Pré-publicação: ‘Uma Mãe Perfeita’, um thriller de leitura compulsiva

Uma Mãe Perfeita é um dos livros mais aguardados do ano. O romance de estreia da autora Aimee Molloy é um thriller protagonizado por quatro amigas que recentemente se tornaram mães.

Chega às livrarias portuguesas a 8 de maio, alguns dias após a publicação da edição original, que já está traduzida para 15 línguas e tem a adaptação ao cinema em curso, contando com a atriz Kerry Washington (protagonista da série Scandal) no principal papel.

Neste domingo, Dia da Mãe, o Delas.pt, em parceria com a editora Asa, pré-publica um excerto do livro Uma Mãe Perfeita, que pode ler em baixo:

PRÓLOGO DIA DA MÃE 14 DE MAIO

Joshua
Acordo, febril. A claraboia acima de mim palpita com a chuva e eu estendo os dedos como pernas de aranha pelos lençóis e lembro-me de que estou sozinha. Fecho os olhos e arranjo maneira de voltar a dormir, até acordar de novo, invadida por uma dor profunda e súbita. Tenho andado a acordar com uma sensação de náusea todas as manhãs desde que ele partiu, mas sei imediatamente que isto é diferente.

Passa-se algo de errado.

Custa-me andar, e rastejo da cama, pelo chão, que está com areia e pó. Encontro o telemóvel na sala de estar, mas não sei a quem telefonar. Ele é a única pessoa com quem quero falar. Preciso de lhe contar o que está a acontecer e ouvi-lo dizer que está tudo bem. Preciso de lhe recordar, só mais uma vez, o quanto o amo.

Mas ele não vai atender. Ou pior, vai atender e zangar-se comigo ao telefone, dizer-me que não vai continuar a suportar isto, avisar-me que, se alguma vez eu lhe voltar a telefonar, ele…

A dor ataca-me as costas com tanta força que não consigo respirar. Espero que passe, pelo momento de alívio que me foi prometido, mas ele não vem. Não é isto que os livros diziam que aconteceria, nada como aquilo com que o médico me disse para contar. Diziam que seria gradual. Que saberei o que fazer. Que vou cronometrar as coisas. Sentar-me na bola de ioga que comprei em segunda mão. Ficar em casa o máximo de tempo possível, evitar as máquinas, os medicamentos, todas as coisas que fazem no hospital para levar o bebé a nascer antes de o corpo estar pronto.

Não estou pronta. Ainda faltam duas semanas para o fim do tempo, e eu não estou pronta.

Concentro-me no telemóvel. Não é o número dele que marco, mas o dela, o da doula – uma mulher com piercings chamada Albany com quem só me encontrei duas vezes.

Estou a assistir a um parto e não posso atender neste momento. Se estiver…

Rastejo com o portátil para a casa de banho e sento-me no chão de ladrilhos frios, com uma toalha humedecida no pescoço e o computador fino pousado nos contornos salientes do meu filho. Abro o email e começo a escrever uma nova mensagem para elas, as Mães de Maio.

Estou na dúvida se isto é normal. As minhas mãos tremem enquanto escrevo. Sinto náuseas. A dor é intensa. Está a acontecer demasiado depressa.

Não vão responder. Estão a jantar fora, a comer qualquer coisa picante para apressar o seu trabalho de parto, a beberem goles da cerveja dos maridos à socapa, a desfrutarem de um serão tranquilo juntos, algo com que as mães com experiência nos avisaram que não devíamos voltar a contar nunca mais. Não vão ver o meu email até de manhã.

O aviso de chegada de um email soa imediatamente. A querida Francie. Está a começar! escreve ela. Cronometra as contrações e pede ao teu marido que te faça pressão constante no fundo das costas.

Como é que vai isso? escreve Nell. Passaram vinte minutos. Ainda o sentes?

Estou deitada de lado. Custa-me escrever no computador. Sim.

A casa de banho fica às escuras e quando volta a luz – daí a dez minutos, daí a uma hora, não faço ideia – sinto uma dor surda a despontar de um galo na testa. Volto a rastejar para a sala de estar, a ouvir um ruído, um uivo de animal, antes de me aperceber de que o som vem de mim. Joshua.

Consigo chegar ao sofá e encostar as costas às almofadas. Ponho a mão entre as pernas. Sangue.

Visto uma gabardine fina por cima da camisa de noite. De alguma maneira, consigo descer as escadas.

Por que não fiz a mala? Todas as Mães de Maio escreveram tanto sobre o que meter na mala, e no entanto a minha ainda está no armário do quarto, vazia. Sem um iPod com música relaxante, sem água de coco, sem óleo de hortelã-pimenta para as náuseas. Sem sequer uma cópia impressa do meu plano de parto. Seguro a barriga à luz de um lampião até chegar o táxi e entro para o assento traseiro húmido, tentando não reparar na expressão perturbada do rosto do motorista.

Esqueci‑me do fato para a saída do hospital que comprei para o bebé.

No hospital, alguém me indica o sexto andar, onde me dizem que aguarde na sala de triagem. – Por favor – digo por fim à mulher que está sentada à secretária. – Sinto muito frio e tonturas. Pode chamar a minha médica?

A minha médica não está de serviço esta noite. É outra médica da clínica, uma que não conheço. Sinto-me dominada pelo medo quando me sento e começa a sair de dentro de mim para a cadeira de plástico verde um líquido que cheira a terra, como a lama no quintal que a minha mãe e eu costumávamos remexer à procura de minhocas quando eu tinha seis anos.

Vou até ao corredor, decidida a manter-me em movimento, de pé, a recordar o rosto dele quando lhe contei. Ficou furioso, insistiu que eu o tinha enganado. Exigiu que me livrasse do bebé. Isto vai dar cabo de tudo, disse. Do meu casamento. Da minha reputação. Tu não me podes fazer isto. Não to permito.

Não lhe disse que já tinha visto a luz verde a piscar dos batimentos do coração, que ouvira o seu ritmo, uma corda de saltar a girar rapidamente, emanando das colunas no teto. Não lhe disse que nunca quis tanto nada como quero este bebé.

Uns pulsos fortes levantam-me do chão. Grace. É o que diz no crachá de identificação dela. A Grace leva-me para um quarto, com as mãos à volta da minha cintura, e diz-me para me deitar na cama. Resisto. Não quero deitar-me na cama. Quero saber que o bebé está bem. Quero que a dor passe.

– Quero uma epidural – digo.

– Lamento – diz a Grace. – É demasiado tarde. Agarro nas mãos dela, ásperas por as lavar muito com o sabão e a água do hospital. – Não, por favor! Demasiado tarde?

– Para a epidural.

– Parece-me ouvir passos no corredor a correrem na direção do meu quarto.

Parece-me que o ouço chamar por mim.

Cedo e deito-me. É ele. É o Joshua, a chamar-me no escuro. A médica está aqui. Está a falar comigo e estão a pôr qualquer coisa à volta do meu bíceps, a espetar-me suavemente uma agulha debaixo da pele, na curva do braço, como lâminas de patins sobre o gelo. Estão a perguntar quem veio a acompanhar-me, onde está o meu marido. O quarto roda à minha volta e sinto o cheiro. O líquido que se escoa de mim. Como terra e lama. Sinto os ossos a fenderem-se. Sinto-me a arder. Algo deve estar errado.

Sinto a pressão. Sinto o fogo. Sinto o meu corpo, o meu bebé, a rasgar-se em dois.

Fecho os olhos.

Faço força.

 

CAPÍTULO UM
CATORZE MESES DEPOIS

PARA: Mães de Maio
DE: As vossas amigas no The Village
DATA: 4 de julho
ASSUNTO: Conselho de hoje
O TEU BEBÉ: AOS CATORZE MESES Em honra do feriado, o conselho de hoje é sobre independência. Já reparaste que o teu pequerrucho, antes todo destemido, subitamente sente medo de tudo quando estás longe da vista? O adorável cão do vizinho é agora um predador aterrador. A sombra no teto tornou‑se um fantasma sem braços. É normal que o teu bebé comece a pressentir o perigo no seu mundo, e cabe‑te agora a ti ajudá‑lo a conquistar estes medos, fazê‑lo saber que está em segurança e que, mesmo que a mamã esteja longe da vista, estará sempre lá para o proteger, aconteça o que acontecer.

Como o tempo passa depressa.

Era o que as pessoas andavam sempre a dizer-nos, pelo menos; as mãos de estranhos nas nossas barrigas, a dizer-nos como devíamos ter o cuidado de desfrutar desse tempo. Como tudo acabaria num abrir e fechar de olhos. Como, sem darmos conta da passagem do tempo, eles começariam a andar, a falar, a deixar-nos.

Já lá vão quatrocentos e onze dias e o tempo não passou nada depressa. Tenho andado a tentar imaginar o que o doutor H diria. Por vezes, fecho os olhos e imagino-me no consultório dele, quase no fim da consulta, com o paciente seguinte a bater ansiosamente com o pé no chão da sala de espera. Tem tendência para matutar nas coisas, diria ele. Mas, o que é interessante, nunca nos aspetos positivos da sua vida. Pensemos nesses.

As coisas positivas.

O rosto da minha mãe, como parecia tranquilo por vezes, quando estávamos só as duas, no carro a ir às compras; a caminho do lago.

A luz nas manhãs. A sensação da chuva.

Aquelas tardes preguiçosas de primavera, sentada no parque, com o bebé a dar cambalhotas dentro de mim, os meus pés inchados a transbordarem das sandálias como pêssegos demasiado maduros. Antes de todo o problema começar, quando o Midas não se tornara ainda o Bebé Midas, a causa mais recente de toda a gente, quando era só mais um recém-nascido em Brooklyn, um entre milhões, nem mais nem menos extraordinário do que a cerca de uma dúzia de bebés com futuros brilhantes e nomes esquisitos adormecidos no círculo interior de um encontro das Mães de Maio.