Olga Roriz: “Fui vítima de violência por parte de um homem”

É reconhecida há mais de 40 anos como bailarina, coreógrafa e diretora artística, atividades que alargou às áreas do teatro, da ópera e do vídeo. No festival Dias Da Dança, a decorrer no Porto até 12 de maio, estreia mais uma peça, A Meio da Noite, um tributo ao dramaturgo e cineasta Ingmar Bergman. Ao Delas.pt, Roriz, 62 anos, fala da vida e do que a leva a continuar a criar. Uma conversa em véspera de se evocar o dia Mundial da Dança, assinalado este domingo, 29 de maio.

O que levou a que uma menina de apenas três anos fizesse com que a mãe e a irmã mudassem de Viana de Castelo para Lisboa?

Ela viu em mim a possibilidade de realizar o seu desejo de entrar no mundo das artes. Algo que também devo a um pai muito sensível – principalmente para aquela época -, compreensivo e que não se importou de ficar a trabalhar nos estaleiros de Viana do Castelo e de só nos ver aos fins de semana. Acho que contou muito o alter ego da minha mãe, que sempre adorou teatro e quis ser atriz, mas claro que não pôde. Quem é que era atriz nos anos 50?

Como se deu a mudança?

Eu era tão nova que foi muito simples. De início, a minha mãe procurou um colégio, o Colégio Príncipe Carlos e Princesa Ana, onde havia uma professora de dança, a Georgina Villas Boas. Depois, procurou uma verdadeira escola de dança, onde trabalhei com a professora Margarida de Abreu, aos seis anos de idade. Entretanto, ela disse à minha mãe que eu era uma menina especial e que devia ser encaminhada para a escola do Teatro Nacional de São Carlos.

Diz muitas vezes que esteve sempre à hora certa na altura certa…

Sim. No São Carlos tive como professora Anna Ivanova, que tinha sido bailarina na Companhia da Pavlova. O Teatro era um dos mais concorridos da Europa e eu pude não só ter uma formação excecional, como andava sempre por ali e era tudo aberto. Podíamos assistir aos espetáculos todos. Vi os bailarinos Rudolf Nureyev, Margot Fonteyn, Martha Graham… Ainda vi o Dominique Mercy no Ballet-Théâtre Contemporain. Tanto assistia às Bodas de Fígaro de Mozart, como à Lulu de Wedekind. Aquilo marcou-me de uma maneira muito forte. Mais tarde, também fazíamos parte do repertório, o que, em termos de formação, foi muito enriquecedor.

Imagem do mais recente trabalho de Roriz [Fotografia: Sérgio Claro]

Essa exposição a outras formas da dança foi o que a levou a não seguir uma carreira como bailarina clássica?

Gosto de ballet clássico, mas encontrei outras linguagens com as quais me consigo exprimir de forma mais completa, não tão formatada. Sou uma bailarina contemporânea, gosto de me sentir livre, menos rígida nos meus movimentos, o meu corpo é mais ligado à terra. Além de que, logo a seguir ao São Carlos, tive a oportunidade de concluir o Conservatório e entrei para o Ballet Gulbenkian, aos 20 anos. Mas, ao longo de vários anos, tenho coreografado para a Companhia Nacional de Bailado. Nunca me afastei do clássico.

“Faz todo o sentido para mim que, como espetadora, seja muito mais assídua no cinema e teatro que na própria dança”

E também coreografa óperas e teatro…

A partir dos anos 80, vários encenadores sentiram necessidade de acrescentar novas linguagens às suas peças, queriam trabalhar mais com o corpo, o vídeo, com a voz e até com bailarinos. Encenadores como o João Perry, João Brites, Carlos Avilez e Adriano Luz pediram-me para trabalhar com eles em várias peças, repetidamente. Foi uma época muito interessante do ponto de vista criativo. Depois fui assistente de dramaturgia em peças como Crimes Exemplares, de Max Aub, para o Teatro Plástico e a Ópera Perséfone, de Igor Stravinsky, no Teatro São Carlos. Mas faz todo o sentido para mim que, como espetadora, seja muito mais assídua no cinema e teatro que na própria dança.

E agora vai regressar à ópera?

Sim, e é assustador. Vou fazer o Barba Azul e A Voz Humana de Cocteau para uma produção do Teatro São Carlos… local onde participava, tão novinha e às vezes, junto de grandes nomes como Montserrat Caballé. Estou muito nervosa porque deu-se uma total inversão de papéis. É um grande desafio.

A Olga sempre quis coreografar, mesmo quando era uma jovem bailarina do Ballet Gulbenkian. Porquê?

Penso que nasci assim. Quando perguntei à minha mãe quem é que fazia as danças para os bailarinos, e ela respondeu-me: “são os coreógrafos”. Então, disse-lhe: “quero ser isso”, sem sequer conseguir pronunciar a palavra. Devia ter uns três ou quatro anos.

[Fotografia: Estelle Valente]

Como se deu o processo?

No Conservatório, já estava sempre a coreografar, mas era outra coisa. Depois entrei no Ballet Gulbenkian como intérprete, só que os ateliês coreográficos intimidavam-me. Sempre fui tímida, menos com o corpo. Apenas com a entrada do bailarino Gagik Ismailian é que ganhei coragem. Juntamo-nos, fizemos duas ou três coreografias e tudo começou. Por outro lado, também não me sentia preenchida com aqueles corpos etéreos, esvoaçantes e com os guarda-roupas que ninguém usava na vida real. Procurava algo mais terreno, com histórias profundas para contar.

E não foi a brincar, começou logo com a Nina Hagen!

(Risos) O Jorge Salaviza, que é o meu grande padrinho, disse: “Punk rock alemão aqui?! Não, vamos procurar outra música…” E deu-me algo do Lopes-Graça, de que não gostei nada. “Está bem, faço isto, mas posso fazer também a Nina Hagen?”, disse-lhe. E fiz, em dois dias.

“Nunca haverá igualdade de géneros. Nem daqui a 300 mil anos”

E assim começou uma nova fase na própria companhia. Sentiu mais dificuldades em se afirmar por ser mulher?

Não. Claro que, na altura, havia sobretudo diferenças a nível salarial mas, por outro lado, eu era um bocadinho mimada pelo Salaviza. Na minha ingenuidade, via os homens e mulheres na mais completa igualdade. Tanto que criei coreografias como Treze gestos para um corpo, que ora era dançada por 13 mulheres, ora por 13 homens com os mesmos movimentos e o mesmo guarda-roupa.

Porque fala em ‘ingenuidade’?

Porque os homens e as mulheres são e sempre serão diferentes. Para o melhor e para o pior. Nunca haverá igualdade de géneros. Nem daqui a 300 mil anos. As violações vão continuar a acontecer por muito tempo a não ser que andemos protegidas por outro homem. E isso fará sentido?

Não será excesso de pessimismo?

É a realidade. Não quer dizer que não se evolua ao nível dos direitos laborais, dos direitos humanos, mas os homens têm uma coisa que é a testosterona, que os torna muito agressivos, sobretudo sexualmente. E que às vezes não podem controlar, o que é mau. Não tenho nada a dizer dos meus companheiros. Se não, também não o teriam sido mais que um dia, mas fui vítima de violência por parte de um homem e, forte como sou, percebi que podia morrer, completamente impotente.

Mas diz que não se considera feminista?

Não, seria estar a assumir que ainda é necessário sê-lo.

“Se estiver indecisa, normalmente opto por uma mulher porque acho que elas ainda precisam de mais oportunidades”

Parece um contrassenso…

Sim e, se for a ver, sem contar com os bailarinos, a minha equipa é toda formada por mulheres. Se estiver indecisa, normalmente opto por uma mulher porque acho que elas ainda precisam de mais oportunidades.

Foi quando se deu conta da diferença inevitável entre os homens e as mulheres que os tornou seres mais sensíveis em palco?

Não. Pelo menos conscientemente. Fez parte do meu crescimento como pessoa ver que todos temos momentos de maior ou menor fragilidade durante a nossa vida. E que existem diferentes formas de as manifestar.

[Fotografia: Veríssimo dias]
Se profissionalmente ser mulher pareceu-lhe uma viagem natural, pessoalmente ser mãe foi complicado.

Só da primeira vez, mas por motivos familiares. É claro que por força da profissão não podemos engordar 20 quilos, ficamos pelos dez, e depois, passado pouco tempo, temos de voltar a fazer exercício, o que é difícil fisicamente. De resto, há que lidar com as tarefas que as outras mulheres têm que lidar. Mas da primeira vez que casei, foi uma disrupção complicada. Com o pai da minha filha houve uma separação quase imediata, porque ele pensava que eu ia deixar de dançar. Em 15 minutos percebi que a pessoa com quem me tinha casado não me conhecia. Além de que tinha casado com uma família inteira. Eu era muito nova, tinha 19 anos, e tive que pedir ao meu pai para me vir buscar. Perdi durante muito tempo o contato com a minha filha. Foi muito duro.

“Este é um conselho que deixo a todos os pais: sejam felizes para que os filhos também o possam ser”

Mas não considerou deixar de dançar?

De maneira alguma. Felizmente, tive o privilégio de ir pouco depois para o Ballet Gulbenkian, o melhor sítio do país para se poder ter uma profissão destas, e rapidamente passei a ser independente. Hoje, a minha filha, que é também uma grande amiga, diz-me: “Ainda bem que percorreste o teu caminho, porque, se não hoje não serias a mãe de que tanto me orgulho.” Este é um conselho que deixo a todos os pais: sejam felizes para que os filhos também o possam ser. Da segunda gravidez, com o pai, um homem do teatro, o Nuno Carinhas, eu já tinha 33 anos, tudo foi diferente e correu lindamente.

A dança esteve sempre à frente de tudo?

Ela já estava, nunca tive que a pôr à frente de nada. Não sonhava ser bailarina, já era. Aquilo era a minha vida. As outras coisas é que não eram a minha vida, e tinham que se encaixar. Sempre foi assim. Até hoje. Veja, uma pessoa que está dez anos a dançar no Teatro de São Carlos sofre todos os dias, abdica de muita coisa. Não pode abdicar daquilo que já é. E há milhares de bailarinas por esse mundo fora a ter filhos. Não fazia sentido eu deixar de ser eu.

Agraciada com a distinção honoris causa pela Universidade de Aveiro em 2017 e com o prémio “Mulheres mais influentes de Portugal” da revista Executiva em 2016, entre dezenas de outros prémios internacionais, o que ainda tem por fazer?

Ter um espaço onde possa apresentar as peças da minha companhia. Claro que estou muito agradecida à Câmara pela cedência do Palácio Pancas Palha, onde tenho estúdios para ensinar e criar, mas gostava muito de ter um teatro, mesmo que compartilhado, para levar a cena os trabalhos da Companhia Olga Roriz. Portugal é o país com mais teatros per capita, mas todos terão público? Repare, não estou a apontar o dedo a ninguém, mas uma equipa de produção pode fazer milagres a consegui-lo. E nem todas as Câmaras têm capacidade para o poder fazer.

Para este festival Dias Da Dança escolheu homenagear Ingmar Bergman com a peça A Meia Noite (em cena no Teatro Nacional São João até 29 de abril). Porquê?
Adoro toda a filmografia do Bergman desde há muitos anos e pensei que este evento seria ideal para lhe fazer um tributo. O cinema dele reflete sobre o que o meu trabalho reflete: o medo, a solidão, a relação entre os homens e as mulheres, a vida e a morte.

Sara Raquel Silva

Imagem de destaque: Veríssimo Dias