivos, contra 1% do outro grupo.

“Este é o primeiro e maior estudo que mostra que os tratamentos adaptados às mutações genéticas dos tumores em pacientes com cancro avançado aumentam a sobrevivência”, resume Catherine Diefenbach, oncologista do Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, citada pela AFP.

A médica, que não participou no estudo, adverte, no entanto, que “o sequenciamento não é um tratamento milagroso”, mas manifesta sinais de otimismo na nova terapia. “Em média, as terapias específicas aumentaram a sobrevivência dos pacientes em nove meses, em comparação com os 7,3 meses dos tratamentos habituais”, resume.

A principal autora da investigação, Apostolia Tsimberidou, disse à AFP que o novo método “melhora a cada ano”, abrindo novos horizontes para os tratamentos. “No começo, só podíamos trabalhar num ou dois genes. Hoje podem ser detetadas centenas de mutações”, explica.

Apostolia Tsimberidou espera que, no futuro, “os testes genéticos dos tumores e os exames de ADN venham a tornar-se a norma no momento do diagnóstico, o que deverá ajudar os pacientes desde o começo, principalmente nos cancros difíceis”.

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AT/Lusa