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“Gostar de mulheres, porque não?”

Defensora da sua destemida personagem, a atriz Gemma Whelan não tem palavras para agradecer a oportunidade de estar na série mais popular da atualidade. A Yara Greyjoy de Guerra dos Tronos sabe que vai ter saudades da série e da personagem, quando tudo terminar no próximo ano (pode ser em 2019), com a oitava temporada.

Para já, aprecia o lado rebelde, determinado e poderoso de Yara, a capitã de uma frota de navios, que esteve perto de ser a primeira mulher a ser governante das Ilhas de Ferro. A sexta temporada mostrou como Yara, além de lutadora, sobrevivente e destemida, tem uma predileção por mulheres, algo que a atriz não sabia que ia acontecer quando entrou na série na segunda temporada.

Ao Delas.pt a atriz britânica de 36 anos, conhecida no Reino Unido como comediante, explica também como pode mostrar agora um lado mais dramático. E defende que os cargos de liderança que as mulheres estão a ter em Guerra dos Tronos não são mais do que o reflexo das capacidades reais do género feminino, finalmente espelhado numa série de televisão. Falámos com Yara Greyjoy, ou melhor, Gemma Whelan, em Londres.

Qual foi o maior desafio de interpretar a Yara Greyjoy, com o seu lado mais agressivo e considerado masculino?

O que é mais desafiante em qualquer personagem é fazer-lhe justiça, seja qual for o género ou o estilo de pessoa. Li o guião e soube logo como interpretar. Disse: sei quem ela é, sei que consigo ser a Yara. E estava entusiasmada com o elenco com quem ia trabalhar. Era pouco conhecida (ainda sou) e até me conheciam melhor em Inglaterra pela comédia. Foi um privilégio poder conseguir o papel e estava focada em não fazer palhaçada logo no início, focando-me em quem a Yara é com o seu lado autoritário e intenso.

O que mais gosta nos Greyjoy e no reino das Ilhas de Ferro?

A morte, os barcos, a luta, a raiva (risos). Estou a brincar. É muito tenazes e tem uma força de vontade incrível e capacidade de sobreviver em situações tão difíceis, numa zona tão chuvosa e húmida. Apesar do povo ter ideias muito fixas sobre o que a Casa Greyjoy significa, o que sempre gostei da Yara é que ela manteve sempre uma mente aberta, mesmo quando a Daenerys Targaryen lhe diz a ela e ao irmão que, ali, não podem matar e pilhar, que é o modo de vida dos Greyjoy. A Yara consegue ver que a melhor decisão é respeitar e concordar. E mudar para conseguir o que pretende. Ou seja, eles têm uma vontade de ferro mas, no caso dela, também se sabe adaptar como qualquer bom líder.

A Yara vai evoluir e mudar muito na nova temporada?

Quem sabe (risos). Não posso dizer nada, mesmo. Esperamos sempre que a personagem possa crescer e tornar-se mais forte, mas não posso dizer nada sobre o que lhe acontece.

Os diferentes cenários, os castelos, os locais deslumbrantes, ajudaram a entrar no ambiente e na personagem?

Claro que sim, ajuda imenso. Colocarem-nos numa situação em que os figurinos têm um detalhe incrível e os cenários muitos deles são reais, entramos mesmo naquele mundo. Tudo ganha vida à nossa volta. Claro que quando estamos num barco no meio do mar, não estamos mesmo ali, estamos num parque de estacionamento (risos). É feito em pós-produção. Temos de usar a imaginação aí, mas o resto é incrível, com um nível de detalhe nos cenários que constroem e castelos e paisagens reais notáveis. Há um grande esforço para que nos sintamos dentro daquele mundo e isso ajuda-me muito. Acho que já não consigo fazer cenas daquelas num hotel ou assim, habituaram-nos mal. Muitas vezes, quando vemos um guião, achamos que não vamos conseguir fazer bem aquela cena, mas o cenário e os figurinos dão o apoio extra. É mágico.

Fica surpreendida quando vê o resultado final?

Sim, claro. Vi parte da sétima temporada, e fiquei mesmo deslumbrada. Às vezes não temos ideia que existem quatro câmaras a filmar-nos ao mesmo tempo, por exemplo. E estivemos a trabalhar a pensar que só tinham dois ângulos, mas depois vemos que há imagens de uma grua… a realização consegue um pormenor que achávamos que as cenas não iam ter. Surpreendemo-nos constantemente quando vemos o resultado final.

Vai ter saudades das gravações?

Dos colegas, da camaradagem, da equipa técnica, sim, claro. Das piadas, dos bons momentos. Conheço estas pessoas há vários anos, vemo-nos todos os anos e cria-se um laço bonito. Costumo ter saudades mas este ano nem por isso, porque contactámos mais. É um local de trabalho muito dinâmico, em que todos estão a dar o seu melhor. É um privilégio estar numa produção tão bela e de tanta qualidade. Mas assim que a série termine, com a oitava temporada, será difícil juntar toda a gente novamente. Vou ter saudades disso e também da Yara. Gosto dela e das oportunidades que ela me deu, num papel diferente do habitual.

A Yara permitiu-lhe mostrar, como atriz, um lado diferente da comédia, onde antes tinha tido mais sucesso em Inglaterra?

Sim, sem dúvida. Tenho tido sorte em fazer drama e comédia. Felizmente a Guerra dos Tronos é conhecida por escolher pessoas pouco famosas para personagens bem interessantes. Por isso, tive sorte em estar no local certo à hora certa. Estava num casting para uma série de comédia e, por acaso, estava lá o mesmo diretor de castings da Guerra dos Tronos. Por algum motivo ele achou que eu seria apropriada para a Yara. Foi mesmo sorte pura.

Na sexta temporada, as mulheres estão a dominar cada vez mais os lugares de poder. Isso também distingue esta série?

Claro que sim. E elas estão a conseguir porque a nível de história merecem (risos). Têm lutado por isso. É pena que essa pergunta tenha de ser feita, porque as mulheres são fortes, independentes e poderosas. E tomamos decisões importantes e determinantes. É bom haver personagens de mulheres fortes, porque nós somos fortes, nós já cumprimos esse papel de força no dia-a-dia. Por que não mostrar isso na televisão? Eu sou forte e independente na minha vida. As mulheres estão a ter papéis de liderança porque merecem, porque têm sido estratégicas na série e está a resultar. Estão a colher os frutos. São humanos a recolher aquilo por que lutaram, independentemente do género. Ainda é uma pergunta, porque é algo que está a mudar nesta altura, mas um dia vai deixar de ser sequer uma questão.

Ficou surpreendida quando a Yara revela preferência sexual por mulheres?

Não previ no início, sinceramente. Em Guerra dos Tronos nunca sabemos o que se vai passar até ao último momento, em que enviam o guião. Mas eu sou muito disponível relativamente ao caminho que dão à minha personagem, por isso pensei na altura: gostar de mulheres? Porque não?

Acha que a Yara é lésbica ou bissexual?

Não acho que seja bissexual, talvez pansexual, como se diz agora. Acho que ela está disponível para tudo, é o ethos [génese] dela. Não acho que ela tenha apenas uma preferência, tudo depende de como se sente naquela altura.

Mas sentiu-se alguma química com a Daenerys na sexta temporada…

Sim, isso houve mas não estava no guião, pelo menos de forma direta. Está tão bem escrito que provavelmente pode haver ali segundas intenções. E não tem de ser algo sexual, o poder também é entusiasmante. Eu e a Emilia [Clark] damo-nos muito bem e tudo depende dos guionistas, eles é que decidem para onde vão as personagens.

Qual a morte mais surpreendente da série até agora?

Para mim continua a ser a de Eddard Stark [interpretado por Sean Bean]. Foi incrível. Foi o primeiro e colocou a fasquia bem alto. Depois da morte do rei do Norte nada surpreende, porque ele era o herói da série. Todos pensámos que nada ia acontecer-lhe, por isso quando ele morre foi um choque grande. Também me impressionou o Casamento Vermelho, claro.

João Tomé