“Ninguém na Arábia Saudita é obrigado a cobrir o rosto com o niqab”

Leonídio Paulo Ferreira esteve na Arábia Saudita em reportagem para o Diário de Notícias e trouxe para o Delas esta entrevista feita em Riade com Samareh Mously, uma jovem técnica de comunicação entusiasmada com as mudanças no reino mas que, curiosamente, não tem grande pressa em tirar a carta de condução, possível já a partir de junho.

É saudita, tem 30 anos, solteira e sem filhos. Em que área trabalha?

Trabalho na área da comunicação. Antes estive em grandes empresas como a Procter & Gamble.

Mas sempre na Arábia Saudita?

Sim.

Nasceu aqui em Riade?

Não. Sou de Jidá, na parte ocidental do reino.

Recentemente houve uma série de notícias positivas para as mulheres na Arábia, como a promessa de uma lei que lhes permite conduzir já a partir do verão. Está entusiasmada com estas mudanças promovidas pelo rei Salman e o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman?

Estou entusiasmada, claro, e acho que é muito importante. No meu caso, acho que vou continuar a usar a Uber porque é mais confortável. Mas sim, as mulheres poderem conduzir é muito importante, porque facilita a vida em termos de transporte, sobretudo para o trabalho e cada vez mais mulheres sauditas estão a entrar no mercado de trabalho. Torna tudo mais fácil.

Muitas das críticas feitas à Arábia Saudita é que é um país tão conservador que é o único no mundo a proibir as mulheres de conduzir. Com esta mudança acredita que melhorará também a imagem internacional do seu país?

Sim. Mas ao mesmo tempo falar sempre da proibição de conduzir como sinónimo dos direitos das mulheres é errado. Eu trabalho há sete anos e sempre em grandes empresas multinacionais e tenho uma vida muito normal. Como disse, uso Uber ou recorro às vezes ao motorista da minha família. Não só trabalho como levo uma vida social normal. Mas de qualquer forma é mesmo muito boa esta vaga de reformas, muito esperada.

Estudou em Jidá?

Não. Na realidade, fiz os meus estudos na Universidade Americana do Cairo. Sempre houve muitas bolsas para os jovens sauditas estudarem fora. Ambos os meus pais também tiveram bolsas e estudaram nos Estados Unidos, mas eu optei pelo Egito.

Não cobre o rosto. Na sua família é essa a prática?

Sim, ninguém na Arábia Saudita é obrigado a cobrir o rosto com o niqab. Usamos a abaya sim, que é obrigatória, e também o hijab a cobrir o cabelo. Muito disto é cultural. A minha mãe mesmo nos Estados Unidos cobria o cabelo, mas nunca o rosto.

E entre as suas amigas, conhece casos de mães que cobrem o rosto e filhas não?

Há de tudo um pouco. Se for a Jidá, que é uma cidade muito aberta, verá que quase ninguém cobre o rosto. Não é obrigatório pelo islão, é algo mais cultural. Riade é mais conservadora e tradicional e vê-se muito mais mulheres com o niqab.

Há diferença de direitos entre uma mulher casada e uma solteira?

Não, de maneira nenhuma.

Uma saudita pode viajar livremente?

Claro. Eu viajo muito, até por razões de trabalho. Estive nuns 20 países nos últimos anos.

Está a dar esta entrevista porque quer dar uma imagem mais positiva da Arábia Saudita?

Não. Estou a dar esta entrevista e a falar da minha própria realidade. E que é a realidade de muitas mulheres na Arábia Saudita.

Está confiante no futuro do seu país?

Absolutamente. Acredito que este país tem um grande potencial e muitos recursos que podem ser melhor usados, especialmente os recursos humanos.

O sistema monárquico saudita faz com que se sucedam ao longo dos tempos reis muito idosos, irmãos um dos outros e filhos do fundador do país. O rei Salman tem 82 anos. Mas agora o príncipe herdeiro, seu filho, é de outra geração e tem apenas 32 anos. Significa que a liderança está mais em sintonia com os jovens?

Sim. Creio que 70 ou 75% dos sauditas têm menos de 30 anos e por isso o governo está a saber interpretar o que pensa o país.

 

Leonídio Paulo Ferreira