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Mulheres israelitas e palestinianas reúnem-se pela paz

Cinco mil mulheres israelitas e palestinianas reuniram-se este domingo junto ao mar Morto para formar um parlamento de Mulheres Ativas Pela Paz, convictas de que a solução para o conflito está nas suas mãos e não nas dos políticos.

“Temos muita experiência na guerra e nenhuma na paz; chegou a hora de a adquirir”, disse à agência noticiosa espanhola Efe Tami Avigdor, membro do movimento Mulheres Ativas Pela Paz, que tem já 27.000 sócias em Israel e nos territórios palestinianos.

Trata-se de um grupo de mulheres, em muitos casos vítimas do conflito israelo-palestiniano, de todo o espetro político e social: desde as evidentes judias esquerdistas ex-hippies, passando por colonas de cabelo coberto, muçulmanas praticantes, algumas das quais com as ‘hijab mais severas, judias sionistas de direita, palestinianas ateias, etc..

A assoiaçaõ Mulheres Ativas Pela Paz nasceu no verão de 2014, durante a guerra entre o Hamas e Israel a que este chamou operação Protetor de Margens, na qual 73 israelitas e 2.200 palestinianos morreram nos 50 dias de conflito.

Hoje juntaram-se em duas tendas gigantescas, no que batizaram como Kfar HaShalom (Aldeia da Paz, em hebraico), na margem norte do mar Morto. Chegaram em mais de 70 autocarros fretados para a ocasião, de todos os pontos de Israel e da Cisjordânia e, como sempre nestes encontros, as mulheres israelitas temeram até ao último momento que as palestinianas dos territórios ocupados não pudessem passar nos postos de controlo militares. Mas as que vinham de Ramallah, Nablus, Hebron e Belém chegaram.

“É um dia histórico, hoje culmina a marcha de duas semanas que empreendemos a todo o comprimento e largura do país”, disse Walifait Haider, de Haifa.

Parlamento alternativo
A marcha que fazem todos os anos desde a sua fundação, há três, exige aos políticos um acordo de paz vantajoso para ambas as partes.

Para contribuir para que tal aconteça nos próximos dias, formar-se-á em Jerusalém um parlamento alternativo de 120 mulheres que representará todas estas mães e filhas do conflito, que entendem que têm de tomar as rédeas das decisões políticas ou, pelo menos, pressionar o suficiente para que alguma coisa seja feita.

“Não acredito na liderança masculina, exercem-na mal, causam mais problemas que o necessário e já o demonstraram ao longo dos séculos”, sustentou Yeila Raanan, do kibutz Kisufim, a um quilómetro e meio da Faixa de Gaza.

Como Raanan, as participantes do movimento Mulheres Ativas Pela Paz pensam que as mulheres pagam um preço muito elevado pelas guerras e que, por isso, têm maior interesse em acabar com elas.

“O meu marido e o meu irmão estão em prisões israelitas, um dos meus filhos foi detido em diversas ocasiões por atirar pedras e coisas, e eu realmente não quero que os meus netos nasçam num mundo assim. Por isso estou aqui”, explicou Saida, de Hebron.

Uma vez constituído o parlamento alternativo das mulheres, as israelitas e palestinianas assinarão um acordo de paz que consideram útil e válido e levá-lo-ão ao Knesset (parlamento israelita) como proposta de trabalho.
Bem-vindas entre os partidos

A marcha deste ano das ativistas foi bem recebida pelos vários autarcas das cidades por onde passaram, tanto os do Likud (partido no Governo) como os do centro e da esquerda.

“Foi muito surpreendente que nos tenham acolhido de modo tão caloroso e saudado a nossa iniciativa — surpreendente e emocionante”, observou Tami Avigdor.

Sob as gigantescas tendas, as mulheres, na maioria vestidas de branco, conversavam, abraçavam-se, dançavam, comiam. Algumas levaram os filhos pequenos, outras estavam acompanhadas dos maridos e filhos adultos solidários.

Havia painéis de debate e ouvia-se hebraico, árabe e inglês quase indistintamente, umas traduzindo para as outras quando era necessário.

Entre a assistência, havia igualmente mulheres de todo o mundo, atraídas pelo movimento, chinesas, australianas, espanholas, tailandesas que, juntamente com as palestinianas e israelitas cantaram a “Oração das Mães”, da cantora israelita Yael Deckelbaum, que compôs o hino para este movimento.