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Cuidadora: “Tive o sentimento de ser filha e não poder falhar”

Cuidadora: "Tive o sentimento de ser filha e não poder falhar" [Foto:DR]

A minha mãe era quem cuidava de uma família inteira. Além de filhos, sobrinhas, irmãos e amigos, ela era o pilar de uma casa quando, de repente, em 2013, foi confrontada com uma doença incapacitante. Toda a estrutura familiar mudou. Tinha eu 30 anos e não estava preparada para abandonar o lugar confortável debaixo das asas da minha mãe, mas tive que me soltar e passar a cuidar.

O primeiro sentimento foi de desespero, de revolta e de impotência perante tal cenário. Eu trabalhava longe e não iria conseguir dar o apoio que ela iria precisar. Tive que faltar ao trabalho, tive que deixar de viver a minha própria vida e apenas passei a cuidar da minha mãe. Tive que responsabilizar o meu pai pelo bem-estar da minha mãe, passei momentos desesperantes e de uma insegurança tal que, por momentos, pensei em desistir do meu próprio trabalho. Não sendo essa uma opção, tive que me desdobrar e tentar estar sempre presente.

A principal questão que me surgiu quando eu tive que levar a minha mãe dependente para casa passava por perceber o que estava realmente envolvido. Estaria eu preparada? Não. Todos os sentimentos, emoções e a responsabilidade de dar o melhor a quem sempre cuidou tinham um peso muito grande na hora de tomar decisões. Fui confrontada com uma realidade desconhecida e desesperante, todas as rotinas e organização familiar foram alteradas.

“Foram vários os momentos de pânico vividos em torno de decisões que tive que tomar”, descreve Diana Maia

Claro que ser enfermeira permitiu-me antecipar e prevenir algumas complicações ao longo de todo o processo de dependência, mas quando falamos de uma família temos que pensar em todas os familiares que estão envolvidos na mudança e temos de capacitar todos os membros do agregado para o cuidar, e é aqui que surgem as principais dificuldades.

Os receios, a ansiedade, o desconhecido começam a fazer parte do dia-a-dia de quem cuida de alguém que ama. Eu passei por tudo isto. Tive a facilidade de conseguir chegar aos apoios de uma forma mais rápida? Sim, tive! Tive os conhecimentos técnicos para fazer as mudanças estruturais na casa? Sim, tive! Tive a capacidade de detetar precocemente alterações decorrentes da doença? Sim, tive! Mas sobretudo tive o sentimento de ser filha e não poder falhar. Foram vários os momentos de pânico vividos em torno de decisões que tive que tomar.


Veja alguns conselhos úteis que ajudam no cuidado de pessoas dependentes


Quando se sai de um hospital com algum nível de dependência diferente do inicial, ficam sempre dúvidas a pairar no ar, por mais apoio que a equipa médica, a assistente social, a equipa de enfermagem e todos os profissionais envolvidos prestem. A demora na resposta dos apoios na comunidade, os serviços existentes dispendiosos, a falta de informação e a dificuldade no acesso aos recursos surgem como os principais obstáculos para quem cuida.

Consegui capacitar o meu pai, procurei ajuda em familiares, vizinhos e apoio domiciliário, perdi o orgulho e dediquei-me com o máximo de amor. Proporcionei momentos felizes quando a dependência já era muito severa e consegui ser a pessoa mais feliz durante o ano que tive a minha mãe dependente. Percebi que o cuidar é o ato mais gratificante que alguém pode ter. É este o verdadeiro sentido da vida.

Houve os momentos de exaustão, mas a gratificação que o cuidar me trouxe transformou todos os aspetos negativos na minha melhor experiência da minha vida.


[Foto: DR]

[Foto: DR]

Diana Maia tem 33 anos, é enfermeira pós-graduada em gestão de Unidade de Saúde. Desenvolveu a sua experiência profissional no serviço de Medicina e Unidade de Cuidados Intensivos, bem como em Instituições Particulares de Solidariedade Social de apoio a idosos. Diana Maia, Ana Catarina Ribeiro e Ana Isabel Temudo estão atualmente em áreas diferentes, mas foi em inicio de carreira e naqueles locais que as agora autoras do livro ‘Do Hospital para Casa e Agora?’ ganharam a perceção da dificuldade que sente quem cuida.

Editado por CB