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Solange Dessimoulie: “Somos belos ao olhar dos outros, apenas”

Quando Solange Dessimoulie criou a marca de beleza Decléor, nos anos como 70, foi pioneira na utilização de extratos naturais. E revolucionou completamente o mercado. Solange cresceu no campo e quando chegou a Paris percebeu que as mulheres de 60 anos que conhecia eram muito diferentes das parisienses da mesma idade. Ao percorrer o mundo constatou que havia grandes diferenças na conservação e beleza da pele. Quis perceber porquê, chegando à conclusão que tudo tinha a ver com o bem-estar e harmonia entre corpo e mente. Quando fundou a Decléor foi essa harmonia que quis encontrar com as propriedades dos óleos naturais e a espiritualidade das artes marciais que inspiram as técnicas de massagem por ela criadas. Sendo a Decléor uma das novas marcas da L’Oreal a entrar no mercado português, falámos com a fundadora.

Solange

 

Por que razão decidiu lançar a sua própria marca de beleza?
Eu trabalhei para as maiores marcas de cosméticos até ao dia em que tive problemas de pele. Grandes problemas de pele que me levaram até ao hospital para a unidade dos queimados de terceiro grau. Nesse hospital encontrei grandes dermatologistas que me fizerem olhar para a pele através de instrumentos e isto alterou por completo a minha visão da beleza. Na altura em que eu trabalhava para as grandes marcas da cosmética, os produtos eram à base de ingredientes de origem animal, de colagénio, enfim… Quando eu vi a pele e percebi que ela é o computador mais extraordinário que há, como funciona e o que é, e que é o nosso cartão de visita, porque cobre o nosso corpo todo e isso é muito importante. Não podes colocar um produto qualquer na tua pele, é por isso que é importante aplicar produtos o mais naturais possível, que se adaptem perfeitamente à pele. A Decléor lançamos muito cedo os produtos naturais, numa altura em que a moda não era essa.

O que é que a assustou mais quando aos 28 anos decidiu começar uma marca sua, completamente diferente de tudo o que existia na altura?
Não tive receios, a não serem os concorrentes que eram muito maus, eram verdadeiros papões na altura. Quando se inicia alguma coisa na vida, temos uma fé de tal forma grande e acreditamos tanto, há um entusiasmo tal, e estamos tão certos dos resultados, que embora tenhamos pais que nos dizem para ter cuidado, que não temos dinheiro para a nossa ideia, que não vai dar certo, nada nos para. Eu foquei-me, acreditei e fui em diante. Quando somos jovens é necessário iniciar projetos porque se não tivermos sucesso, podemos iniciar outro novo. Se esperamos demasiado tempo também não temos sucesso, nem tempo depois para novos projetos. Quando acreditamos temos de nos lançar, aconteça o que acontecer, a fé é muito importante. Foi preciso acreditar muito e fazer muitos testes, o meu pai, a minha mãe, até o cão se sujeitou a fazer testes no início, todos passaram pela minhas mãos.

Quanto tempo demorou desde a ideia até a marca ser lançada?
Foi bastante rápido a partir do momento em que tínhamos as pessoas certas. Nós não fazíamos demasiados produtos, começámos numa garagem, com uma máquina de 500 kg. Aquilo que é demorado é darmo-nos a conhecer. Foram precisos 16 anos para eu ter um nome no mercado, isso é que é muito longo. É muito mais demorado subir do que descer, podemos descer mesmo muito depressa.

Qual é o segredo para não se descer?
Isso é muito difícil de dizer porque podemos cair por não ter dinheiro, podemos ser vendidos e os seguintes não respeitar a filosofia da marca, podemos ser mal aconselhados…

Mas como se evita tudo isso?
Não sei como, é difícil. Mas tudo é uma experiência e uma lição independentemente de ser bom ou mau.

Foram necessários muitos erros para chegar aqui?
Sim, muitos.

Qual foi o maior de todos?
Eu sou uma criativa, o maior erro foi não tratar muito bem dos números e da parte contabilística. Não soube lidar com as duas coisas ao mesmo tempo, mas sou uma felizarda por ser uma criadora, não lamento nada.

O que é para si a beleza?
A beleza não significa nada para mim, porque é muito relativa. Nós Solan. A beleza é uma palavra muito difícil de definir porque significa coisas diferentes para cada uma das pessoas.

Mas para a Solange em particular o que significa?
Para mim a beleza é alguém que através da pele erradia luz, que se sente bem com o seu corpo e mente, independentemente da sua morfologia. Tem a ver com o bem-estar da pessoa e com a sua aceitação, é a alegria de viver todos os momentos, é ser positivo, é a benevolência, a generosidade. Toda a gente é bonita, do interior passa para o exterior a beleza através das suas palavras e dos seus gestos.

Tem algum segredo de beleza?
O meu segredo de beleza é antes de mais ter tempo para si, dedicar tempo a si próprio. A expressão “não tenho tempo”, é algo que quero banir do meu pensamento e das minhas palavras. Encontrar um tempo para si própria é muito importante. Pode ser um momento de leitura, um momento para ouvir música, um momento para saber parar e nos reencontrarmos.

Quais são os projetos futuros da Decléor?
Estamos a caminhar a pouco e pouco, não podemos revolucionar uma marca de forma imediata, há bases que respeitamos. Mas estamos a caminhar para o futuro, tanto do ponto de vista da formação das esteticistas, da educação da consumidora, da personalização dos produtos, e sobretudo um saber dar bem-estar à consumidora que será um saber único. Sabemos que o amanhã, num mundo extremamente difícil, pela política, pela economia, pelo ambiente, os cuidados estéticos terão um papel fundamental para as consumidoras, como forma de se reencontrarem e estarem bem consigo próprias. Quando uma pessoa está bem vive melhor os momentos difíceis, portanto estamos a reunir todas as condições para uma abordagem holística da beleza em todos os seus campos.

Margarida Brito Paes